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Número 748, Maio 2013

Cultura

O Som da Imagem

Pelo caminho, um velho barco

por Oliviero Pluviano — publicado 10/05/2013 11h50, última modificação 17/05/2013 12h14
O nome parece metáfora do sofrimento de uma área do Oriente Médio. Consolo-me ouvindo Fairuz, rouxinol libanês
Som

Evocação. Há dois anos, em Gaza, uma orquestra regida por Barenboim tocou Wagner. Foto: Oliviero Pluviano

Não é muito simples visitar a Estação Ecológica Jureia-Itatins, um dos mais espetaculares refúgios da Mata Atlântica no litoral paulista, ao sul de Peruíbe. Para quem quiser se aventurar além da Barra do Una, onde termina a estrada, é preciso ter uma autorização difícil de obter. Para aqueles que quiserem ultrapassar os limites dessa reserva integral há, porém, uma oportunidade: uma vez por ano, no começo de agosto, os “romeiros” do Senhor Bom Jesus de Iguape têm permissão para atravessá-la.

A imagem tem uma história que remonta a 1647. Chegou ao Brasil vinda de Portugal a bordo de um veleiro que, na altura de Pernambuco, foi atacado por um navio pirata. O comandante, para evitar que a figura sagrada afundasse com seu navio, colocou-a em uma caixa junto a garrafas de óleo, e a confiou às correntezas do oceano. Meses mais tarde, na imensa praia da Jureia, dois índios a encontraram e comunicaram o fato às populações de Iguape e Itanhaém. Diz a lenda que chegaram duas procissões de ambas as cidades, uma posicionada ao sul da Jureia e a outra ao norte. Ambas a reivindicavam e no cabo de guerra que se seguiu aconteceu um milagre: a imagem era muito pesada quando aqueles de Itanhaém conseguiam levar a melhor, mas extremamente leve quando se impunham aqueles de Iguape. No fim, todos concordaram que a imagem escolhera seu destino.

Andei os primeiros 14 quilômetros de praia e os seis sucessivos da magnífica mata, chegando finalmente a atravessar as montanhas ao longo da “Trilha do Imperador”, onde ainda é possível ver os postes ingleses do telégrafo que ligava dom Pedro II aos comandos da Guerra do Paraguai. Durante a caminhada apareceu esse barco naufragado que com o seu nome “Palestina”, metáfora surpreendente do que ocorreu e ocorre naquela área sofrida do Oriente Médio. Lembrei-me do barco quando, recentemente, fui assistir ao filme francês Uma Garrafa no Mar de Gaza. A história da amizade “virtual” entre uma garota judia e um jovem palestino durante a Operação Chumbo Fundido, desencadeada pelo exército israelense em 2008, é muito interessante e trágica como visão da vida incerta e manchada de sangue dos protagonistas em Tel-Aviv e na Faixa de Gaza.

Há dois anos, o maestro judeu-argentino Daniel Barenboim conseguiu levar para Gaza uma orquestra europeia formada por 25 voluntários provenientes do Scala de Milão e das filarmônicas de Berlim e Viena. Com o apoio secreto da ONU eles conseguiram entrar na Faixa a partir da fronteira com o Egito. Barenboim já tinha apresentado em Ramallah, na Cisjordânia, uma orquestra com músicos árabes e judeus, e levou para Jerusalém, pela primeira vez após os horrores do Holocausto, uma ópera de Richard Wagner, idolatrado por Hitler e, portanto, proibido em Israel. A Orquestra de Gaza tocou com sucesso fragoroso a Sinfonia 40 de Mozart, muito conhecida em todo o mundo árabe por conta de uma versão de Fairuz, o rouxinol libanês de 77 anos que continua sendo a cantora número 1 do Islã. Ouça no YouTube Ya Ana, Ya Ana de Fairuz: a música do mundo inteiro trabalha pela paz.

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