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Número 749, Maio 2013

Internacional

Paquistão

Democracia. Será mesmo?

por Gianni Carta publicado 17/05/2013 12h00, última modificação 17/05/2013 13h05
Nas eleições legislativas, vence uma legenda islâmica com a aprovação do Taleban e de Obama. Mas... Por Gianni Carta, de Karachi, Paquistão
Asif Hassan/ AFP
Paquistão

Festa. No dia da eleição morreram 64 pessoas. Mesmo assim o povo está alegre

De Karachi, Paquistão

Foi uma vitória da democracia. É o que alegam numerosos observadores a respeito das legislativas de sábado 11, vencidas por Nawaz Sharif, da líder Liga Muçulmana do Paquistão (PML-N). Pela primeira vez desde a criação do país, em 1947, ocorreu a transição de um governo civil para outro, e este, mais um fato inédito, completou seu mandato de cinco anos. Isso tudo no contexto de uma curta história, a contar a divisão do subcontinente indiano entre a Índia e o Paquistão, país infelicitado por quatro golpes militares, o último deles chefiado pelo general Pervez Musharraf, que se manteve no poder de 1999 a 2008.

Segundo o Colégio Eleitoral, 60% dos 85 milhões de registrados compareceram às urnas, ante 44% em 2008. Seria fruto da intrepidez de um povo que quer mudar seu país? Assim sugere Tauqeer Hussain Sargarna, professor de Relações Internacionais da Bahria University, em Islamabad. No mínimo, os eleitores foram corajosos, visto que o Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP), o Taleban paquistanês, aconselhou os cidadãos a “evitar” as urnas, caso quisessem continuar vivos. “A democracia”, dita um comunicado do Taleban, “é um sistema não islâmico, de infiéis”.

Outras agremiações religiosas pregaram a não participação de mulheres nas legislativas. Foi o caso de legendas religiosas de Khyber Pakhtunkhwa (KP, ex-Fronteira Nordeste), uma das quatro províncias deste país. Essas agremiações islamitas avisaram os homens para dizer às mulheres, irmãs e filhas, a não votar no dia 11. “Não seria um ato muçulmano elas votarem.”

Zohra Yusuf, presidenta da ONG Comissão de Direitos Humanos do Paquistão, constata: “Nos países muçulmanos as mulheres costumam ter um papel público, mas não político, coisa para homem”. No sábado, marcaram presença eleitoras seculares, com véus ou burcas. Chamou a atenção deste repórter o fato de haver salas para votar para homens e outras para mulheres. “As mulheres também querem mudar este país”, disse Naila Madani, da tevê estatal Pakistan. “Independentemente de nosso comportamento religioso, queremos igualdade.”

Irregularidades não escassearam no pleito em Karachi e em outras províncias. Passei por pelos menos dois colégios eleitorais de portas fechadas. O povo, fora, a reclamar seu direito de votar. No colégio eleitoral F. G. Girls College, ao sul de Karachi, em um país onde a comunidade cristã representa apenas 2% da maioria sunita, um eleitor à espera de votar está com raiva. Há duas horas está na fila debaixo de um sol a pino, temperatura de 42 graus. Chama-se Imran Bashir, traja elegante túnica branca, fala em um inglês impecável. Indago se não tem medo de se expor às bombas do Taleban. “O que o senhor quer que eu faça? Ficar em casa, com medo do Taleban, e não tentar mudar o futuro do meu país?” Dentro do colégio eleitoral, o staff é mínimo. Indago ao presidente do Colégio Eleitoral da sessão o motivo. “Não sei por que os outros não vieram.”

Na saída do colégio eleitoral, reencontro Bashir. “As legendas radicais não querem os votos dos cristãos.” Trata-se de um cidadão culto.  Engenheiro, está desempregado. “E aqui estou”, me diz, “para votar por um regime democrático sob as ameaças de um bando de terroristas.” As minorias não foram e não serão os únicos alvos do Taleban paquistanês.

Visaram, através de pistoleiros em garupas de motos e em automóveis, sem falar dos homens-bomba, eleitores e integrantes dos três partidos liberais: Partido Nacional Awami (ANP), Movimento Muttahida Qaumi (MQM) e Partido Popular Paquistanês (PPP). Desde o início da campanha eleitoral para a Assembleia Nacional e quatro assembleias provinciais, em março, morreram 160 pessoas, entre eleitores e políticos. No dia do pleito perderam a vida 64 pessoas, 11 delas em uma das quatro explosões ocorridas em Karachi, o centro econômico de 18 milhões de habitantes, um décimo da população do país.

Enquanto isso, o Taleban paquistanês parece simpatizar com Sharif e Imran Khan, ex-campeão mundial de críquete em 1992 e líder do Movimento pela Justiça do Paquistão (PTI). Por isso, os dois partidos, ao contrário de seus rivais seculares, puderam organizar comícios sem temer tiros e bombas. De fato, Sharif e Khan disseram que pretendem negociar com o Taleban. Ambos se pronunciaram contra os teleguiados norte-americanos a matar civis no Paquistão e no Afeganistão. Por sua vez, Khan repetiu que o Taleban não é um movimento religioso, e sim uma organização de defesa de seus territórios contra os estrangeiros. Ambos foram não somente poupados, mas Sharif será o novo premier, e Khan disputa a liderança da oposição à testa do PTI. Com cerca de 125 cadeiras, Sharif provavelmente formará, no entanto, um governo com legendas independentes, e não com rivais como Khan.

O Taleban pode não ter conseguido torpedear o pleito, mas ajudou a eleger o líder de um partido islâmico. Em miúdos, o Taleban venceu o pleito. E, ironicamente ou não, a escolha de Sharif foi aplaudida pela chamada “comunidade internacional”: Barack Obama, observadores eleitorais da União Europeia, comentaristas de jornalões neoliberais, agências noticiosas ocidentais, e até líderes de países em acelerado desenvolvimento, como o premier da Índia, Manmohan Singh, e Hamid Karzai, presidente de um país assolado pela guerra civil.

O novo premier, de 63 anos, o primeiro a ser eleito pela terceira vez, agrada por motivos domésticos e/ou internacionais, visto que o Paquistão no Sul da Ásia é país de enorme importância em áreas econômicas e geopolíticas. Os bilhões de Sharif, oriundos da indústria do aço, fazem dele um exemplo similar a Silvio Berlusconi na Itália. O povo, antes de amadurecer, vota sempre naqueles que parecem capazes de abrir portas inesperadas e lhes servir de modelo, mesmo que essas esperanças não passem de ilusão. Durante a campanha, Sharif repetiu qual era sua prioridade: “A economia, a economia, a economia”. Por sua vez as Bolsas de Valores, por motivos outros que os do povo, reagiram com o esperado entusiasmo.

Sharif pode ser um neoliberal, o que satisfaz a “comunidade internacional”, mas ninguém confia nele. “Apoia as elites e as classes médias, nem quer saber das classes trabalhadoras”, me diz Tauseef Ahmed Khan, analista político de vários periódicos paquistaneses. Sharif, vale lembrar, já foi condenado à prisão perpétua por corrupção e foi salvo pelos sauditas, paraíso de ditadores e grupos extremistas a agir no mundo árabe.

Após 11 de setembro, estabeleceram-se formas de colaboração entre os EUA e o Paquistão. Ao longo da campanha, Sharif não se cansou de repetir que não haveria mais cooperação entre os serviços de inteligência (CIA e ISI, no Paquistão) e exércitos. Pior para os EUA: em lugar de anunciar operações militares contra o Taleban e a Al-Qaeda, Sharif aponta para futuras negociações com o Taleban.

Estaria Sharif se aproximando de movimentos islâmicos radicais? “Uma coisa é o que você diz na campanha eleitoral, outra é aquela colocada em prática uma vez no cargo”, diz Hussain Sargarna, da Bahria University. Certo é que, já eleito, Sharif “felicitou os norte-americanos pela retirada de tropas” do Afeganistão. E ofereceu “todo o apoio necessário” para nossos “amigos norte-americanos”.

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