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Uma radiografia da eleição para o Senado

por O Escrevinhador — publicado 31/08/2010 11h22, última modificação 31/08/2010 11h29
Rodrigo Vianna faz uma análise do cenário atual

 Rodrigo Vianna  faz uma análise do cenário atual

ATUALIZAÇÃO: esse texto foi escrito antes das últimas pesquisas mostrarem que:
- Marco Maciel (DEM) corre mesmo sérios riscos em Pernambuco;
- São Paulo pode eleger Marta (PT) e Netinho (PCdoB), deixando de fora Tuma (PTB), Quércia (PMDB) e Aloysio (PSDB);
- Artur Virgilio pode perder a segunda vaga no Amazonas para Vanessa (PCdoB).
por Rodrigo Vianna
Há alguns dias, escrevi aqui um texto sobre a eleição para a Câmara, e prometi que em seguida faria uma radiografia da disputa para o Senado. É o que apresento agora.

Céu de brigadeiro para Dilma num futuro Senado?
O PT adotou, nessa eleição, a tática de abrir mão de candidaturas a governos estaduais, com o objetivo de fortalecer a bancada no Senado Federal. Tática inteligente, já que o Senado (muito mais do que a Câmara) foi o grande obstáculo a Lula – com uma oposição numerosa e barulhenta. A idéia é permitir que Dilma – num eventual governo – tenha correlação de forças mais favorável no Senado.
Será que isso pode acontecer?
Peço, como sempre, a colaboração dos leitores, para corrigir e acrescentar informações que nos ajudem a entender esse quadro. Peço, também, paciência, porque o levantamento é exaustivo – bancada por bancada. Quem tiver menos interesse pode seguir direto para as conclusões finais.
Primeiro, é importante lembrar: dos 81 senadores (3 por Estado), 27 têm mandato até 2015. Portanto, o que está em jogo agora são as outras 54 vagas.
A análise do quadro político em cada Estado aponta para as seguintes possibilidades:
1) Forças de centro-esquerda
PT
- tem 2 senadores com mandato até 2014 – Suplicy (SP) e Tião Viana (AC) -  e pode ganhar mais 1 sem precisar de um voto (Renato Casagrande, favorito na eleição para governador no ES, tem suplente do PT);
- na eleição de outubro, o PT tem chance de eleger entre 8 e 15 novos senadores; Marta (SP), Paim (RS),  José Pimentel (CE), Geisi (PR), Wellington (PI), Jorge Vianna (AC), Delcidio (MS) e Humberto Costa (PE) estão entre os dois mais citados nas pesquisas em seus respectivos Estados; mas o PT tem mais sete candidatos fortes, com chances de atropelar no final se Lula e Dilma ajudarem -  Fernando Pimentel (MG), Walter Pinheiro (BA), Portela (RR), Fatima Cleide (RO), Abicalil (MT), Paulo Rocha (PA) e Lindhberg (RJ);
- dependendo dos resultados,  o PT pode ficar com uma bancada de 11 a 18 senadores.  
PCdoB
- tem um 1 senador com mandato até 2014 – Inacio Arruda (CE) ;
- não tinha nenhum candidato entre os favoritos nas pesquisas, mas nos últimos levantamentos Netinho (SP) e Vanessa (AM) aparecem  com chances reais de atropelar no fim;  ainda há Edvaldo (AC), que está em terceiro mas pode ganhar a vaga com ajuda da chapa comandada pelo PT de Jorge e Tião Viana;
- PCdoB pode ficar com bancada de 3 ou 4 senadores;
PSB  
- não tem nenhum senador com mandato até 2014;
- pode eleger entre 4 e 6 senadores nas eleições de outubro; aparecem entre os dois possíveis mais votados em seus Estados Antonio Carlos Valadares (SE), Rodrigo Rolemberg (DF), Zé Reinaldo (MA), Lidice da Mata (BA); mas outros nomes do partido tem chances – Capiberibe (AP) e Vilma (RN), essa última eu havia deixado fora da lista, mas corrijo aqui por orientação de leitores atentos;
- portanto, PSB pode ficar com uma bancada de 4 a 6 senadores. 
PDT
- tem 2 senadores – Acir Gurgacz (RO) e João Durval (BA) – com mandato até 2014;
- pode eleger mais 3 senadores em outubro; Cristovam Buarque (DF), Waldez Goes (AP) e Dagoberto Nogueira (MS) aparecem nas duas primeiras colocações nas pesquisas em seus respectivos Estados;
- o PDT pode ficar com uma bancada de 5 senadores.
Na hipótese mais otimista para a centro-esquerda, os 4 partidos teriam uma bancada total de 33 senadores. Seria algo inédito no Brasil. Importante lembrar:  alguns nomes que podem se eleger por PSB e PDT não têm histórico de militância pela esquerda.
Outras ressalvas:
-  nomes como Lidice da Mata (PSB) e Walter Pinheiro (PT), por exemplo,  dificilmente estarão juntos nesse cômputo geral. Disputam a mesma vaga para o Senado pela Bahia, já que a outra parece destinada a Cesar Borges (PR);
- em alguns Estados, parece difícil que os petistas, socialistas ou comunistas hoje em terceiro lugar consigam superar pelo menos um dos adversários na disputa (casos de Paulo Rocha no Pará e Lindhberg no Rio, que terá um enfrentamento duríssimo com Cesar Maia pela segunda vaga no Estado).
Por isso, a previsão mais realista é que as legendas de centro-esquerda fiquem com uma bancada em torno de 28 senadores.
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2) PMDB
- tem 3 senadores com mandato até 2014 – Pedro Simon (RS), Jarbas (PE) e Jose Sarney (AP);
- pode eleger em outubro de 14 a 18 senadores; estão entre os favoritos nas pesquisas Ferraço (ES), Rigotto (RS), Luiz Henrique (SC), Requião (PR), Renan Calheiros (AL), Garibaldi (RN), Lobão (MA), Marcelo Miranda (TO), Jader Barbalho (PA), Gilvan Borges (AP), Romero Jucá (RR), Eduardo Braga (AM), Vitalzinho (PB) e Valdir Raupp (RO); mas outros 4 (sem ser favoritos) aparecem ainda com chance de ficar com uma das vagas em seus Estados – Moka (MS), João Alberto (MA), Eunicio (CE) e Quércia (SP);
- portanto, o PMDB pode ficar com uma bancada total de 17 a 21 senadores.
Ressalva: dos 5 nomes ainda com chance, sem ser favoritos numericamente nas pesquisas, só Eunício e Moka parecem ter força política (incluindo a proximidade com Lula) para eventualmente ficar com a vaga.
Portanto, a previsão mais realista é que o PMDB fique com algo em torno de 18 senadores (vai disputar com PT  – que deve eleger 17 ou 18 – o posto de maior bancada no Senado). Desses, pelo menos 4 não podem ser considerados aliados de Lula/Dilma (Jarbas, Simon, Rigotto e Luiz Henrique).
Ainda assim, 14 peemedebistas pró-governo somados a possíveis 28 senadores de um bloco de centro-esquerda já dariam 42 votos (maioria simples no Senado).
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3) Outras legendas aliadas de Lula/Dilma
PR
- não tem senadores com mandato até 2014;
- pode eleger 4 senadores em outubro; Blairo Maggi (MT), Magno Malta (ES), Cesar Borges (BA) e João Ribeiro (TO) são favoritos em seus Estados, de acordo com as últimas pesquisas;
- PR deve ficar com uma bancada de 4 senadores
PTB
- tem 5 senadores com mandato até 2014 – Mozarildo Cavalcanti (RR), Epitácio Cafeteira (MA), João Vicente Claudino (PI), Gim Argello (DF), Fernando Collor ou suplente (AL);
- pode eleger 1 ou 2 senadores; Tuma aparece na disputa pela segunda vaga em SP (mas pode acabar derrotado por Netinho, Quércia ou Aloysio) e Armando Monteiro Neto (terceiro nas pesquisas em PE) pode surpreender o veterano Marco Maciel, se Lula e Eduardo Campos ajudarem;
- PTB deve ficar com bancada de 5 senadores.
PRB
- não tem nenhum senador com mandato até 2014;
- em outubro deve eleger 1 senador - Crivella (RJ) está em primeiro nas pesquisas no Estado;
- PRB deve ficar com 1 senador.
PP
- tem 1 senador com mandato até 2014 – Dornelles (RJ);
- tinha chance clara de eleger mais 1 senador, mas Ivo Cassol (RO) teve seu registro cassado pelo TRE; no RS,  Ana Amélia Lemos pode surpreender os favoritos Rigotto e Paim.
- PP deve ficar com 1 ou 2 senadores.
As 4 legendas, somadas, devem ficar com algo em torno de 12 senadores. Desses, pelo menos 10 têm-se mantido próximos a Lula/Dilma.
4) Legendas de oposição a Lula/Dilma no Senado
PSDB
- tem 5 senadores com mandato até 2014 – Mario Couto (PA), Marisa Serrano (MS), Marconi Perillo (GO), Alvaro Dias (PR) e Cícero Lucena (PB);
- pode eleger, em outubro,  de 5 a 7 senadores que estão entre os dois primeiros nas pesquisas em seus Estados - Aécio (MG), Paulo Bauer (SC), Tasso (CE), Cassio Cunha Lima (PB), Lúcia Vania (GO) Marluce Pinto (RR) e Antero (MT) (os dois últimos correm algum risco, porque disputam a segunda vaga com candidatos do PT que podem crescer na reta final);
- PSDB deve ficar com uma bancada de 10 a 12 senadores. 
DEM
- tem 5 senadores com mandato até 2014;
- pode eleger, de acordo com as pesquisas, até 5 senadores; estão entre os favoritos, até agora, Cesar Maia (RJ), Marco Maciel (PE), Agripino (RN), e Demóstenes Torres (GO); Heráclito Fortes (PI) aparece em terceiro nas pesquisas e pode perder a reeleição;  Cesar Maia e Marco Maciel também devem ter dificuldades porque concorrem em Estados onde o eleitorado é francamente lulista, e os dois podem acabar derrotados por Armando Monteiro Neto (PE) e Lindhberg (RJ);
- a previsão mais realista é que o DEM eleja 3 ou 4 senadores em outubro, e fique com uma bancada de até 9 senadores
PPS
- não tem senadores atualmente;
- pode eleger 1 senador em outubro – Itamar Franco (MG); disputa a vaga com Fernando Pimentel (PT);
- pode ficar com 1 senador.
PSC
- não tem senadores com mandato até 2014;
- pode eleger 1 senador – Mão Santa (PI) está entre os primeiros em seu Estado;
- PSC deve ficar com 1 senador a partir do ano que vem.
PMN
- não tem senadores;
- pode eleger 1 senador – Petecão no Acre está sem segundo, mas corre risco de ser derrotado por Edvaldo do PCdoB;
- PMN pode ficar com 1 senador a partir de 2011.
PSOL
- não tem senadores com mandato até 2014;
- deve eleger 1 senador – Heloisa Helena (AL) é favorita;
- PSOL deve ficar com 1 senador a partir de 2011.
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Vamos às Conclusões Finais…
- A bancada PSDB/DEM/PSC/PPS/PMN deve somar algo em torno de 22 senadores a partir de 2011. Com mais 4 “dissidentes” do PMDB (Jarbas, Simon, Rigotto, Luiz Henrique), 2 “dissidentes” de legendas de centro-direita teoricamente próximas ao lulismo,  e 1 senador do PSOL, a oposição a um hipotético governo Dilma teria cerca de 29 senadores.  
- Do outro lado, somados os votos das legendas de centro-esquerda (28 senadores) com o PMDB “lulista” (14 senadores) e mais 10 senadores de legendas “aliadas” (PP/PR/PRB/PTB) , um hipotético governo Dilma teria algo em torno de 52 votos no Senado. Dois terços do Plenário! Vida mais tranquila do que Lula.
- Tranquila entre aspas porque na turma pró-governo do PMDB haveria gente como Jáder Barbalho – que costuma trazer mais problema do que voto (a Ana Júlia que o diga, no Pará).
- De toda forma, a nota mais importante é o provável encolhimento do bloco DEM/PSDB. Difícil imaginar que Tasso Jereissati, Agripino e Demóstenes  não consigam se eleger. Mas figuras como Heráclito Fortes, Artur Virgilio (e até Marco Maciel!) correm risco concreto de ficar fora do Congresso
- Os “demo-tucanos” não serão “varridos do mapa”, como chegam a dizer alguns de forma retumbante. Mas ficarão mais fracos. Se vencer, Dilma pode esperar menos dor-de-cabeça por parte dessa oposição barulhenta do Senado, e mais dor-de-cabeça pra negociar com os “neo-aliados” como Jáder, ou com os velhos “parceiros” (Renan/Sarney/Jucá).
- Na hipótese menos provável de Serra virar o jogo e ganhar, o PMDB cairá tranquilamente no colo dele. Sem traumas. E com muitos votos no Senado.
- Oito anos de Lula parecem ter sido insuficientes para esgotar o poder dos velhos caciques peemedebistas, que chegarão a Brasília mais fortes do que nunca. E – num hipotético governo Dilma – jogariam de tabelinha com um aliado poderoso a fazer sombra, na vice-presidência.
- Por isso, é fundamental que as legendas de centro-esquerda e o PT ofereçam um contra-peso ao poder do PMDB no Senado. Pelo quadro nos Estados, isso pode muito bem se concretizar.  Lula, mais uma vez, demonstra uma capacidade impressionante de estrategista.

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