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Número 746, Abril 2013

Sociedade

Nordeste

Nem mandacaru suporta

por Rodrigo Martins publicado 26/04/2013 14h13, última modificação 02/05/2013 19h22
A sobrevivência, as relações pessoais e o jogo de poder em uma cidade do Semiárido baiano na maior seca dos últimos 60 anos
Edson Ruiz
nordeste

O prefeito de Antas prometeu construir um parque aquático na cidade. Hoje, é investigado por negar água a opositores políticos

Conteúdo
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As carçacas são deixadas à beira da BR 110

Quem transita pela BR- 110, no Norte da Bahia, começa a sentir pelo olfato o drama da seca, a se arrastar por quase três anos. O forte fedor de carniça invade o carro em movimento, mesmo com os vidros fechados. Pelo acostamento da rodovia, as carcaças de gado, dezenas delas, garantem o banquete de urubus. “Esse é o cheiro da minha terra”, lamenta o comerciante Ernandes Matos, em meio à vã tentativa de conter o choro. Há 13 anos o baiano migrou para São Paulo. Trabalhou como garçom, tornou-se maître e juntou dinheiro até abrir o seu restaurante na capital paulista. É com o lucro do negócio que ele ajuda a mãe, aposentada, a manter uma roça com 32 bois em sua terra natal – dois morreram na última semana, ele viria a descobrir mais tarde. “Tem gente que perde a cabeça, até suicídio já teve.”

O município de Antas tem pouco mais de 17 mil habitantes. Está localizado a 360 quilômetros de Salvador, próximo da divisa com os estados de Sergipe, Alagoas e Pernambuco. Engana-se quem acredita ser esta uma terra infértil e marcada pela miséria. Trata-se de uma próspera região de pecuária leiteira e de corte, além de abrigar o cultivo de milho e feijão. Isso quando há chuva, ainda que pouca. “Todos esperam um período de estiagem de três a quatro meses no verão. O problema é que não chove desde outubro de 2010. Ninguém estava preparado para aguentar tanto tempo”, diz Matos. “O capim secou, nenhuma plantação vinga e o povo não tem mais de onde tirar dinheiro para comprar a ração do gado. Se minha mãe não tivesse ajuda dos filhos, teria perdido a roça.”

A pior seca dos últimos 60 anos mudou a paisagem local. Os seis principais açudes da cidade estão secos, entre os quais o maior deles, municipal, com cerca de 500 metros de extensão. A cidade de Adustina, a 30 quilômetros de Antas, tem o maior açude da região, com mais de 6 quilômetros de extensão. Ou melhor, tinha. Pela primeira vez em sua história, o reservatório construído nos anos 1960 está completamente sem água, levando à derrocada uma cooperativa de pescadores instalada em suas margens. Estima-se que ao menos 70% do rebanho bovino morreu ou foi vendido. O preço do gado despencou. Se há três anos a arroba valia até 135 reais, hoje é difícil encontrar alguém disposto a pagar mais de 50. Na contramão, encareceu o custo da ração. Um saco de milho vale em torno de 55 reais. Antes, custava menos da metade.
Quem tem mais recursos, arrendou terras em outras regiões para levar o gado. É o caso do deputado Marcelo Nilo (PDT), presidente da Assembleia Legislativa da Bahia e pré-candidato ao governo do estado. “Levei 300 bois para Eunápolis, no sul do estado, para não ver os animais morrerem de fome. A situação é terrível. A economia da região retrocedeu 55%. Se não houvesse Bolsa Família, Bolsa Estiagem e outros benefícios concedidos pelo governo, haveria uma guerra civil”, afirma o parlamentar, nascido em Antas e oriundo de rica família pecuarista.

As perdas atingem todos, ricos ou pobres. Evidentemente, a situação é mais perversa para os pequenos produtores e criadores. “O gado está caindo de fome. Aquela vaca ali precisa de cinco, seis homens para levantar”, comenta Lourival Bispo Santana, de 76 anos, ao apontar para o animal esquálido, deitado inerte sobre o chão pedregoso. “Dou toda a assistência aos animais, mas não tem jeito. Perdi 18 rezes nas últimas três semanas. O gado está muito fraco. Trago água com meu trator, compro ração, mas não posso dar só milho. É muito caro, tenho de misturar com palha de coco, mandacaru cortado. Não alimento os bois para engordar, e sim para sobreviver.”


O município de Antas tem pouco mais de 17 mil habitantes. Está localizado a 360 quilômetros de Salvador, próximo da divisa com os estados de Sergipe, Alagoas e Pernambuco. Engana-se quem acredita ser esta uma terra infértil e marcada pela miséria. Trata-se de uma próspera região de pecuária leiteira e de corte, além de abrigar o cultivo de milho e feijão. Isso quando há chuva, ainda que pouca. “Todos esperam um período de estiagem de três a quatro meses no verão. O problema é que não chove desde outubro de 2010. Ninguém estava preparado para aguentar tanto tempo”, diz Matos. “O capim secou, nenhuma plantação vinga e o povo não tem mais de onde tirar dinheiro para comprar a ração do gado. Se minha mãe não tivesse ajuda dos filhos, teria perdido a roça.”

A pior seca dos últimos 60 anos mudou a paisagem local. Os seis principais açudes da cidade estão secos, entre os quais o maior deles, municipal, com cerca de 500 metros de extensão. A cidade de Adustina, a 30 quilômetros de Antas, tem o maior açude da região, com mais de 6 quilômetros de extensão. Ou melhor, tinha. Pela primeira vez em sua história, o reservatório construído nos anos 1960 está completamente sem água, levando à derrocada uma cooperativa de pescadores instalada em suas margens. Estima-se que ao menos 70% do rebanho bovino morreu ou foi vendido. O preço do gado despencou. Se há três anos a arroba valia até 135 reais, hoje é difícil encontrar alguém disposto a pagar mais de 50. Na contramão, encareceu o custo da ração. Um saco de milho vale em torno de 55 reais. Antes, custava menos da metade.

Quem tem mais recursos, arrendou terras em outras regiões para levar o gado. É o caso do deputado Marcelo Nilo (PDT), presidente da Assembleia Legislativa da Bahia e pré-candidato ao governo do estado. “Levei 300 bois para Eunápolis, no sul do estado, para não ver os animais morrerem de fome. A situação é terrível. A economia da região retrocedeu 55%. Se não houvesse Bolsa Família, Bolsa Estiagem e outros benefícios concedidos pelo governo, haveria uma guerra civil”, afirma o parlamentar, nascido em Antas e oriundo de rica família pecuarista.

As perdas atingem todos, ricos ou pobres. Evidentemente, a situação é mais perversa para os pequenos produtores e criadores. “O gado está caindo de fome. Aquela vaca ali precisa de cinco, seis homens para levantar”, comenta Lourival Bispo Santana, de 76 anos, ao apontar para o animal esquálido, deitado inerte sobre o chão pedregoso. “Dou toda a assistência aos animais, mas não tem jeito. Perdi 18 rezes nas últimas três semanas. O gado está muito fraco. Trago água com meu trator, compro ração, mas não posso dar só milho. É muito caro, tenho de misturar com palha de coco, mandacaru cortado. Não alimento os bois para engordar, e sim para sobreviver.”

Apesar das agruras, o pecuarista pode se considerar um privilegiado na região. Tem trator para buscar água e conseguiu preservar 320 cabeças de gado. Magras, mas vivas. O aposentado José Matos viu quase metade do seu pequeno rebanho morrer, antes de decidir levar o que sobrou para a roça de um conhecido em Sergipe. “Tinha 22 cabeças de gado. De um ano pra cá, nove morreram”, afirma. “Pago a ração com o dinheiro da aposentadoria rural que recebo. Mas se meu filho que trabalha em São Paulo não mandasse dinheiro, não teria jeito. Faltaria até para eu comer.” Enquanto secava alguns pedaços de carne sobre o fogão à lenha de sua casa, o criador se queixava da insensibilidade do governo em oferecer assistência. “Prometeram milho por 18 reais, mas não conheço ninguém que tenha conseguido comprar. É uma burocracia danada, ninguém sabe como ter isso.”

Ao seu lado, o pecuarista José Araujo explica que o milho subsidiado foi oferecido pelo governo federal. A oferta seria garantida pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), ligada ao Ministério da Agricultura. Para ter acesso é preciso, porém, preencher um cadastro na Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (Ebda). “Fiz tudo direitinho. Entreguei os papéis com o pedido em junho do ano passado. Até agora não liberaram nada. Aí eu te pergunto: o boi aguenta ficar quase um ano sem comer?” Araujo teve de se desfazer de quase todo o rebanho. Tinha 50 cabeças de gado de corte. Não restou nenhuma. Para não ver os animais morrerem, viu-se obrigado a vendê-los aos poucos. A última leva passou adiante por 45 reais a arroba, o menor preço alcançado por seus bois. Das 150 ovelhas, restaram dez. Manteve 25 vacas leiteiras, embora a alimentação precária tenha derrubado a produtividade. Se antes cada uma delas dava 30 litros de leite por dia, hoje não passa de 10. “Não tenho mais de onde tirar dinheiro para alimentá-las. O Banco do Nordeste abriu uma linha de crédito de até 12 mil reais aos pequenos produtores da região. Mas só permite que 20% seja gasto com compra de ração. O restante, obrigatoriamente, tem de ser investido em benfeitorias, como cisternas e limpeza de açude. Só que esses 2,4 mil reais disponíveis para a ração não dura nem um mês. Para que vou investir na roça se o rebanho vai morrer de fome?”

A inventividade para lidar com as adversidades é incrível. Ciente de que todo ano há um período de estiagem, os cidadãos se preparam de múltiplas formas.

Uma delas é plantar palma, espécie de cacto forrageiro, comestível e resistente a longos períodos sem água. Também investe em silagem, que consiste em triturar espigas inteiras de milho e armazenar em locais hermeticamente fechados, normalmente sob a terra, para garantir a reserva alimentar dos animais. Quando tudo acaba, saem à procura do mandacaru, bastante comum no Nordeste. Todos esses produtos podem ser misturados ao milho, de alto valor energético, para manter o gado vivo diante da escassez de capim.

O problema é que a seca se prolongou demais e todas as reservas estão no fim. Até o mandacaru, planta nativa da região, está em extinção, o que levou o Ibama a proibir seu consumo. “Eles dizem que as aves dependem do mandacaru para sobreviver. Eu não tenho escolha, os bois estão passando fome. Antes morrerem as aves do que o gado, que é a principal fonte de sustento do povo”, comenta José Felício dos Santos, de 74 anos. Dono de uma roça no povoado de Vacas Mortas (o nome não tem relação com a seca, e sim com uma antiga história de dois animais tombados após uma briga), ele se mantém com a aposentadoria rural. “Nessa seca ninguém consegue sobreviver da terra.” Seu vizinho, Antonio de Jesus, de 37 anos, não conta com nenhum benefício para manter suas 14 cabeças. “O dinheiro está no fim. Não sei quanto tempo mais aguento.”

O grande medo dos pequenos produtores é assumir dívidas e não poder pagá-las se a estiagem se prolongar ainda mais. Foi esse temor que levou um criador do povoado de Caxias, no município de Cícero Dantas (BA), ao suicídio. Desde a morte prematura da filha adolescente, há seis anos, o pecuarista sofria de depressão. Mas a gota d’água, assegura a esposa, foram os prejuízos causados pela seca. “Todo dia ele se queixava comigo: ‘Está acabando tudo, vamos perder tudo’. Cansei de dizer para ele se acalmar, que a gente iria dar um jeito. Ele não suportou essa situação e se matou”, diz, às lágrimas, Maria Raimunda Dias, professora da rede pública de ensino. “Meu Deus, por que esse homem fez isso comigo? Se estava difícil enfrentar essa seca com o meu marido, imagina agora que estou sozinha.”

No início de abril, a presidenta Dilma Rousseff anunciou a liberação de 9 bilhões de reais para o enfrentamento da seca no Nordeste, sobretudo com a prorrogação do pagamento de dívidas de créditos rurais e a ampliação do Garantia-Safra, que auxilia 779 mil famílias de agricultores em mais de mil municípios do Semiárido. Na ocasião, ela destacou a ampliação da oferta de água por meio da Operação Carro-Pipa. “Nós mantivemos 4.746 carros-pipa distribuindo água em 777 municípios, mas vamos ampliar essas ações. Chegaremos a 6.170 carros-pipa, um aumento de 30% da frota do Exército.” Somente para a Bahia, o Ministério da Integração Nacional liberou 20 milhões de reais para a contratação de carros-pipa (12,4 milhões) e a distribuição de 130 mil cestas básicas (8,4 milhões). Poucos desses benefícios chegaram aos produtores de Antas. A prefeitura não aderiu, por exemplo, à Operação Carro-Pipa. Distribui água com recursos próprios por meio de três caminhões que não conseguem atender toda a população rural do município. Além disso, pesam denúncias contra o prefeito Wanderlei Santana (PP), acusado de manipular a rede de distribuição de água para favorecer seus aliados políticos.

Após uma denúncia feita pelo vereador José Lenivaldo Andrade (PDT), da oposição, o Ministério Público instaurou, em fevereiro, um inquérito civil para apurar o desvio de água nos povoados de Cabloco, Gravatá e Areia Branca por meio da manipulação de registros dos poços artesianos administrados pela prefeitura. “Em vez de distribuir igualmente a água em todas as roças, ele abre a torneira para as grandes propriedades, o pessoal que ajudou em sua campanha, e fecha a dos demais, sobretudo os opositores políticos”, diz Andrade. Para solicitar a investigação, o parlamentar reuniu as assinaturas de mais de 80 produtores prejudicados, entre eles, o pecuarista Manoel de Sudre. “Desde o dia da eleição, nunca mais chegou água na minha roça. Minto, teve um dia que liberaram dez minutos de água. Só isso”, afirma o criador, que abastece sua roça com baldes d’água guardados em seu Volkswagen Gol de 1998. “Faz mais de um mês que pedi para vir o carro-pipa da prefeitura, e nada. Eles se recusam a dar água porque apoiei o candidato da oposição. Enquanto eu votava neles, nunca tive problema.”
A versão é confirmada por outros afetados. “Toda semana, tenho de pagar 150 reais para um carro-pipa levar água na roça da minha mãe. Ela pediu auxílio da prefeitura há quase dois meses, e até agora nada. Há, sim, favorecimento político. A minha família não votou no prefeito e eles sabem disso”, diz Matos.
A CartaCapital o prefeito negou as acusações. “Jamais faria uma coisa dessas com uma coisa tão séria, que é a água em tempos de seca.” Segundo ele, os registros são manipulados em forma de rodízio. Para abastecer uma propriedade, fecha-se a torneira das demais. Quando esta foi abastecida, é a vez da outra. “Às vezes demora mesmo uns 15 dias para chegar água numa roça, mas ninguém ligado à rede fica sem.” Santana afirma que o município não aderiu à Operação Carro-Pipa do governo federal pelo fato de o programa ser voltado para o consumo humano. “O que falta em Antas é água para os animais. Fazemos o possível com os recursos que temos. Mas até onde eu saiba todos são atendidos pelos carros-pipa.” De fato, os recursos municipais são exíguos, pouco mais de 2 milhões de reais por mês. Mesmo assim, ele mantém uma inacreditável promessa de campanha: construir um parque aquático na cidade. “A população não tem opção de lazer”, justifica. “Não posso me pautar só pela seca.”
Enquanto o prefeito mira um oásis de entretenimento no Semiárido, os produtores locais não param de olhar para o céu. Aproxima-se o inverno e com ele deveriam vir as chuvas. Até agora a fina garoa que eventualmente cai não é animadora. “Olha só, nem tingiu o asfalto”, oberva Araujo. “Para começar a crescer o capim, precisa de pelo menos 15 milímetros de chuva. Esse chuvisco não adianta nada, só refresca um pouco o calor.”
P.S.: Na quarta-feira 24, finalmente a chuva caiu, alimentando as esperanças do fim da estiagem.