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Número 748, Maio 2013

Internacional

Paquistão

Onde o Taleban cria o confronto

por Gianni Carta publicado 10/05/2013 10h25, última modificação 10/05/2013 11h18
Os destinos do Oriente Médio passam por esta eleição. Por Gianni Carta, de Karachi, Paquistão
Paquistão

Durante a campanha foram mortos mais de uma centena de políticos e eleitores dos três partidos liberais. Foto: Aamir Qureshi/ AFP

De Karachi, Paquistão

Às vésperas de eleições gerais no sábado 11, o clima é, para minimizar o quadro, tenso. Na noite de quinta-feira 9, Ali Haider, filho do ex-premier Yousuf Raza Gilani, da legenda atualmente no poder, o Partido Popular do Paquistão (PPP), foi sequestrado em um comício em Multan, cidade situada no centro do país. Haider Gilani, o filho mais jovem do ex-premier, é candidato à Assembleia da Província do Punjab, uma das quatro do Paquistão. Até a hora em que esta edição estava sendo impressa nenhum grupo havia reivindicado responsabilidade pelo ataque.

Segundo testemunhas, atiradores em um automóvel Honda preto e de uma motocicleta mataram uma pessoa diante do candidato do PPP. O filho do ex-premier foi então  colocado no carro, que partiu rapidamente. Mais cinco pessoas ficaram feridas. Segundo algumas testemunhas, Haider Gilani teria também sido atingido por uma bala, houve quem o visse ensanguentado. O pai foi premier até junho de 2012, quando foi deposto pela Suprema Corte por se recusar a tomar posição contra os casos de corrupção que envolvem o atual presidente do PPP, Asif Ali Zardari.

O sequestro de Haider acentua a violência que tem permeado a campanha eleitoral. Desde seu início, em março, o dia a dia é pontuado por sequestros e assassinatos perpetrados, em sua vasta maioria, pelo Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP), o Taleban paquistanês. Foram mortos mais de uma centena de políticos e eleitores presentes a comícios, na maioria dos casos das três agremiações liberais: o Partido Popular do Paquistão (PPP, em inglês), o Movimento Muttahida Qaumi (MQM), e o Partido Nacional Awami (ANP).

Os assassinos atiram da garupa de motocicletas. Repórteres não foram poupados. Ouço um deles: “Quando o Taleban me ameaçou de morte, tive de me esconder meses com a minha família”. Na sexta-feira 3, um dos mais proeminentes magistrados a perder a vida foi Chaudhry Zulfiqar, o procurador que investigou a morte, ocorrida em dezembro de 2007, da ex-primeira-ministra Benazir Bhutto, do PPP. Foi convocado também quando dos atentados praticados em 2008 por terroristas paquistaneses em Mumbai, na Índia, que deixaram 166 mortos. Indago ao colega no clube de jornalistas quem matou Benazir e Chaudhry. Ele dá de ombros.

As duas das quatro províncias mais afetadas do Paquistão são a de Khyber- -Pakhtunkhwa (KP, ex-Fronteira Noroeste), onde se aglomeram tribos de pashtuns (grupo que fala o pashto com origens no Irã e a viver no Afeganistão e Paquistão), e de afeganes, os quais não reconhecem a KP como paquistanesa, e sim uma província afegã. Naquela província, proliferam movimentos como a Al-Qaeda e o Taleban, entre outros jihadistas.

A outra cidade de alto risco é Karachi, capital da província de Sind. Com 18 milhões de habitantes, é não somente a mais populosa, mas também a potência econômica do país de 190 milhões de almas. Nesse conglomerado não é difícil detectar tropas de choque, policiais nos mais ocultos ângulos possíveis no caso de qualquer súbito embate. “Mas não se iluda, os talebans estão em todas as partes e prontos para atacar”, constata Abdul Jabbar, dono de uma loja de eletrodomésticos no centro de Karachi. De fato, logo vejo sentado atrás de uma caminhonete sem os logos da polícia ou do exército um barbudo com cara de poucos amigos a empunhar sua metralhadora. Ele ordena para que eu pare de fotografar. Karachi não parece uma cidade às vésperas de uma eleição: ela se prepara para uma guerra civil.

Sem convencer, o chefe do exército, o general Ashfaq Parvez Kayani tranquiliza seus conterrâneos. Haverá forças de segurança por todo o país. Ironicamente, esta é a primeira vez, desde a partição do subcontinente indiano, em 1947, que a transição em uma eleição geral passa de um governo civil para, espera-se, outro. Desde a fundação do país por Muhammad Ali Jinnah, com diversas etnias e credos, o processo será democrático. O país teve quatro ditaduras militares, a última delas chefiada pelo general Pervez Musharraf, de 1999 a 2008.

Há 85 milhões de paquistaneses registrados para votar, dos quais 30% têm entre 18 e 29 anos, para a Assembleia Nacional (Congresso Nacional e os governadores das quatro províncias). No Senado, o PPP, com 104 cadeiras, manterá a maioria, visto que o pleito é para apenas um terço das cadeiras. Para garantir a chefia do governo e a maioria, o eleitor precisa de 172 cadeiras, algo que só aconteceu uma vez, em 1997, com Nawaz Sharif, líder da Liga Muçulmana do Paquistão (PML-N).

Enquanto isso, em cidades como Lahore, capital do Punjab, província mais populosa do país, o Taleban paquistanês não semeia bombas nos comícios de Sharif, ex-premier duas vezes nos anos 1990, e provável vencedor, segundo enquetes.  O Taleban também poupa Imran Khan, maior rival de Sharif. Ex-campeão mundial de críquete em 1992, o herói nacional Khan lidera o Movimento pela Justiça do Paquistão (PTI). Embora Khan diga que não fará alianças com o PML-N ou com o PPP, seu discurso lembra muito o de Sharif.

De saída, o Taleban parece simpatizar com os dois políticos porque Sharif quer negociar com o movimento, é contra os teleguiados norte-americanos a matar civis no Afeganistão e no Paquistão e não pretende ser fantoche dos Estados Unidos, como no passado. Por sua vez, Khan alega que o Taleban não é meramente um movimento religioso, e sim uma organização de defesa de seus territórios contra estrangeiros. Sharif, diga-se, deverá obter mais votos do que Khan, embora o campeão de críquete ao cair de um elevador improvisado durante um comício e tenha sofrido várias fraturas, inclusive de vértebras, o que lhe rendeu mais simpatizantes. O discurso antiamericano de Kahn – e de Sharif – também funciona em um momento em que esse sentimento prevalece no Paquistão.

“O Taleban criou uma clara divisão entre o povo paquistanês”, opina, na sede do MQM, subúrbios de Karachi, Syed Haider Abbas Rizvi, candidato à Assembleia Nacional. Ainda segundo o político, o Taleban organizou a melhor campanha ao permitir comícios de partidos religiosos que perfilam a seu lado e ao dinamitar os meetings de legendas liberais. Abbas Rizvi crê que o referendo sobre o Taleban proposto por sua sigla e pelas outras duas liberais está ocorrendo. Como assim? “Se o povo votar em um partido liberal e formarmos uma coalizão, haverá uma saída para o Paquistão e para o Afeganistão. Caso contrário, o povo votará em um Estado fundamentalista isolado do mundo.”

Abbas Rizvi fala ainda sobre as repercussões mundiais destas eleições. O colapso do Paquistão significaria um influxo ainda maior de extremistas no Sul da Ásia e isso desestabilizaria ainda mais o Oriente Médio. A programada saída dos Estados Unidos e da Otan do Afeganistão no próximo ano deixaria o país em estado de anarquia. Outras nações seriam afetadas, como, por exemplo, a Índia, também uma potência nuclear com a qual o Paquistão teve três entreveros por causa da Caxemira, administrada pela Índia. Houve também contendas sobre a secessão de Bangladesh, em 1971, com o auxílio da Índia.  Como prevê o jornalista Ahmed Rashid, a Ásia Central poderá ser o novo centro para a militância da Al-Qaeda. O problema é que Bush jr. e Barack Obama queriam apenas se desfazer da Al-Qaeda de Bin Laden. E o que fazer dos extremistas no Paquistão?

Abbas Rizvi não nega que na guerra do Afeganistão contra a ex-União Soviética houve uma união entre os serviços secretos norte-americano e paquistanês, a CIA e o ISI, e entre os respectivos exércitos. Foram criados monstros, em primeiro lugar o próprio Bin Laden. Daí o sentimento antiamericano a orientar as forças do ISI e do exército paquistanês. Mesmo assim, Abbas Rizvi não sabe até que ponto, ou escalão, isso acontece. Na dúvida, indago à minha fonte do clube dos jornalistas qual foi o momento em que os EUA e o Paquistão entraram em conflito. “Quando os norte-americanos mataram Osama bin Laden em território paquistanês sem nos avisar.” Mas em Abbotabad, a 60 quilômetros de Islamabad,  os oficiais aposentados não estavam cientes da existência de Bin Laden nas cercanias? “Mesmo assim, um acordo deveria ter sido selado.”

Foi muito mais fácil chegar na sede da legenda Jamaat-e-Islami, visto que não havia checkpoints como na do MQM, onde tive de telefonar para o entrevistado diversas vezes diante dos olhares soturnos dos fardados da segurança. Várias bombas têm explodido na sede do MQM para provocar vítimas fatais, o que não tem acontecido na sede da legenda pró-Taleban. O doutor Merja Ul-Huda Siddiqui, candidato à Assembleia Nacional do Jamaat-e-Islami, argumenta: “Nós queremos um governo islâmico, baseado na Sharia, mas eleito de forma democrática”. Argumento que ele mantém elos com a Irmandade Muçulmana e vemos como o governo egípcio está em maus lençóis. “É preciso dar tempo ao tempo”, retruca. “Essas legendas liberais corruptas são criminosas, e o MQM mata gente do próprio partido.” Ele cita o caso do presidente Ali Zardari, que passou 11 anos atrás das grades por corrupção, tráfico de drogas e até por supostos homicídios.

Indago se o Taleban não está proibindo comícios de partidos liberais e assim prejudica um debate democrático. O doutor, sempre cortês, retruca: “O povo quer os partidos religiosos. Basta à corrupção”. E se o Taleban voltar ao poder no Afeganistão? “Será a vontade do povo. Ninguém quer o atual presidente Hamid Karzai.”

Zora Yusuf, presidente da ONG Comissão de Direitos Humanos do Paquistão, coloca os pingos nos is. “As verdadeiras vítimas são os eleitores, que não podem se exprimir. Os partidos seculares seguem, e isso é normal em uma república muçulmana, de princípios muçulmanos. Mas os partidos religiosos usam o Taleban paquistanês sem escrúpulos.”  E finaliza: “O mais incrível disso tudo é que, em 1947, Jinnah, o nosso fundador, não previa divisões étnicas e religiosas”.

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