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Número 746, Abril 2013

Cultura

Refogado

Sorry, periferia!

por Marcio Alemão publicado 26/04/2013 14h00, última modificação 26/04/2013 14h23
Entre os pertences da bisavó surge um livro em que Ibrahim Sued dá receita do menu servido pelo xá da Pérsia num jantar
Refogado

Em "Aprenda a Receber", o colunista discorre sobre a arte de ser fino. Entre os conselhos, não se coçar em público

Este refô começa de um jeito triste: faleceu a bisavó de minha esposa, aos cento e alguns anos. Na verdade faz tempo que isso aconteceu, mas não deixa de ser triste. A parte ainda mais triste da história, e essa começou há pouco, está acontecendo na casa onde a senhora vivia. Imagine ter de organizar mais de cem anos sem nenhuma solidão traduzidos em cartas, papeladas, fotos, livros, latas de Duchen com biscoitos fossilizados, latinhas de balas de cevada Sönksen e demais lembranças.

A parte divertida: depois da clássica suspirada e a vontade de atear fogo em tudo, vem a primeira risada quando um dos parentes apanha uma carta e a lê.

Seguem-se verdadeiras descobertas arqueológicas: cartão de visitas de Ramos de Azevedo, a praça mesmo, em pessoa, estava em uma caixa ao lado de centenas de outros cartões. Sim, era um tempo diferente, anterior à massificação dos cartões de visita promovida pelos japoneses. Não eram distribuídos sem critério.

Fuça daqui e mexe dali até que, de repente, duas raridades surgem: livros do colunista social Ibrahim Sued. É provável que muitos leitores, os jovens principalmente, não tenham sequer ouvido falar de Ibrahim, mas quem tiver interesse em pesquisar vai encontrar farto material sobre a alta sociedade ao longo de três décadas.

Ibrahim chegou a ter o poder de quem detém a informação.

De volta ao achado: Aprenda a Receber, publicado em 1977 pela Editora Top e distribuído nas bancas pela Fernando Chinaglia.

Na abertura do livro temos uma lista de “mandamentos”.

O primeiro diz: “Não coçar-se, palitar os dentes, cuspir, pentear os cabelos, cortar ou limpar as unhas em público”. Mais adiante: “Não espirrar ou tossir em cima dos outros”. E algumas sugestões de fato relevantes como “não cultivar a vulgaridade, de aparência ou de sentimentos”. Ibrahim costumava cometer erros ao falar e ao escrever. E nesse livro descubro que até Antonio Houaiss o havia autorizado a fazê-lo: “Uma coisa que recomendo aos meus copy-desks é que deixem meus erros de concordância, porque o público gosta da maneira como escrevo”. E ele abre aspas:

“Esqueça Camões. Favor não mexer no meu estilo.” E finaliza citando Houaiss. Ah, claro, a última frase é um de seus bordões: “Sorry, periferia, porque os cães ladram e a caravana passa.” Um momento deveras curioso do livro acontece quando Ibrahim alerta que “o homem moderno, a mulher moderna, já não usam mais o papel (higiênico). Fazem uso do bidê”. E o final do parágrafo traz uma revelação: “Eu, por exemplo, não uso mais papel. Só vou de bidê”. A certa altura, ele nos brinda com a descrição do menu do banquete oferecido pelo xá da Pérsia e sua esposa, Farah Diba.

A entrada, oeufs de cailles aux perles de Bandar Pahlavi.

E a receita vem junto: caviar (30 gramas por pessoa), ovos de codorna (3 por  pessoa), creme de leite fresco, sal, pimenta, cebolinha (provavelmente deveria ser ciboulette, que é bem mais delicada). E para a massa, das tartelette, farinha 250 gramas e 150 gramas de manteiga.

Prepare a massa, uma clássica massa podre, forre forminhas e leve para assar. Os ovos de codorna devem ser pochê. Uau! Isso deve dar um trabalho danado: cozinhar um a um em água acidulada. Retire as forminhas, desenforme a tartelette, coloque o caviar e sobre ele os ovos o creme fresco batido com sal e pimenta e salpique as cebolinhas.

Ibrahim nos informa que essa é uma receita do Maxim’s de Paris. Na gastronomia, nada poderia ser mais chic, naqueles tempos, do que o Maxim’s.

Darei outras receitas do colunista em outras oportunidades. De fato, representam um tempo e até mereceriam ser reeditadas.