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Venceram Dilma e a democracia brasileira

por Coluna do Leitor — publicado 08/11/2010 16h53, última modificação 08/11/2010 17h32
"...aparentemente, a maioria dos partidos políticos não têm mais uma identidade político-ideológica muito clara..", do leitor de CartaCapital, Thiago Leandro Viera Cavalcanti

Thiago Leandro Vieira Cavalcante*

A vitória de Dilma representa grande avanço para a democracia brasileira. Dilma, candidata da coligação encabeçada pelo PT, apoiada pelo presidente Lula, foi e continua sendo menosprezada pela grande imprensa nacional. A presidente eleita foi caracterizada como uma candidata inventada pelo presidente Lula, quase como uma fantoche. Esse discurso foi fortemente utilizado pelo candidato José Serra, que tentou o tempo todo desqualificar a biografia de Dilma.

Neste segundo turno, mais do que dois candidatos, estavam em disputa dois projetos políticos bastante distintos, um ligado ao governo Lula, ao PT e a justiça social e o outro ligado ao governo de FHC, ao PSBD, à desigualdade e ao neoliberalismo. Obviamente essas definições são muito simplistas, mas estes são alguns dos rótulos aos quais se podem relacionar cada um desses projetos. É possível dizer que o governo Lula e o futuro governo Dilma se alicerçam em uma aliança de centro-esquerda, enquanto o governo de FHC e a proposta derrotada de Serra se relacionam a uma aliança de centro-direita. Lula tem aprovação de mais de 80% da população, FHC terminou seu governo com índice de aprovação não superior a 30%. É evidente que o projeto representado pelo atual governo tem a preferência da maioria da população.

Serra representou a centro-direita, teve apoio das alas mais conservadoras da sociedade, muitas delas apoiadoras da ditadura militar brasileira, fez uma campanha baseada na desqualificação da adversária e evitou a todo custo associar-se ao projeto político que representava, desviou a campanha de assuntos centrais e investiu no personalismo apostando em sua própria biografia política. É fácil entender o motivo de tal ocultamento, associar-se a um projeto impopular seria provavelmente entregar a eleição. A estratégia de uma campanha personalista não poderia funcionar para um candidato apático e desacreditado pela constante quebra de compromissos assumidos. Aliás, dependo do adversário, um candidato com esse perfil provavelmente não seria eleito nem mesmo se fosse apoiado por Lula.

Dilma ganhou por três razões, sem dúvida o apoio do presidente Lula teve grandiosa importância, Lula consagrou-se como o maior líder popular do Brasil, seu apoio ajudaria na eleição de qualquer pessoa. Isso, no entanto, não significa que ele elegeria a qualquer um. A segunda razão da eleição de Dilma é sua própria biografia, sua história, seu perfil, sua competência e comprometimento. O segundo turno oportunizou à Dilma se apresentar melhor e adquirir a confiança da população. A inexperiência de Dilma em cargos eletivos foi o tempo todo apresentada como negativa, no entanto, não poucas vezes, vemos a própria imprensa e a população se queixando dos políticos profissionais, talvez isso tenha dado votos à candidata, antes de lhe tirar, como pretendia a campanha de Serra. A terceira e mais importante razão da eleição de Dilma foi a opção da população pela continuidade, foi a opção por um projeto político.   

Antes que me censurem, sei que, aparentemente, a maioria dos partidos políticos não têm mais uma identidade político-ideológica muito clara, apesar disso, não se pode negar que os partidos ainda estão ligados a determinadas ideologias, e embora isso nem sempre fique claro, nessas eleições se pôde constatar claramente os antagonismos ideológicos entre os principais partidos do país.

A vitória foi de Lula, foi de Dilma, mas foi, sobretudo, do projeto político que eles representam. Votar em projetos políticos, mais do que em pessoas, é um grande avanço para o processo político democrático brasileiro. A união da maioria das forças de esquerda em torno da candidatura de Dilma foi representativa nesse sentido. Além de tudo, o fato de Dilma ser uma mulher tem um valor inestimável e representa mais um passo no caminho da construção da igualdade entre gêneros no Brasil.

* Professor, historiador e estudante.

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