Você está aqui: Página Inicial / Política / Zoo

Política

Crônica do Villas

Zoo

por Alberto Villas publicado 17/06/2016 04h54
Liberdade! Liberdade! Ainda que tardia
Acervo pessoal/Alberto Villas
Foto da família Villas no zoológico

Os Villas na porta do zoológico

Eram inesquecíveis aqueles domingos, no final dos anos 50, quando meu pai colocava a minha mãe e cinco filhos num jipe Land-Rover e rumava para o Jardim Zoológico de Belo Horizonte.

Eram passeios sempre muito divertidos e baratos, em que ganhávamos um catavento de papelão na entrada e entrávamos felizes da vida, soprando aquele brinquedo quando não havia vento.

Eram passeios divertidos e baratos porque o nosso almoço geralmente era um hot-dog, acompanhado de Guarapan e, de sobremesa, sempre que fazia calor, um Eski-Bon que vinha dentro de uma caixinha amarela. Era um outro tempo, tempo em que ninguém falava rashtag partiu zoológico.

Eu sempre fui louco por bichos, de todos os tipos, com uma queda para pombos, porquinhos-da-índia, coelhos e passarinhos. Mas gostava também de ver, de tempos em tempos, aqueles enormes que tinham no zoo.

O meu pai, que vivia com a sua Rolleiflex dependurada no pescoço, gostava de clicar aquela bicharada. No dia seguinte, levava o filme pra revelar e, reveladas, ele espalhava as fotografias na mesa da sala de jantar e ia numerando uma a uma e, no verso, escrevendo as legendas.

É por isso que até hoje sobrevivem aqui nessa casa, numa caixa de papelão luxuosa que comprei na Etna, as fotos em preto e branco que ele fez nas nossas idas ao zoológico.

O meu pai era espirituoso e muito caprichoso. Escrevia com uma letra miúda, sempre com sua Parker 51, os flagrantes que pegara.

Leão na sua jaula tirando uma soneca

Elefante agitado parece estar com fome

Dromedário descansando depois da refeição

O tigre de bengala nos encarando

A coruja branca, eta bicho feio de doer

Era assim que ele ia identificando suas fotografias, sem noção de que tantos anos depois, elas estariam aqui espalhadas na mesa da nossa sala de jantar, do mesmo jeitinho que ele as espalhava as suas, lá em Minas Gerais.

Quando criança, o quintal da minha casa tinha muitos, muitos bichos. Coelhos, porquinhos-da índia, canarinhos belgas, periquitos, curiós, cardeais, um cachorro chamado Tupi, um galo, galinhas e pintinhos.

Viviam ali no quintal livres, exceto os passarinhos. Nunca me incomodei com isso. Nas gaiolas, eles eram tratados como pachás. Além do alpiste e da água fresca, os curiós ganhavam meio jiló todos os dias e os cardeais beliscavam um ovo cozido por semana. Preparava uma mistura para os periquitos que não paravam de fazer um barulho que, sei, incomodava pra caramba os vizinhos.

Os coelhos e os porquinhos-da-índia comiam capim meloso que íamos buscar lá no alto da BR-3. Os galos, as galinhas e os pintinhos eram alimentados com milho, canjiquinha e ração pra poedeira. Já Tupi, comia o que sobrava do almoço e do jantar.

O tempo passou e hoje, não posso ver um passarinho na gaiola que quero soltá-los. No zoo não vou mais. Minto. No ano passado, fui no de Tóquio, curioso para ver de perto, ao vivo, um urso panda. Vi muitos, dezenas. Mas não gostei de ver os outros bichos presos.

O leão parecia entediado, a girafa meio paradona, os tigres achei magros, os elefantes com os olhos lacrimejando e os pássaros cantavam um canto melancólico dentro dos viveiros.

O politicamente correto me fez assim. Tenho vontade de fazer uma pequena revolução com os bichos do zoológico, soltando um a um. Gostaria de vê-los ganhando a liberdade da floresta cheia de vida, uma espécie de Madagascar, o filme. Não vejo mais graça em ver bicho atrás das grades, logo eu, que adorava jogar bananas pros macacos para ver aquela zoeira que faziam, uns correndo atrás dos outros pra tomar até mesmo a casca.

O zoo hoje para mim não tem mais graça nenhuma, não tem catavento, hot-dog, Guarapan, nem Eski-Bon. Cheira mal, me parece úmido, triste, parece assim uma espécie de Guantánamo.