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Política

Crônica do Villas

Vide bula

por Alberto Villas publicado 17/10/2013 09h40, última modificação 17/10/2013 10h47
Na hora de tomar um remédio vem sempre aquela dúvida: Ler ou não ler a bula? Por Alberto Villas
Vick Vaporube

Latinha de Vick Vaporube, a mistura de mentol, cânfora e óleo de eucalipto

Minha tia que morava em Cataguases era viciada em Vick Vaporube, aquela mistura de mentol, cânfora e óleo de eucalipto. Na casa da Rua Major Vieira, ela tinham uma latinha em cima da cristaleira da sala, uma outra em cima da geladeira Climax e uma terceira no criado mudo. Sem contar a que ela andava na bolsa. Minha tia passava  o dia cheirando aquele Vick Vaporube e com o passar dos anos, ela acabou ficando com o cheiro dele. Até hoje quando entro numa farmácia e sinto o cheiro de Vick Vaporube eu me lembro de Tia Luizinha, aquela que vivia com o nariz entupido.

Era mal de família. O meu pai, irmão dela, também vivia com o nariz entupido e não podia passar sem o Mistol e tinha de ser com efedrina. Lembro bem dele chegando na Farmácia Nossa Senhora do Carmo, debruçado naquele balcão de madeira e pedindo com a voz grossa que tinha:

- Me veja dois vidros de Mistol com efedrina!

Já para minha mãe, não havia vida sem o Enteroviofórmio. Não pra uso dela mas pros cinco filhos. Enteroviofórmio era um comprimidinho marrom para disenteria. Como comíamos muita goiaba com bicho, muito jambo caído no chão, muito bolo quente e muita banana da terra crua, a dor de barriga fazia parte do nosso dia a dia. Era por isso que a minha mãe tinha um carregamento de Enteroviofórmio no armário dela. No primeiro sinal, ela não pensava duas vezes, pegava o comprimidinho marrom, um copo d’água e pronto.  Aquilo era um santo remédio.

Tenho certeza que minha tia Luizinha, meu pai e minha mãe nunca leram as bulas desses remédios. Sim, até mesmo o Vick Vaporub tinha bula. O remédio vinha dentro de uma latinha, que vinha dentro de uma caixinha e lá dentro, a bula. Lembro bem que as bulas eram escritas com uma letra minúscula e em papel finíssimo, de seda.

Eu só comecei a ler bulas quando passei dos 60 anos. E fiquei muito assustado. Quando meu médico me receita um remédio e eu começo a ler a bula, fico logo aflito. Todo remédio que tomo pode causar problemas sérios aos pacientes. Visão turva, desmaios, diarreias, batimentos cardíacos acelerados, tontura, enjoos. É assustador. E o pior é que quando resolvo ler a bula depois de tomar o remédio. Imediatamente começo a sentir todos esses efeitos colaterais. É tiro e quase queda.

O único alívio que sinto é quando vejo na bula que ingerindo tal remédio eu não posso dirigir trator nem andar a cavalo. Penso com os meus botões:

- Estou salvo!

Estou salvo porque não existe a menor possibilidade de em São Paulo - e em nenhum lugar do mundo - de eu dirigir um trator nem subir num Mangalarga. Mas como já passei dos 60 e às vezes ando meio esquecido, vou logo avisando aqui em casa:

- Atenção todos! Não me deixem esquecer! Aqui na bula diz que não posso dirigir trator nem andar a cavalo!