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Política

Pinheirinho, campo de guerra

Vizinha do Pinheirinho abriga sete 'expulsos' nos fundos de casa

por Redação Carta Capital — publicado 07/02/2012 09h23, última modificação 07/02/2012 09h23
Dona Raimunda vendia produtos a moradores do Pinheirinho e 'emprestou' fundos da casa a sete novos moradores - entre eles um bebê
quarto

Quarto onde vivem sete expulsos do Pinheiro no quarto de vizinha. Foto: Murilo Machado

Por Daniella Cambaúva e Murilo Machado

 

Quem abre o portão da casa de dona Raimunda é Gerson. Ex-morador do Pinheirinho, convida para entrar e logo mostra sua perna: ainda cicatriza uma ferida de cerca de vinte centímetros causada por uma bomba de gás lacrimogêneo que enroscou na barra de sua calça quando ele deixava a ocupação.

 

Apesar da dificuldade para andar, conta que acorda diariamente às 4h da manhã para trabalhar. Ali se sente em casa. Desde a reintegração de posse, é um dos seis adultos que dividem um cômodo de 15 m² nos fundos do terreno - entre eles Laura Furtado (mulher de David Furtado, baleado nas costas e levado ao hospital) e o filho do casal, Vinicius, de dez meses.

Na parte exterior da casa formada apenas por quarto, banheiro e cozinha, além do quartinho nos fundos, um corredor estreito de chão e parede acabados com cimento leva ao abrigo provisório de Gerson e os amigos.

Aquele cômodo é tudo: sala, quarto, cozinha. Cabe lá dentro o que eles conseguiram resgatar antes da demolição – dois armários – e mais alguns móveis que obtiveram por meio de doações: uma cama de casal, uma geladeira, um fogão, uma tevê pequena e alguns colchões.

Na outra ponta do corredor dorme dona Raimunda, a proprietária da casa. Pernambucana, viúva há 18 anos, ela é revendedora de cosméticos e de lingerie. Costumava vender produtos a moradores do Pinheirinho. Passa o dia todo trabalhando na rua e não se preocupa em deixar a casa com os novos moradores: “Aqui é tudo trabalhador, não tem nenhum vagabundo”, explica.

A disposição dela para ajudar é imensa, mas limitada pelo espaço físico. “Tudo o que eu tenho é isso aqui, está bem apertado para nós. Eu moro em uma cozinha com quarto e banheiro”.

Os novos moradores estão lá desde o domingo 22, dia em que a reintegração de posse começou. Raimunda conta que não hesitou ao disponibilizar sua casa. “Vi eles chegando aqui nos gritos, correndo e chorando, com a polícia atrás. Abri meu portão para eles. Estamos vivendo aqui do jeito que Deus quer”.

Laura não consegue visitar o marido David todos os dias. Para percorrer os quinze quilômetros que separam a casa de Raimunda do hospital, precisa pegar quatro ônibus. Cada passagem custa R$ 2,80 e não há bilhete de integração das linhas. Ainda assim, ela deseja que ele não tenha alta tão cedo porque, quando David sair do hospital, serão oito pessoas no cômodo. “Como ele vai se recuperar ali dentro? Quem vai cuidar dele? Como ele vai fazer fisioterapia? Eu falo pra ele: ‘pelo menos no hospital tem quem cuide de você'”.

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