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Entrevista - Jorge Viana

Velhos parceiros, futuros adversários

por André Barrocal publicado 29/04/2013 08h20, última modificação 29/04/2013 08h32
A oposição tradicional está falida e as divergências brotam na base governista, avalia o vice-presidente do Senado, Jorge Viana (PT-AC), em entrevista
Jorge Viana  (PT-AC)

Oponente ideal. “O sonho do PT é enfrentar Aécio Neves”. Foto: Paulo de Araújo/D. A Press

A ambientalista Marina Silva foi ministra de Lula por cinco anos e em 2010 disputou a Presidência contra Dilma Rousseff. O governador de Pernambuco, Eduardo Campos, também foi ministro de Lula, apoia o governo há dez anos, e está ativo na construção de uma candidatura alternativa a Dilma em 2014. Para o vice-presidente do Senado, Jorge Viana, do PT, são exemplos de um mesmo fenômeno. O fracasso da oposição tradicional (PSDB e DEM) na era petista faz emergir dissidências dentro do governo. O quadro é alimentado pelo sistema político brasileiro. Há um mar de legendas, o candidato precisa unir-se a muitas para ganhar uma eleição e governar, mas os partidos são fiéis a seus interesses particulares, não ao apoiado. A seguir, os principais trechos da entrevista do senador, para quem o PSDB continua a ser o adversário ideal do PT.

artaCapital:O cientista político Wanderley Guilherme dos Santos disse, recentemente, que a base de apoio ao governo no Congresso é muito grande, mas pouco fiel. Concorda?

Jorge Viana: Não dá para cobrar fidelidade das alianças nas condições em que são feitas hoje. Temos na base antigos aliados do governo do PSDB, porque são esses os partidos existentes. Não é um casamento no qual se escolhe a noiva. É um casamento arranjado, quem escolhe a noiva são as circunstâncias. Agora mesmo há um arranjo entre PPS e PMN para arrumar um partido para José Serra se candidatar. No sistema político brasileiro, os partidos são frágeis, o eleitor segue a votar em pessoas. Precisamos de uma reforma política. Se Marina ganhasse a Presidência, penso no tipo de alianças que ela teria de fazer para governar.

CC: Então, é natural que haja candidatos de oposição nascidos da base do governo, como Eduardo Campos?

JV: Tem de ser visto como natural, pois a nossa base é muito ampla. Que governo reuniu uma base tão ampla no Congresso? E quanto mais o nosso governo dá certo, pior para a oposição, que fica mais fragilizada. Com essa fragilidade, de onde podem vir as candidaturas contra nós? Da nossa base ampla. A candidatura de Eduardo Campos é a terceira etapa de um processo. Primeiro, tentaram ganhar com o que tinham e perderam para  -Lula. Depois, tentaram se juntar com setores da mídia e perderam de novo. Agora, estão juntando os restos da oposição, setores da mídia e aliados nossos. Como Eduardo Campos vai lidar com esses neoapoiadores, que forçam uma ruptura dele com o PT? Essa ruptura pode ser o pior dos caminhos, pois o povo brasileiro está gostando do nosso projeto.

CC: O enfraquecimento da oposição tradicional atrapalha o PT?

JV: Esse enfraquecimento deu-se não só pelo sucesso do nosso governo. Deu-se também pela incompetência da oposição. Para o nosso governo seria melhor se a oposição estivesse fortalecida e com um projeto. Não há nada melhor na política do que poder escolher o adversário.

CC: No segundo turno das eleições municipais do ano passado, o PT só venceu o PSDB. Contra o PSB, perdeu. Eduardo Campos é um risco concreto para o PT em 2014?

JV: Depois de muito tempo no governo, em um projeto de sucesso, os problemas vêm menos da oposição do que da base. É o que ocorre agora. Marina e Eduardo Campos saíram do nosso projeto, das nossas costelas. O sonho do PT é enfrentar Aécio Neves.

CC: Por quê?

JV: Porque Aécio é a expressão de um projeto que vencemos três vezes e que não se renovou. Está renovando só o candidato, porque até aqui foi sempre um tucano de São Paulo, ou Geraldo Alckmin ou Serra. Fernando Henrique briga para unir o PSDB, mas todos sabemos que é uma missão impossível, não tem como pacificar o PSDB de São Paulo e o PSDB de Minas Gerais.

CC: O PSB tem ministros, mas seu presidenciável faz reuniões com políticos nas quais critica o governo e fomenta o pessimismo. Estar no governo e minar o governo é aceitável?

JV: A candidatura de Eduardo Campos é legítima, é fiel ao partido dele. Não podemos marcar dia e hora para o PSB sair do governo, e não há nenhum movimento de Dilma Rousseff ou do ex-presidente Lula para tirá-lo.

CC: Dilma é favorita à reeleição?

JV: Sou contra cantar vitória, acho que está cedo para concluir. Uma eleição nunca é igual à outra. Em 2010, Lula foi o grande cabo eleitoral, mas agora o eleitor vai julgar o governo de Dilma, por isso o governo dela precisa estar bem avaliado. E ela já fez coisas extraordinárias, vai ser lembrada como a mulher que reduziu a conta de luz, que derrubou os juros para o cidadão, que desonerou a cesta básica.

CC: Lula tinha quase 90% de popularidade, mas Dilma ganhou a eleição com 56%. Avaliação positiva não se traduz automaticamente em voto. O governo Dilma vai bem na disputa pela opinião pública?

JV: Tenho algumas críticas, apesar de entender as dificuldades. Ela teve de suceder Lula, um dos maiores líderes do mundo. Mas eu sinto o governo muito travado. Os ministros têm de falar mais. Dilma se soltou um pouco este ano, mas os ministros não. Nem parece que a gente tem 40 ministros, algo que tanto criticam. Quero ver mais esses ministros. Fui prefeito e governador, sei que é necessário descentralizar as decisões, que os aliados precisam se sentir mais interlocutores com a sociedade.

CC: A economia será um trunfo ou uma debilidade do PT na eleição?

JV: A economia mundial tem melhorado, então o emprego vai se manter e o crescimento vai voltar. Não acredito que o brasileiro aceite recuar nas conquistas recentes. O grande aliado nosso para o Brasil não andar para trás é o cidadão brasileiro, os 40 milhões que viraram consumidores. É uma pena que essa ambição positiva da nova classe média não encontre ressonância na elite brasileira, que é travada, não gosta de riscos. Esse capital de bilhões acumulado em famílias e grupos econômicos tem de acreditar no Brasil.

CC: Esse setor “travado” fomenta candidaturas contra o governo?

JV: Não é que fomenta. Ele se contenta numa zona de conforto que fez muito mal ao Brasil. A candidatura que se vincular a esse tipo de pensamento, em vez de dar um passo à frente no nosso projeto, vai dar um passo para trás. O que mais me impressiona é a desfaçatez dessa elite, que tinha salários sofríveis, tinha empresas em dificuldades, beneficiou-se muito nos governos Lula e Dilma, mas quanto mais ganha, mais reclama.

CC: Eduardo Campos estabelece vínculos com esse pensamento?

JV: Quem quer ser candidato não pode rejeitar voto. Mas aceitar voto é uma coisa, aceitar capricho é outra. A candidatura de Aécio já é a desse Brasil acomodado. Tomara que não haja outra.

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