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Yeda derrota o impeachment

por Paulo Cezar da Rosa — publicado 23/10/2009 14h49, última modificação 08/09/2010 14h50
Na última terça feira, 20, a governadora Yeda Crusius obteve uma importante vitória na Assembleia gaúcha. Com 30 votos a favor e 17 contra, o processo que pedia sua cassação foi encerrado

Na última terça feira, 20, a governadora Yeda Crusius obteve uma importante vitória na Assembleia gaúcha. Com 30 votos a favor e 17 contra, o processo que pedia sua cassação foi encerrado. Os deputados que a apoiam votaram pelo do relatório da deputada Zilá Breitenbach (PSDB) que requiria arquivamento do pedido de impeachment da governadora tucana. Em cadeia nacional, a deputada declarou que não cabia instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito “porque as provas não eram suficientes” (sic).

O resultado já era esperado. No início do ano, líderes da oposição já avaliavam que dificilmente um pedido de impeachment iria prosperar na Assembleia “porque 2/3 da Casa estão comprometidos”, me afirmou um deputado. Após a votação, foram ouvidos fogos de artifícios próximos ao Palácio Piratini.

Agora, o próximo passo do governo deve ser enterrar também a CPI da Corrupção, que está travada na Assembleia. Com isso, Yeda recuperaria as condições mínimas de governabilidade e poderia voltar a sonhar com a reeleição.

Um roteiro de factóides
Nas últimas semanas, Yeda Crusius trava, talvez, as últimas batalhas políticas de sua vida. A julgar por todas as pesquisas de opinião de diversos institutos, o eleitor gaúcho já fez o seu julgamento. Yeda é considerada a pior governadora que o Estado já teve, creio que desde que são feitas pesquisas. Ela não tem, portanto, nenhuma chance eleitoral em 2010. Mas insiste em declarar-se candidata, e reiterou esse desejo na convenção do PSDB no último final de semana.

Yeda Crusius, antes disso, havia iniciado uma viagem a Washington, onde deveria reunir com o Banco Mundial para obter liberação da segunda parcela de 650 milhões de dólares de um empréstimo de 1,2 bi que obteve ano passado. Esse empréstimo é pedra angular de seu governo. É ele, junto dos cortes realizados, que permitiu o “déficit zero”, apresentado a todos como sua grande conquista diante das gestões anteriores. Sem essa segunda parcela, seu governo deve naufragar num mar de dificuldades.

A reunião para negociar a liberação da segunda parcela com Banco Mundial estava prevista para a última semana. Mas tendo chegado em São Paulo, Yeda teria sonhado (ou “um anjo” teria ido falar com ela) que sofreria um golpe de Estado. Alertada pelo sonho premonitório (ou pelo anjo), Yeda retornou imediatamente e passou a denunciar a tentativa de golpe. O golpista seria seu vice-governador, Paulo Feijó (DEM), com apoio do poder judiciário e do poder legislativo. Tudo dentro de um roteiro que parece inspirado em Joana D'Arc – e, na prática, chega a ser uma ofensa à memória da mártir francesa.

Porque Yeda não viajou?
Ninguém na imprensa gaúcha se deu ao trabalho de investigar os motivos da desistência de Yeda de viajar. Na verdade, talvez Yeda não pretendesse desde o início ir a Washington. Ocorre que as condições exigidas pelo Banco Mundial para liberar a segunda parcela do empréstimo não foram cumpridas. Yeda simplesmente não obteria a liberação dos 650 milhões de dólares de que precisa desesperadamente.

Para prosseguir com o contrato, o Banco Mundial exige que o governo: 1) Implemente as Oscips, programa para o qual a RBS tem se esforçado em dar uma cobertura positiva, mas ainda patina; 2) Faça o ajuste fiscal, que hoje é impossível devido à queda da receita; 3) Implemente um Sistema de Previdência Complementar (está na Assembleia) e de Gestão Única da Previdência (já aprovado pela Assembleia), este ainda dependente da adesão do Judiciário e da Assembleia e que encontra resistências corporativas instransponíveis em ambos; 4) Imponha novos Planos de Carreira, com ênfase para o Plano de Carreira do Magistério, acarretando perdas ao funcionalismo, que resiste de todas as formas. Assim, a viagem seria uma derrota definitiva.

O financiamento do Banco Mundial foi negociado antes da crise da economia internacional. Toda a sua lógica é neoliberal, assim como o governo de Yeda Crusius. A conclusão óbvia é que a governadora não viajou simplesmente porque não fez o dever de casa, conforme seus financiadores internacionais. Não foi nenhum anjo que soprou em seu ouvido. Foi o próprio “Deus Mercado”.
A terceirização do governo

A confusão é tamanha no pampa gaúcho que o PSDB nacional teria decidido socorrer a governadora tucana contratando uma empresa de comunicação e gestão de crise para cuidar da sua imagem. Até aí, tudo bem. É absolutamente legítimo que o PSDB, preocupado com as trapalhadas de um de seus mais importantes quadros, contrate uma assessoria para auxiliar a governadora a sair da saia justa em que se meteu.

A julgar, entretanto, pelas informações que circulam nos bastidores da imprensa gaúcha, tem muito caroço neste angu. Conforme o site Coletiva.net, especializado nos meios publicitário e jornalístico, uma empresa paulista, FSB Comunicações, “foi contratada pelo PSDB nacional e um grupo de empresas, em um pacote de R$ 1,8 milhão”. Ainda conforme Coletiva.net, a FSB “há cerca de dois meses presta serviços ao Palácio Piratini”. Além disso, já teria feito pesquisas que repetem os dados de outros institutos e seria responsável pela demissão do Coordenador da Assessoria de Comunicação do Palácio Piratini, jornalista Joabel Pereira.

O site Coletiva.net em geral é bem informado e, até agora, ninguém desmentiu nenhuma de suas afirmações. E todas são gravíssimas.

Quem seriam as empresas interessadas em limpar a imagem de Yeda? A troco de quê estariam fazendo isso? Como é possível uma consultoria contratada por um partido e um ”grupo de empresas” estar prestando serviços para um governo? E, inclusive, demitindo seus dirigentes? Com que autoridade?

Mais: Por que uma empresa investir num governo falido? Quais as razões por trás disso? Se há um insvestimento, qual é a expectativa de retorno? Pior ainda: Não estaríamos diante de uma espécie de terceirização ou privatização do próprio governo do estado? Ou, senão do governo, pelo menos de sua política de comunicação, dado que, conforme a Coletiva, a consultoria contratada pelo PSDB e pelas empresas, estaria dando as cartas no setor?

São tantas as perguntas que talvez a base yedista na Assembleia gaúcha esteja certa: o melhor é nem dar respostas.