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Política

Segundo Turno 2

Votos indecifráveis

por Rodrigo Martins publicado 14/10/2010 11h40, última modificação 22/10/2010 11h38
No Pará e no Distrito Federal, duas disputas espinhosas desafiam as previsões de analistas e institutos de pesquisa. Os cenários continuam nebulosos

Após a definição das eleições em 18 estados no primeiro turno, é natural que as atenções se voltem para a corrida presidencial. Duas importantes disputas estaduais continuam, no entanto, desviando o foco do eleitorado e mostram-se tão surpreendentes quanto espinhosas para os concorrentes: Pará e Distrito Federal. Em ambas, candidatos do PT estão na briga e esperam que a boa avaliação do governo Lula possa fazer a diferença em 31 de outubro.

A disputa mais dura é a do Pará, segundo maior estado em extensão territorial e o mais populoso da Amazônia. O candidato do PSDB, Simão Jatene, terminou o primeiro turno com 48,9% dos votos válidos, ao passo que a governadora Ana Júlia Carepa (PT), em busca de reeleição, conquistou apenas 36%. Quem garantiu o segundo turno foi Domingos Juvenil (PMDB), ex-presidente da Assembleia Legislativa, que obteve 10,8% dos votos.

As últimas pesquisas, na realidade, indicavam a possibilidade de Jatene ter sido eleito no primeiro turno. Com o prolongamento da disputa, apesar de os tucanos continuarem confiantes, o fiel da balança deve ser o cobiçado apoio de Jader Barbalho (PMDB), eleito senador com mais de 1,8 milhão de votos e detentor de um eleitorado cativo estimado em um terço do total.

Ainda na noite do domingo 3, quando o Tribunal Superior Eleitoral terminava de contabilizar os votos, Jatene telefonou para o peemedebista para cumprimentá-lo pela vitória no Senado e pedir apoio. A coordenação da campanha petista também disputa a bênção do cacique, que garantiu a eleição de Ana Júlia em 2006.

Orly Bezerra, coordenador da campanha de Jatene, confirma que o PSDB corteja Barbalho desde o primeiro turno. “Na verdade, estamos negociando com todo mundo para ampliar o leque de alianças. Para você ter uma ideia, o PTB oficialmente apoia a candidatura de Ana Júlia. Mas os três deputados estaduais que o partido elegeu, bem como o único federal deles pelo Pará, já declararam apoio a Jatene no segundo turno”, afirma. “Fora as alianças, pretendemos manter a campanha como está. E temos um grande trunfo nas mãos: a elevada rejeição a Ana Júlia, superior a 48%, segundo as pesquisas mais recentes. Se, no primeiro turno, quando ela tinha o dobro do tempo de Jatene na tevê, ela não conseguiu reverter esse quadro, acho difícil que consiga agora.”

A governadora mostra-se, porém, pouco abalada com a ameaça. “Quem apontou essa elevada rejeição são os mesmos institutos de pesquisa que apostaram na minha derrota no primeiro turno. Eu não confio em institutos de pesquisa. Se dependesse deles, jamais teria sido eleita em 2006”, afirmou Ana Júlia a CartaCapital, ao relembrar a apertada disputa de quatro anos atrás. Desacreditada pelas pesquisas, a então senadora passou raspando para o segundo turno e, com o apoio de Jader, costurado por Lula com os líderes do PMDB, a ex-sindicalista venceu a disputa.

O cenário, agora, é um pouco diferente do vivenciado em 2006. O PMDB apoiou Ana Júlia em troca de participação no governo. Mas, já no início do ano, deixou de apoiar a governadora. Jader reclama de acordos não cumpridos e o jornal da família Barbalho, o Diário do Pará, passou a dar espaço em suas páginas ao que chamou de “dossiê de irregularidades” na gestão petista. Nada que o impeça de compor com o PT novamente, apostam interlocutores dos dois partidos que disputam o seu apoio. Além disso, há o fator rejeição. Por mais que se possa questionar a precisão e a capilaridade das pesquisas no estado, o índice é muito elevado.

Certo é que a campanha de Ana Júlia vai mudar para o segundo turno. No lugar do antigo coordenador, André Farias, deverá entrar o secretário de Projetos Estratégicos do Estado, Marcílio Monteiro, ex-marido da candidata. A troca visa reforçar a campanha nos municípios do interior. Farias volta para a Secretaria de Integração. Além disso, a campanha pretende intensificar ainda mais a associação da governadora com o presidente Lula e com Dilma Rousseff.

A própria candidata busca reforçar isso nas entrevistas que concede. “O que está em jogo são dois modelos de governo absolutamente diferentes. De um lado, o modelo privatista do PSDB. De outro, uma gestão com sólidas políticas sociais, a do PT de Lula. Além disso, estamos transformando o estado, promovendo o seu processo de industrialização. De mero exportador de matéria-prima, já estamos produzindo aço no Pará”, afirma Ana Júlia, primeira mulher a governar o estado. “Quer saber o que a nossa campanha vai mostrar? A diferença dos projetos de Lula, Dilma e Ana Júlia com os de Fernando Henrique, Serra e Jatene. Não tenho medo de comparar nem de enfrentar uma disputa difícil.”

Todos os olhares continuam, porém, voltados para Barbalho, que não revelou seus planos para o segundo turno. O flerte dos petistas e tucanos continua. Mas o peemedebista, que foi a Brasília após o primeiro turno para se acertar com líderes da legenda, até agora só esboçou o seu sorriso de Mona Lisa. Para os dois lados.

No Distrito Federal, o cenário parece um pouco mais claro, mas ainda assim desafia o poder de previsão dos analistas. Em grande medida, o segundo turno na capital do País se deve à expressiva votação obtida pelo cientista político Antonio Carlos de Andrade, de 57 anos, conhecido como Toninho do PSOL. Com o respaldo de quase 200 mil eleitores, ele obteve 14% dos votos válidos. Por muito pouco, menos de 2 pontos porcentuais, Queiroz não venceu as eleições no primeiro turno (o petista amealhou 48,4% dos votos válidos, embora as pesquisas de boca de urna indicassem uma vitória com 51%).

Encerrada a apuração das urnas, Toninho anunciou que não pretende apoiar nem Queiroz nem Weslian Roriz (PSC), que terminou a disputa com 31% dos votos. “Para manter a coerência, só me resta a opção pelo voto nulo”, afirmou o candidato do PSOL. O mais provável é que seus votos migrem para Queiroz, embora a coordenação da campanha petista não aposte todas as fichas nesse cenário. Ao menos não com tanta facilidade.

Os votos de Toninho não são votos tradicionais do PSOL, tanto que o partido não conseguiu atingir o coeficiente para eleger um deputado distrital. Tem muito voto de protesto, dos brasilienses desiludidos com a política local, após tantos escândalos no Distrito Federal”, afirma Raimundo Júnior, coordenador da campanha. “É claro que estamos na disputa pelos eleitores do Toninho e também aqueles do Eduardo Brandão (PV). Sabemos que Weslian tem o eleitorado cativo do marido (Joaquim Roriz) nas mãos, e eles dificilmente mudarão de lado. Assim como os eleitores do PT.”

Na avaliação do cientista político Ricardo Caldas, da Universidade de Brasília (UnB), o resultado do primeiro turno revela um descontentamento do eleitorado com as “certezas” apontadas pelos institutos de pesquisa. “A verdade é que os brasilienses se cansaram dessa história de eleição decidida muito antes da votação. Havia uma insatisfação muito grande, porque parecia que o eleitor não tinha voz, só tinha de apertar o botão ‘Confirma’ na urna e nada mais”, afirma o professor. “É por isso que candidatos alternativos, como Toninho e Brandão, tiveram uma votação tão expressiva. E isso se manifestou também no plano nacional, com a vitória local da Marina Silva, enquanto todos esperavam o triunfo fácil de Dilma Rousseff.”

O especialista afirma que Weslian perdeu para Queiroz mesmo em tradicionais redutos de Roriz, como a cidade-satélite de Ceilândia. Outro fator que pesa contra a candidata é a inexperiência e falta de traquejo político. Indicada para a disputa uma semana antes do primeiro turno, diante da indefinição do Supremo Tribunal Federal sobre a validade da candidatura do marido, barrado pela Ficha Limpa, Weslian entrou para o anedotário nacional com uma série de gafes, algumas delas cometidas no último debate entre os candidatos, transmitido pela Rede Globo.

Quero defender toda aquela corrupção”, tropeçou Weslian na ocasião, para depois tentar consertar, assegurando aos eleitores que não toleraria qualquer tipo de corrupção. A candidata também perdeu a “cola” preparada pelos assessores antes do debate, fez perguntas descoladas dos temas propostos pelo mediador e até elogiou a cor do cenário montado pela emissora: “Fiquei tão feliz de chegar aqui. Aqui é tudo azul, é a cor do meu partido”.

Caldas acredita que o suposto ponto fraco da candidata pode lhe servir de trunfo para conquistar os indecisos. “A falta de traquejo pode sensibilizar os desiludidos com a classe política, bem como as mulheres, as donas de casa, pessoas que se identificam com o perfil dela e tradicionalmente são esquecidas pelos políticos e seus marqueteiros.” A ver.

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