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Em 2010: poste de Lula é o “menos coerente”

por Viomundo — publicado 15/03/2011 10h30, última modificação 15/03/2011 14h19
As pesquisas sobre as eleições de 2010, as pressões sobre Aécio Neves e as avaliações de jornalistas. Do Viomundo

248788 2/13/2010 18:48 10BRASILIA49 Embassy Brasilia CONFIDENTIAL

C O N F I D E N T I A L BRASILIA 000049 SIPDIS AMEMBASSY BRASILIA PASS TO AMCONSUL RECIFE E.O. 12958: DECL: 2020/02/13 TAGS: PGOV, BR SUBJECT: BRAZIL’S PRESIDENTIAL ELECTIONS: DILMA ROUSSEFF COMES UP FAST BEHIND JOSE SERRA REF: RIO DE JANEIRO 32 CLASSIFIED BY: Lisa Kubiske, Deputy Chief of Mission, State, Embassy Brasilia; REASON: 1.4(B), (D) 1. (C) Summary.

Pesquisas do fim de janeiro indicam que a candidata presidencial do Partido dos Trabalhadores (PT), Dilma Rousseff, sucessora escolhida pelo presidente Lula, reduziu a maior parte da diferença com o líder da oposição, candidato do Partido Social Democrata Brasileiro (PSDB) [sic] José Serra, e agora está atrás menos de dez pontos em uma disputa de dois candidatos para as eleições de outubro. A redução da diferença era esperada; a campanha agora entra numa zona onde as previsões são mais difíceis, no momento em que tanto Rousseff quanto Serra lutam para superar percepções públicas que limitaram suas respectivas preferências entre os eleitores.

Alguns observadores acreditam que as últimas pesquisas dão a ela a vantagem, enquanto outros atribuem a alta à dura campanha do presidente Lula e sugerem que seu poder de astro [star power] não será suficiente para manter o embalo quando as luzes intensas da campanha de TV revelarem as fraquezas da candidatura de Rousseff. A alta de Rousseff aumentou a pressão em Serra para anunciar sua candidatura e no governador de Minas Gerais Aécio Neves para aceitar o lugar de companheiro de chapa de Serra como candidato a vice-presidente. Enquanto isso, o parceiro primário da coalizão do PT, o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), continua a debater que partido disputa qual eleição estadual ou legislativa, excluindo e alienando partidos menores da coalizão a ponto de talvez permitir que o PSDB recrute novos aliados para a sua coalizão. End summary.

State of Play: An Expected Rise, A Long Way to Go

2. (C) Duas pesquisas do fim de janeiro — Vox Populi e CNT — deram resultados muitos similares, indicando uma pequena queda na preferência de Serra e um aumento significativo para Rousseff. A pesquisa do Vox Populi mostra Serra batendo Rousseff 34 a 27 com o candidato do Partido Socialista Brasileiro (PSB), Ciro Gomes, incluído na disputa, e 38 a 29 sem ele. Nas duas categorias, isso representa um ganho de quase 15 pontos para Rousseff desde dezembro. A CNT mostra Serra liderando Rousseff por apenas 33 a 28% numa disputa que inclui Gomes, e uma vantagem muito maior de 41 a 29% sem ele. Nas duas pesquisas Gomes caiu em relação ao mês anterior, de 17 para 11%, enquanto a candidata do Partido Verde (PV), Marina Silva, mantem sua avaliação em um dígito. Gomes puxa um pouco mais de votos de Serra do que de Rousseff, enquanto os votos de Silva vem todos às custas de Rousseff.

3. (C) Esses resultados não eram inesperados. Como o sen. Sergio Zambiasi (Partido Trabalhista Brasileiro, PTB, Rio Grande do Sul) brincou com o poloff no dia 2 de fevereiro, sobre as pesquisas, “talvez a única surpresa é que (a subida de Rousseff)  aconteceu exatamente quando todo mundo pensava que iria acontecer”. A apresentação agressiva de Lula de Rousseff como central à legislação doméstica (inclusive o pré-sal) e em negociações internacionais (Copengahen) aumentou o reconhecimento do nome dela, no processo trazendo para casa muito da base eleitoral natural do PT.

Os contatos no PT estão encorajados e confiantes mas também reconhecem que a alta de Rousseff é apenas um passo inicial no processo. Candido Vaccarezza (PT-São Paulo), líder da coalizão governista na Câmara dos Deputados, reconheceu ao poloff que, devido à forte defesa de Lula, a maior parte das frutas alcançáveis pelas mão já tinham sido apanhadas por Rousseff. O desafio, ele diz, será levá-la aos 40% — o que ele admite vai dar algum trabalho. (Vaccarezza apóia fortemente Ciro Gomes como candidato de um terceiro partido com o objetivo de reduzir a tarefa de Rousseff).

Rousseff: The Start of Something Big or the Best She’ll Get?

4. (C) A subida de Dilma Rousseff nas pesquisas cria uma narrativa positiva para ela em direção ao congresso nacional do PT, que acontecerá no fim de fevereiro, onde se espera que ela anuncie sua candidatura oficialmente. Observadores de terceiros partidos ofereceram opiniões divididas sobre quanto mais Rousseff pode subir a partir daqui. Dois analistas competidores baseados em Brasília nos disseram na semana passada que a disputa agora favorece Rousseff, porque a economia vai continuar forte e porque, a essa altura, ela apenas precisa o apoio de uma pequena fração dos 80% do eleitorado que aprovam a performance de Lula.

Humberto Saccomandi, editor de notícias internacionais do Valor Econômico e o analista político Rafael Cortez da Tendências Consultoria disseram ao consulado geral de São Paulo o mesmo. A maior parte destes analistas  acrescentou, no entanto, que Rousseff repele muitos com sua performance sem carisma na tv e ainda tem de provar que consegue se dar bem sozinha em debates e aparições públicas.

5. (C) Os críticos mais duros de Rousseff geralmente enfatizam que a televisão e as aparições públicas vão matar a candidatura dela. O jornalista William Waack descreveu para o CG São Paulo um forum de negócios do qual Serra, Rousseff, Neves e Gomes todos participaram. De acordo com Waack, Gomes foi o mais forte no geral, Neves o mais carismático, Serra desligado mas claramente competente e Rousseff a menos coerente. Outros críticos usam um caminho mais sutil, argumentando de forma contraintuitiva que o desejo do Brasil por continuidade depois de anos de progresso e prosperidade acabam beneficiando Serra, porque ele é visto por muitos como seguidor do caminho aberto por Cardoso e seguido por Lula.

Helio Gurovitz, diretor da revista Época, descreveu o Brasil como similar ao Chile, argumentando que a base social do país se desenvolveu de maneira que preferiria alternar partidos no poder para manter continuidade, em vez de manter um partido no poder no longo prazo, com isso provocando uma guinada na direção daquele partido no espectro político. Outros apenas a veem [Rousseff] como a candidata errada na hora errada. Os chefes de gabinete dos senadores Osmar Dias (Partido Democrático Trabalhista, PDT-Paraná) e Álvaro Dias (PSDB-Paraná) — que são irmãos representando o mesmo estado mas em lados distintos — encontraram poloff juntos no dia 5 de fevereiro e concordaram em um ponto: Rousseff vai sofrer entre os eleitores a seu alcance porque claramente não é Lula.

6. (C) Se a falta de carisma pessoal de Rousseff não é preocupação suficiente, o PT também tem problemas mantendo o PMDB, seu parceiro primário na coalizão e o maior partido do Brasil, feliz nas disputas estaduais, que podem ter um efeito adverso na campanha de Rousseff. O PMDB já assumiu o compromisso de apoiar Serra em São Paulo, que tem o maior bloco de eleitores do país. Disputas PT-PMDB também continuam sobre apoios em outras disputas legislativas e estaduais, sem sinal de resolução em virtualmente todo grande estado, inclusive Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Paraná e Rio Grande do Sul. O PT pode ter poucas escolhas a não ser resolver a maior parte desses impasses dando apoio a candidatos do PMDB, deixando pouco espaço para apoiar aspirantes de partidos menores da coalizão. O Sen. Zambiasi, cujo PTB é um dos menores partidos, confirmou para o poloff que seu partido, entre outros, recebeu ofertas de muito pouco do PT para ficar com Rousseff na campanha de 2010. Embora se declarando um apoiador de Lula (ele falou diplomaticamente de Rousseff, que é de seu estado), Zambiasi mais ou menos confirmou rumores locais de que o PTB está considerando apoiar Serra, levando o tempo de publicidade do partido para ele. Ele acrescentou que nenhuma decisão seria tomada na próxima sessão legislativa, acrescentando que o PTB não estava com pressa de ser “o primeiro a saltar do teto”.

Pressure Grows for Serra and Neves to Declare

7. (C) Serra enquanto isso mantém uma relativamente baixa presença nacional enquanto aliados do PSDB como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o senador Sergio Guerra ocupam as manhetes atacando o presidente Lula e o governo. A subida de Rousseff disparou outra onda de especulação de que Serra pode decidir se retirar da corrida presidencial e disputar de novo o governo de São Paulo. O assessor presidencial de relações internacionais Marco Aurélio Garcia sugeriu isso num encontro em 8 de fevereiro com o embaixador, assim como toda autoridade eleita do PT tem feito em encontros com oficiais da embaixada nos últimos meses.

Embora o PT tenha interesse em espalhar essa notícia, ela também vem de fontes de terceiros partidos e de São Paulo, inclusive do Saccomandi, do Valor Econômico. Outros, inclusive contatos-senior baseados no PSDB de São Paulo, como o chefe da Casa Civil do prefeito Kassab, Clóvis Carvalho, e o presidente do PSDB estadual e deputado federal Antonio Carlos Mendes Thame, disseram ao CG de São Paulo que Serra vai concorrer. A essa altura, não se espera que Serra anuncie sua candidatura antes de março.

8. (C) Especulação na mídia continua sobre a possibilidade do governador de Minas Gerais Aécio Neves se juntar à chapa do PSDB como candidato a vice-presidente. O Globo do Rio de Janeiro recentemente noticiou que Neves sente que a pressão não o ajuda no gerenciamento político de seu próprio estado, onde Neves está tentando articular outros candidatos estaduais do PSDB, e onde ele continua a dizer que tem planos para disputar o Senado. Duas fontes do PSDB no Senado Federal também disseram ao poloff que a subida de Rousseff está aumentando a pressão no governador Aécio Neves para aceitar o lugar de vice do Serra — uma posição que Neves indicou anteriormente que não quer (reftel). Ambos veem a nomeação vice-presidencial de Aécio como uma oportunidade para reconquistar o embalo na disputa, uma escolha que seria vitoriosa em Minas e estados adjacentes, e a melhor opção vice-presidencial possível na tentativa de atrair partidos menores da coalizão governista para o lado do PSDB. Interessantemente, nenhuma das fontes do PSDB se considerava um fã deNeves.

Ambos consideravam Neves mais imagem que substância, fácil de atacar pelo PT por causa de seu estilo de vida e um pobre substituto em potencial para Serra em uma chapa presidencial. Ex-ministro das Finanças de Cardoso e figura senior do PSDB Pedro Malan disse ao Rio Principal Officer em 5 de fevereiro que, enquanto ele acredita que Neves como candidato a VP daria um forte empurrão nas perspectivas de vitória do PSDB, agora não está claro para Malan se Neves vai tomar a decisão de se juntar à chapa de Serra. “O cálculo que ele tem de fazer em termos de manter sua influência e prestígio em Minas Gerais no longo prazo e a eleição que vem aí é mais complexa do que alguns pensam”, Malan disse. Quanto a Neves, parece que ele não abandonou completamente a opção VP: ele disse ao Rio Principal Officer no dia 10 de fevereiro que “algumas vezes é preciso dar tempo ao tempo — vamos esperar para ver como as coisas se desenvolvem”.

Comment: The Race Is About to Begin

9. (C) Depois de meses preparando os motores, os dois mais prováveis contendores presidenciais estão na linha de largada, ambos em posições nas pesquisas que a maioria dos analistas esperava para eles a essa altura. O esperado anúncio oficial de Rousseff, planejado para pouco depois do Carnaval (aproximadamente 20 de fevereiro), vai levar a ainda outra rodada de especulação sobre os planos de Serra até o momento em que ele oficialmente se declarar candidato (ou não) em março, marcando o início de fato da campanha. A disputa daquele momento em diante se torna muito difícil de prever, tanto por causa de “fatores x” como as candidaturas de Ciro Gomes e Marina Silva , quanto por causa de variáveis quase impossíveis de prever — como o impacto da estratégia de campanha ainda indefinida de Serra ou o impacto que as dificuldades do PT de manter seus parceiros de coalizão nas disputas legislativas e estaduais terão nas escolhas do eleitor na presidencial de outubro. A essa altura, considerando que Serra vai concorrer, a disputa presidencial brasileira serve de definição para toss-up. End comment.

10. (U) This cable was coordinated with Consulates General Sao Paulo and Rio de Janeiro. SHANNON

PS do Viomundo: Pelo que li dos telegramas do WikiLeaks sobre as eleições de 2010 no Brasil, até agora, os analistas americanos não levaram muito a sério algumas questões definidoras. É a economia, estúpido, por exemplo. Ou a popularidade de Lula. Ou a impopularidade das privatizações de FHC. Pelo jeito, também não entenderam o mineirês, nem leram o Pó pará, governador? Também não leram a resposta, em O Estado de Minas, Minas a reboque, não! Além disso, compraram a ideia de Dilma Rousseff como um poste do Lula, fartamente disseminada por… ah, já sei, eles leram a grande mídia brasileira e levaram a sério!

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*Publicada originalmente no Viomundo

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