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Número 746, Abril 2013

Cultura

Bravo! Cinema

De olhos bem abertos

por Orlando Margarido — publicado 26/04/2013 15h33
A partir da sexta 26, com processo digital que atribui especial valor às cores, ao som e aos efeitos de luz, primordiais ao filme, Laranja Mecânica volta a ser exibido em São Paulo
Laranja Mecânica

De delinquente a cobaia. Alex (Malcolm McDowell) em "tratamento"

Laranja Mecânica
Stanley Kubrick

Dentre o cinema de Stanley Kubrick que sabemos quase todo essencial, Laranja Mecânica é por certo o filme que melhor permaneceu pelo aspecto de reflexão sobre uma sociedade e em seu caráter premonitório. Há quatro décadas a história filmada a partir de Anthony Burgess sobrevive visionária, geração após outra, ao encarar a delinquência juvenil na figura de um rapaz brutalm e empático o suficiente para liderar uma gangue que o idolatra. Um novo teste ao público se apresenta a partir da sexta 26, no CineSesc, com cópia restaurada em DCP, processo digital que atribui especial valor às cores, ao som e aos efeitos de luz, primordiais ao filme.

Um feito impactante e controverso, diga-se, que levou o próprio Kubrick a pedir a retirada do filme dos cinemas quando jovens ingleses disseram--se inspirados por ele para praticar crimes. Disso se fica sabendo no documentário Era Uma Vez... Laranja Mecânica, exibido no Festival de Cannes de 2011 simultaneamente à nova cópia. O diretor Antoine de Gaudemar falou brevemente a CartaCapital na época e lembrou a importância de a trama refletir não só um contexto na Inglaterra, mas geral, o que corrobora a opinião da viúva do cineasta, Christiane Kubrick, ao dizer não ser este um filme estritamente inglês. Com décor futurista, de um futuro imediato, Laranja Mecânica reúne discursos em voga na época, como os estudos da antipsiquiatria e das teses comportamentais. É a elas que o líder Alex (Malcolm McDowell) termina entregue como cobaia após matar, num exemplo da representação também destrutiva do Estado, aliado neste caso ao pior do crime degenerado. Também pela crítica a esses dois reversos, o filme mantém-se mais atual do que nunca.