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V de vergonha ou F, de falta dela?

por Forum de Interesse Publico — publicado 13/12/2011 14h27, última modificação 13/12/2011 14h27
João Feres Júnior analisa a diferença no enfoque dado pela mídia nas manifestações promovidas por pobres e pelos ricos

 

Por João Feres Júnior*

 

Há algumas semanas a revista Veja publicou na capa de sua edição semanal uma fotografia de uma máscara do personagem do filme V de Vingança, acompanhada de uma lista de “dez motivos para se indignar com a corrupção” em nosso país.

Na verdade, tratava-se de uma série de coisas e serviços que poderíamos ter caso os recursos perdidos para a corrupção fossem retornados à fazenda pública. Logo abaixo vinha a cifra do montante “surrupiado pelos corruptos brasileiros” no ano passado: 85 bilhões de reais.

E logo em seguida uma lista de coisas e serviços públicos nos quais esse dinheiro poderia ser gasto: erradicar a miséria, milhões de sessões de quimioterapia, milhões de dias de UTI, etc.

O cálculo usado para se atingir esse montante, contudo, era bastante ficcional, em parte porque, por mais que alguns economistas se esforcem, a informação acerca dos valores que circulam em transações ilegais não está disponível, por razões óbvias.

Assim, a metodologia inventada para se fazer tal estimativa geralmente abusa da criatividade. Mas quero chamar atenção aqui não para a criatividade do cálculo, nem para a lista que faz alusão velada de péssimo gosto à doença do ex-presidente Lula, mas sim para a estratégia midiática de se associar à imagem da indignação, a máscara do filme, à questão da corrupção no Brasil.

A revista Veja tem desempenhado um papel peculiar na grande mídia brasileira da atualidade, aquilo que em inglês se chama whistle blower – tocadora de apito. Ela geralmente é a primeira a soar acusações e denúncias que logo em seguida são ecoadas pelos jornalões do país e também pela mídia televisiva como fatos. Dessa vez, contudo, no caso da associação da imagem da indignação com a corrupção, as organizações Globo parecem ter tomado a dianteira.

Na verdade, na Globo a associação foi mais completa, buscou-se insuflar um movimento contra a corrupção no Brasil, ao mesmo tempo em que esse movimento era interpretado como parte da onda global de movimentos populares que incluem principalmente os “indignados” dos EUA, Espanha, Inglaterra e demais países da Europa e a Primavera Árabe.

O suposto movimento contra a corrupção no Brasil tem sido até agora um fracasso retubante de público, por mais que os telejornais da Globo informassem os mínimos detalhes de sua organização, fazendo chamadas para a mobilização, e o jornal cubrisse as manifestações com manchetes de primeira página. É emblemática a foto enorme estampada em uma das edições para noticiar um ato de protesto contra a corrupção na qual foram enfiadas 513 vassouras de cerdas plásticas verdes nas areias de Copacabana, cada uma representando um deputado federal.

Entre vários aspectos dessa cobertura da grande mídia que merecem comentário, quero chamar atenção aqui para a diferença do tratamento dado a esses movimentos, pois ela me parece ser reveladora de uma posição partilhada por boa parte de nossa grande imprensa.

O suposto movimento popular anti-corrupção do Brasil, que é em grande medida uma criação ficcional da própria mídia, recebeu loas e incentivos enquanto os movimentos sociais reais em outros países receberam e continuam a receber uma cobertura pouco alentadora.

Por exemplo, os jovens espanhóis que acamparam por meses na Plaza de Sol, no centro de Madri, passaram quase desapercebidos na grande mídia brasileira, assim como os protestos estudantis no Chile, também da primeira metade de 2011.

Os manifestantes londrinos receberam um tratamento ainda pior, pois muitas vezes foram representados como baderneiros, perturbadores da ordem pública, que deveriam ser justamente reprimidos violentamente pela policia.

Occupy Wall Street talvez tenha sido o movimento que até agora maior cobertura teve. Nesse caso, provavelmente por se tratar de Nova York (a grande mídia brasileira tem um pendor babão por tudo que é Americana), o tratamento foi mais descritivo, em comparação a Londres, por exemplo.  Houve contudo uma interpretação dominante na cobertura de todos esses movimentos, ecoada repetidamente nas páginas e nos telejornais da grande mídia: eles não têm projeto; criticam o establishment mas não oferecem soluções.

A chave interpretaiva está de fato nas gradações da cobertura midiática dos movimentos sociais em geral. O diabo vive nos detalhes.

Movimentos autóctones que questionam a legalidade, como os Sem-Terra ou os Sem-Tetos, são retratados como bandos de malfeitores, merecedores de severa repressão policial. Movimentos estrangeiros que também questionam o status quo legal têm uma recepção mais simpática, ou pelo menos apática, mas raramente tão ferozmente militante quanto aquela dada aos Sem-Terra.

Seria porque nossa mídia tem uma simpatia natural pelas coisas do primeiro mundo, de onde vêm essas manifestações? Para entendermos qual a lógica por trás desse comportamento, vamos comparar tal tratamento a dois casos específicos: os riots londrinos e o movimento recente de alunos da USP contra a polícia no campus.

No caso dos riots londrinos, ainda que o tratamento não seja comparável ao dado aos Sem-Terra, houve repetidas menções à necessidade de se reprimir violentamente quem “desrespeita a lei”.

Ou seja, a tese da simpatia ao estrangeiro primeiromundista parece não funcionar muito bem aqui. Gostaria de lembrar, contudo, que as pessoas que participaram dessas manifestações foram repetidamente identificados como negros, imigrantes e marginais, ou seja a “escória” da sociedade inglesa, a underclass.

Apesar desses grupos sociais estarem também presentes na Plaza del Sol e no Occupy Wall Street, as turbas que inflamaram esses movimentos não foram sistematicamente descritas dessa maneira. Pelo contrário, acentuou-se mais o fato de serem jovens, muitos de classe média, e estarem indigados com o establishment. Assim, elementos de classe e raciais parecem ter sobrepujado a simpatia natural aos estrangeiros do norte. A tempo, vale notar que essa simpatia também é calcada em elementos sociais e raciais, afinal de conta europeus e americanos são dominantemente ricos e brancos.

Vejamos agora a recepção dada ao movimento da USP. Essa talvez seja a mais reveladora, pois conseguiu dividir a mídia, ainda que tenha sido uma divisão sequencial e não sincrônica. Explico. Desde início, a cobertura foi visivilmente contrária à invasão da reitoria e da FFLCH, condenando o consumo de maconha no campus e ressaltando o fato de que a interdição da polícia só se justificava no tempo da ditadura militar.

A parca legitimidade do reitor, segundo colocado na consulta pública e, em seguinda, imposto à comunidade pelo então governador José Serra, e sua tendência à truculência no tratamento dos conflitos na universidade quase não foram mencionadas.

Contudo, a prisão dos alunos e a exigência de fiança para sua soltura não foram aplaudidos pela grande imprensa. Ou seja, se por um lado condenaram a invasão, por outro não desejavam punição exemplar aos alunos da USP. A variável explicativa parece funcionar aqui também: desrespeito à lei merece um tratamento law and order, mas as simpatias de classe e raciais funcionaram como forças mitigadoras: para os bem-nascidos estudantes da USP a dureza da lei é excessiva.

Há outros exemplos comparativos reveladores. Tomemos agora as coberturas da discussão sobre a união homoafetiva e das cotas étnico-raciais para o ensino superior.

No primeiro caso a grande mídia se mostrou tolerante, dando suporte majoritário para os argumentos em prol da legalização.

No caso das cotas raciais os grandes orgãos de imprensa se esmeram em publicar artigo após artigo, editorial após editorial, acusando-as de promover o conflito racial, destruir a harmonia racial do nosso país, solapar o republicanismo e a universalidade da norma, etc, e isso sem qualquer evidência empírica corroborante.

Novamente, as variáveis classe social e raça parecem em grande parte explicar o comportamento da mídia. Há homosexuais em todas as classes, e provavelmente os mais ricos são mais organizados, pois têm recursos para isso. Isso não é verdade em relação aos negros, que se encontram majoritariamente, ou quase que exclusivamente, nas classes mais baixas.

Assim, ao examinarmos comparativamente o tratamento dado pela grande imprensa aos movimentos sociais concluímos invitavelmente que ele é eivado de preconceitos de classe e de raça.

Ou melhor, ele olha esse objeto a partir de uma perspectiva que tem no centro os interesses das classes mais privilegiadas e dos brancos. Será que a tão propalada nova classe média que eclodiu nos último anos na cena nacional vai se deixar capturar por esse olhar elitista, ou será que a grande mídia vai conseguir reformular sua perspectiva classista para evitar sua gradual mas constante perda de relevância na sociedade brasileira? Quem viver verá!

 

*João Feres Júnior

Instituto de Estudos Sociais e Políticos - IESP

Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ

Centro de Ciências Jurídicas e Políticas - UNIRIO

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