Você está aqui: Página Inicial / Revista / Pela hora da morte / Comer com a cabeça
Número 751, Junho 2013

Política

Sociedade

Comer com a cabeça

por Claudio Bernabucci publicado 16/06/2013 10h33
Como evitar o desperdicio de um terço dos alimentos produzidos no mundo?
Sean Winters/Flickr
frutas.jpg-2996.html

Como evitar o desperdicio de um terço dos alimentos produzidos no mundo?

Estudos recentes das Nações Unidas demonstram que um terço de todos os alimentos produzidos no mundo se desperdiça ou se descarta durante o processo de produção e consumo. Comerciantes e cidadãos pouco atentos jogam fora alimentos por mero descuido, alguns em bom estado de conservação. Os países ricos detêm a triste primazia de gerar quase metade desse desperdício, mas os países emergentes cobiçam alcança-los rapidamente. A comida perdida a cada ano chega ao brutal volume de 1,3 bilhão de toneladas, que representa mais do que a produção anual de alimentos da África Subsaariana. Essa quantidade seria suficiente para alimentar decentemente os 900 milhões de seres humanos que sofrem de subnutrição e fome no mundo inteiro.

Por essas razões, vale a pena prestar um pouco de atenção à campanha Pensar, Comer, Conservar, lançada oficialmente pelo Programa das Nações Unidas pelo Meio Ambiente (Pnuma) em 5 de junho. Em geral, cada agência da ONU lança anualmente uma nova campanha internacional em data marcada, que quase sempre corresponde às efemérides da própria fundação. As Nações Unidas não primam por ideias estimulantes quando se trata de celebrar tais aniversários. Povoadas em grande maioria por burocratas – que tendem inexoravelmente a expulsar os criativos –, elas produzem iniciativas de sensibilização da opinião pública mundial muito aquém das potencialidades. Por prudência, então, hoje vamos deixar de lado os exemplos mais modestos que vêm do olimpo do sistema ONU e só valorizar a iniciativa inovadora e minoritária do Pnuma.

“Diga não ao desperdício” é o lema de Pensar, Comer, Conservar, que bem poderia se adaptar a outros âmbitos da nossa civilização. A campanha, apoiada por numerosas ONGs, visa em primeiro lugar a induzir a reflexão sobre o impacto econômico e ambiental de nossas escolhas alimentares, a fim de reduzi-lo. Além dos dados assustadores acima mencionados, o grande público desconhece informações básicas sobre a problemática da produção alimentar. Por exemplo, estudos dos últimos anos demonstram que para produzir 1 quilo de carne bovina são necessários 15 mil litros de água ou, mais modestamente, 140 litros para uma xícara de café. E assim por diante. Não se trata, obviamente, de água contida naqueles alimentos, mas da quantidade necessária para produzi-los e que tem seu relativo impacto sobre o meio ambiente. Os cálculos do grau de incidência da produção de comida no desgaste da natureza são aplicáveis a qualquer alimento.

É importante, então, elevar a consciência de que, por trás de qualquer comida ou bebida nossa, existe uma história ambiental, de produção, trabalho, exploração e consumo, que precisa ser conhecida para ser modificada e se tornar mais virtuosa e sustentável.

O desperdício de alimentos, além de determinar evidentes problemas econômicos, seja a nível familiar ou empresarial, tem efeitos graves no meio ambiente: a produção global de alimentos ocupa 25% das terras habitáveis e é responsável por 75% do consumo de água potável, 80% do desmatamento e 30% das emissões de gases de efeito estufa. E se uma grande parte da comida produzida não é utilizada para sustentar nossa vida, isso significa também que todos os recursos usados na produção da parte desaproveitada são perdidos – inutilmente.

No planeta em que uma de cada sete pessoas passa fome ou é subnutrida e onde 20 mil crianças abaixo de 5 anos morrem a cada dia por falta de alimentação ou doenças ligadas à malnutrição, acredito firmemente que desperdiçar comida envolva também aspectos morais e religiosos.

A campanha do Pnuma é bem articulada e replicável com eficácia em qualquer tipo de comunidade: da escola até a fábrica. Tenta modificar atitudes erradas dos consumidores, induzir sua reflexão e comportamentos mais corretos. Espera-se que sua ação torne mais difícil desperdiçar comida ou água no futuro próximo.

O sistema econômico vigente tende a esconder tais realidades, dado que não favorecem o modelo consumista. O “direito à comida” ainda é pisoteado pela comunidade internacional. Não é reconhecido como direito humano, pelo simples fato de que a comida, junto à água, ou seja, os elementos básicos da nossa sobrevivência são vulgarmente considerados mercadorias entre tantas outras, como sapato, roupa, plástico, ferro-velho, pedra.