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Ditadura

Vladimir Herzog, arquivado

por Celso Marcondes — publicado 14/01/2009 17h47, última modificação 23/08/2010 17h48
Foi arquivado ontem o pedido de investigação criminal das mortes de Vladimir Herzog e de Luiz José da Cunha, militante da ALN.

Foi arquivado ontem o pedido de investigação criminal das mortes de Vladimir Herzog e de Luiz José da Cunha, militante da ALN. A decisão foi tomada pela Justiça Federal de São Paulo, acatando a solicitação da Procuradoria Criminal do Ministério Público Federal. Está em todos os jornais de hoje. Os bravos procuradores Eugênia Fávero e Marlon Eichert perderam. Mais uma derrota dos que defendem incansavelmente a justa tese da imprescritibilidade dos crimes contra a humanidade, como a tortura. Mais uma vitória de Carlos Alberto Brilhante Ustra e Audir Santos Maciel, os militares reformados que dirigiram o Centro de Torturas e Assassinatos de São Paulo, conhecido também na década de 70 pela alcunha de DOI-Codi.

Nada mais pode ser feito no País para que sejam reabertas essas duas ações criminais. Agora, só cabe uma ação internacional, levando-se o caso à Corte Interamericana de Justiça.

É uma lástima. O assassinato de Herzog foi aquele que teve maior repercussão naqueles tristes anos. Eu estudava na USP em 1975 e participei da organização do Ato Ecumênico que levou mais de oito mil pessoas à Catedral da Sé, para protestar contra aquela infâmia.

Jornalista, diretor de jornalismo da TV Cultura, militante do Partido Comunista Brasileiro, “Vlado” se apresentou para prestar depoimentos no dia 25 de outubro. Reapareceu enforcado na sua cela. Segundo seus algozes do Centro de Torturas e Assassinatos de São Paulo – também conhecido por DOI-Codi -, o jornalista de 38 anos teria “se suicidado”.

Nunca na história da ditadura militar havia sido criada uma farsa tão grotesca, incapaz de convencer qualquer pessoa com um mínimo de bom senso. Até aquele dia nunca tinha acontecido um protesto tão veemente contra o regime de terror que existia no Brasil. Estudantes, jornalistas, artistas, representantes de várias Igrejas, cidadãos brasileiros se reuniram sem medo - com a Catedral cercada de policias e militares por todos os lados - para ouvir a celebração do culto por Dom Paulo Evaristo Arns, Cardeal Arcebispo de São Paulo, Dom Hélder Câmara, Arcebispo de Olinda e Recife, pelo pastor protestante James Wright e pelo rabino Henry Sobel.

Eu jamais esqueci aquele momento, há 33 longos anos. Foi decisivo para marcar o inicio do processo que levaria, bem mais tarde, à derrota da ditadura militar. Foi decisivo para minha formação como homem e cidadão.

Herzog foi espancado, sentou na “cadeira-do-dragão”, recebeu choques elétricos. Até morrer. Testemunhas falaram com ele logo antes da sua morte e reproduziram em juízo suas palavras, descrevendo com detalhes seu deplorável estado físico após as sessões de tortura.

Isso é fato, não pode ser arquivado. Os homens que comandaram ou executaram este crime hediondo estão vivos. Acordam todas as manhãs, andam pelas mesmas ruas que eu, que você, que os familiares de “Vlado”. Impunes. E agora festejando a decisão da Justiça Federal. Talvez já tenham aberto uma garrafa de champanhe ontem à noite. Talvez estejam comemorando agora mesmo num bar aqui da esquina da Paulista.

Que os procuradores Eugênia Fávero e Marlon Eichert não esmoreçam. Que a Corte Interamericana reacenda nossa esperança. Que nossa memória deixe de ser aviltada.