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Número 746, Abril 2013

Cultura

Bravo! Cinema

A ressonância de 1968

por Orlando Margarido — publicado 26/04/2013 14h23
Olivier Assayas e a memória de crescer nos conturbados anos franceses
Cahiers du Cinéma

Revolução no ar. Gilles (Clément Métayer) e Christine (Lola Créton), idealismos diferentes costurados por Assayas

Quando se é adolescente, a tendência ao descobrir o mundo é pensar que ele sempre foi da mesma maneira. Para o cineasta e crítico francês Olivier Assayas, de carreira na revista Cahiers du Cinéma,  este foi o primeiro sentimento que buscou descartar. “No fato de crescer há um período problemático de dúvidas, caos, mas também apaixonante de criação, no registro político, artístico ou outro qualquer que se experimente”, diz a CartaCapital. “Para mim foi de total transformação e isso ainda ressoa no meu cotidiano.” Assayas, 58 anos, cresceu num momento muito particular na França, após os estudantes tomarem as ruas parisienses na tentativa de derrubar o poder. Do que restou do mítico 1968 para a década seguinte é o que ele busca discutir no belo Depois de Maio, estreia da sexta 26.

Seu ponto de partida não poderia ser mais pessoal. O diretor se caracteriza na figura do jovem Gilles (Clément Métayer), alter ego que representa as forças determinantes em seu amadurecimento. O engajamento político por um lado, herança de 1968, mas não só ele. Também a busca de uma expressão pessoal, no caso na pintura, numa escrita informal e depois no cinema. Para os herdeiros diretos da luta isto era atributo da alienação. Como equilibrar esses fatores numa idade por si só complicada? “Ora, justamente equilíbrio faltava a essa época. O radicalismo da esquerda do período fez a mim e a outros nos afastarmos e assim se dá a Gilles.”

Há diferentes idealismos, aponta o diretor neste e em seu filme anterior, Carlos, magistral retrato do revolucionário venezuelano. Seu ideal começa político para se tornar o de um mercenário. Gilles e seus companheiros sentirão diretamente um racha entre uma atitude política dogmática e os comportamentos em voga, o despertar para as drogas e o interesse pela mística oriental. “Os valores começavam a mudar e a cobrança maior se dava na noção entre um sentimento coletivista, próprio do ideal esquerdista, e individual, que queria se impor, mas atrelado em parte aos princípios anteriores. Uma dicotomia impossível de ser aceita pelos radicais, mas natural para minha época.”