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Política

Eleições 2010

Visita de Michel Temer ao RS expõe divergências do PMDB gaúcho

por Sul 21 — publicado 19/08/2010 11h12, última modificação 19/08/2010 11h13
Lideranças do partido declararam apoio à candidatura de José Serra, mas nem toda base no estado compartilha dessa posição

Por Igor Natusch

As lideranças do PMDB no Rio Grande do Sul declararam apoio à candidatura de José Serra (PSDB) à Presidência da República. Mas, nem toda base do partido no Estado compartilha dessa posição. O  Movimento dos Gestores do PMDB pró-Dilma e Temer, ocorrido na tarde desta quarta-feira (18), no Hotel Everest em Porto Alegre, reuniu cerca de 50 representantes de prefeituras peemedebistas do Estado, apoiadores da candidata Dilma Rousseff. Estes prefeitos recebem  um aliado de peso na próxima semana: Michel Temer, presidente nacional do PMDB e vice na chapa de Dilma Roussef, candidata do PT,  anunciou por telefone que estará  em Porto Alegre na próxima quarta-feira (25) para um encontro com os prefeitos que apoiam sua chapa.

“Nós não queremos embate, e sim debate”, declarou João Carlos Vieira Gediel, prefeito de Quaraí e coordenador do encontro. O jogo de palavras quase acidental tem razão de ser. Em carta enviada por e-mail a Gediel, os deputados peemedebistas Osmar Terra e Darciso Perondi tentam levar os prefeitos pró-Dilma a reconsiderarem sua posição. “A tendência da maioria do eleitorado gaúcho é antipetista”, diz a nota.  Expondo uma série de dados ligados a eleições anteriores, a carta reforça: “se a Dilma conseguir ampliar muito sua votação no RS, e superar a barreira anti-PT, ela ajuda o Tarso (Genro, candidato do PT ao governo do RS), nunca o José Fogaça (candidato do PMDB a governador)”. E conclui, em tom de discreta crítica: “Não será fazendo campanha para Dilma, para o 13, que ajudaremos o Fogaça a enfrentar o Tarso, o 13, seu adversário certo no segundo turno”.

Na tentativa de evitar o racha, o prefeito Gediel adotou um tom mais conciliador. “Essa divergência é algo que temos até que comemorar”, garantiu. “Fortalece o Fogaça, fortalece o Germano Rigotto (PMDB, candidato ao senado), fortalece Temer e fortalece o PMDB. Não queremos divisão, estamos apenas marcando posição a favor da chapa majoritária, da qual participa o presidente nacional de nosso partido”.

O movimento dos peemedebistas pró-Dilma está confiante em sua força. Segundo a coordenação, mais de 200 prefeitos ou vice-prefeitos estão fechados com Dilma, indo contra a posição da cúpula estadual do Partido. O presidente da Associação de Vereadores do PMDB no Rio Grande do Sul, Ivan Trevisan, de Pantano Grande, garante que mais de 100 integrantes de Câmaras municipais já garantiram seu apoio a Dilma Rousseff .

À espera de uma ligação

O encontro começou com aproximadamente 15 minutos de atraso. Entre os cerca de 50 presentes, prefeitos de cidades como Dom Feliciano, Cacique Doble, Arroio do Meio, Alegrete, Carlos Barbosa, Tapes e Seberi.  O prefeito de Arambaré, Alaor Pastoriza Ribeiro, ajudava Gediel a listar as prefeituras engajadas na frente pró-Dilma e Temer. Além do cuidado em não provocar confronto com as lideranças estaduais, os organizadores do encontro tinham mais duas preocupações. Por um lado, aguardavam a chegada dos adesivos da candidatura Dilma, que ainda não tinham sido enviados pelo comitê petista da capital. Por outro, esperavam ansiosos um retorno telefônico do próprio Michel Temer, que confirmaria sua visita ao Estado para conversar com seus apoiadores.

Membros da assessoria do movimento afirmam que apenas 18 prefeitos  gaúchos confirmaram - acima de qualquer dúvida -  apoio a José Serra. Com isso, a expectativa de novas adesões ao movimento pró-Dilma é alta. Em dado momento, o prefeito Alaor Ribeiro pergunta: “e do José Ivo Sartori (prefeito de Caxias do Sul), alguém tem notícia?” Alguns prefeitos pronunciam uma resposta entredentes: “Tá em cima do muro”.

Às 15h40, chegam os adesivos da campanha de Dilma. É uma caixa funda de papelão, que contém também panfletos e cartazes. Imediatamente, a assessoria do evento passa a distribuir alguns dos adesivos para os prefeitos presentes. Alaor Ribeiro, de Arambaré, é um dos primeiros a colar o papel circular ao peito, unindo o “Dilma 13” a demonstrações de apoio a José Fogaça e Germano Rigotto.

Temer ao celular

Seis minutos depois, o celular de João Carlos Vieira Gediel  toca. Sua assessora traz rapidamente o aparelho ao prefeito de Quaraí, dizendo em voz baixa, mas não o suficiente: “é de Brasília”. A atenção de todos passa,  imediatamente, da listagem de prefeituras integrantes da reunião para a ligação. Gediel pede que a pessoa retorne a ligação em alguns minutos; quer ajustar o sistema de som em viva-voz, que pretende transmitir a ligação de Michel Temer para todos os presentes.

Minutos depois, o celular de Gediel volta a tocar e o prefeito sai da sala. Ao atender a ligação,  a saudação é imediata e não permite dúvidas: “Presidente Michel, tudo bem?” No diálogo de cerca de três minutos, o prefeito de Quaraí descreve o movimento que apoia a candidatura de Temer, enquanto tenta confirmar a visita do candidato a vice-presidente ao Estado. “A companheirada quer lhe ouvir, presidente”.

Aparentemente, Michel Temer hesita em dar uma data definitiva. Gediel, embora cuidadoso, pressiona: “Não quero ser chato, mas quanto mais cedo o senhor nos der o prazer da sua presença, melhor será para o movimento”. Finalmente, surge uma data. “Se o senhor puder na quarta-feira (25), pode ter certeza que seremos soldados a serviço do senhor”.

Situação regional se complica

O aparelho celular é levado novamente na sala onde estão os prefeitos pró-Dilma. Cabos são conectados, um pequeno teste é feito e às 15h53 a voz de Michel Temer surge na sala de reuniões do Hotel Everest. A ligação é ruim, várias palavras se perdem, mas é possível entender a maior parte da breve declaração. Michel Temer cumprimenta os presentes e diz que, se todos concordam, terá prazer em encontrá-los em um almoço na próxima quarta-feira.

O silêncio respeitoso dos presentes é uma concordância coletiva. Gediel sai da sala, e acerta por telefone mais alguns detalhes para o encontro na próxima semana. Todos parecem felizes: com a presença de Temer, a causa ganha força. Mas mesmo com a momentânea vitória, há uma preocupação no ar. Se a visita de Temer fortalece a posição na chapa nacional, gera uma confusão considerável na eleição estadual. Somente a partir do posicionamento das lideranças estaduais surgirão os desdobramentos da confirmação de hoje.

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