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Número 750, Maio 2013

Sociedade

Blogs do D. João VI

Base aliada para inglês ver

por Vitor Knijnik — publicado 29/05/2013 16h13, última modificação 29/05/2013 16h22
Inspirado em nossa fuga aos 48 minutos do segundo tempo de Portugal, durante a invasão napoleônica, o Senado aprovou a MP dos Portos a poucas de perder a validade. O timing para as coisas é o mesmo
D Joao

Do Blog do D. João VI

Sempre tive certeza das ligações entre Brasil e Portugal. Inspirado em nossa fuga aos 48 minutos do segundo tempo de Portugal, durante a invasão napoleônica, o Senado aprovou a MP dos Portos a quatro horas e meia de perder a validade. O timing para as coisas é o mesmo, perfeito, capaz de transformar qualquer episódio monótono em aventura. Só faltou uma velha louca que nem a minha mãe gritando no Congresso.

Tendo de votar assim, tão rápido, duvido que os parlamentares tenham lido a proposta inteira. Devem ter saído rubricando papéis e apertando o botãozinho do painel eletrônico. Gostaria de lembrar que foi numa dessas que eu assinei uma procuração e acabei casado com a Carlota Joaquina.

Dizem que a Abertura dos Portos às Nações Amigas foi apenas para favorecer os ingleses. Não tenho culpa se, na época, Portugal não tinha uma base aliada com tantos amigos.

Mas não acho que o governo Dilma deveria se queixar da atual base aliada. Afinal, como diria o Conde de Linhares ou algum líder do governo no Congresso, tal qual o apoio da esquadra inglesa em nossa transferência no fim de 1807, trata-se de um mal necessário.

O deputado Eduardo Cunha, por exemplo, reclamou da articulação política do governo e afirmou que o PMDB não pode ser tratado como “carimbador de cartório”. Eu, como príncipe regente, adoro um selo, um carimbo, uma autenticação de firma. Por isso não entendo a contrariedade do deputado Cunha. E de mais a mais, o PMDB é tratado de coisas muito piores nas redes sociais.

A MP provocou uma discussão entre ex-governadores, agora deputados, que me fez pensar sobre a Europa do século XIX. Fiquei imaginando Napoleão e George III batendo boca sobre chefia de quadrilha e credibilidade moral. Aí entendo a nostalgia das pessoas: não sei se o passado era realmente melhor, mas a Batalha de Trafalgar tinha cenas menos insólitas.

É curioso como o mundo dá voltas. No século XIX, meu azar foi ter um Napoleão como opositor na Europa. Hoje, a sorte do governo é ter uma oposição que pensa que é o Napoleão.

Articulistas também estabeleceram paralelismos entre a Abertura dos Portos às Nações Amigas e a MP dos Portos. A maior semelhança entre os dois episódio é o fato de que ambos são atos liberalizantes. O primeiro promovido por um monarca e o segundo por uma governante de esquerda. Quem esperaria isso desses personagens? O meu caso ainda se justifica pela pressão inglesa. Os britânicos precisavam de mais mercados para vender os seus patins de gelo e sobretudos de lã. E eu precisava pagar minha dívida com eles. Mas e a Dilma? Nem parece a mesma senhora que quer trazer médicos cubanos para instalar a revolução no Brasil.

A abertura dos portos às nações amigas, como se sabe, impulsionou a independência do Brasil. A MP dos Portos não sei se provocará efeito maior. Mas pelo menos já produziu cenas inéditas: deputados trabalhando até de madrugada.

Entendo as críticas contra a condução da articulação política do Planalto na votação da MP dos Portos. Realmente os deputados não tiveram tempo de analisar a matéria. Mas a vida é assim mesmo. É na pressão que as coisas acontecem. Não fosse os franceses na minha cola, o Brasil ainda seria colônia portuguesa. Considerando que estamos a um ano da Copa do Mundo, isso não seria de todo ruim. Pelo menos o Felipão poderia convocar o Cristiano Ronaldo para jogar ao lado do Neymar e assim dar um jeito naquele ataque que tá brabo.

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