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Política

Entrevista

Uma potência dispensável?

por Gianni Carta publicado 23/06/2013 08h38
Para Vali Nasr, da Universidade Johns Hopkins, os EUA não têm uma estratégia para o Oriente Médio. Por Gianni Carta
Win McNamee/Getty Images/AFP
Exército EUA

Soldados norte-americanos participam de cerimônia no túmulo do soldado desconhecido, em Arlington, em 13 de junho, aniversário de 238 anos do Exército dos Estados Unidos.

Uma linha resume o último livro de Vali Nasr, The Dispensable Nation: American Foreign Policy in Retreat: “O modus operandi (da política externa de Barack Obama) tem sido – bater em retirada”. O presidente implementará a nova estratégia no próximo ano no Afeganistão, onde o Taleban provavelmente voltará ao poder. Obama pode ir longe com essa falta de estratégia, “enquanto tiver o apoio da opinião pública”, afirma o acadêmico, reitor da Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins.

Nascido no Irã em 1960, cidadão norte-americano, Nasr tem suficiente conhecimento para criticar a política externa dos Estados Unidos, pois não é apenas mais um especialista em Oriente Médio. Entre 2009 e 2011, foi o assessor do falecido Richard Holbrooke, representante especial de Obama para o Afeganistão e o Paquistão e responsável pela supervisão dos Acordos de Paz de Dayton que puseram fim à guerra na Bósnia. A seguir, os principais trechos da entrevista.

CartaCapital: O epicentro regional mais problemático do mundo é, como Richard Holbrooke disse, o eixo Afeganistão-Paquistão. Os norte-americanos e a Otan deixarão, porém, o Afeganistão em 2014. O que podemos esperar, entre outras ameaças, do Taleban?
Vali NasrVamos deixar uma pedra angular, sem ter derrotado o Taleban. Nada mudou realmente no Afeganistão e no Paquistão. O Taleban ainda têm os mesmos objetivos estratégicos: o de governar o Afeganistão. É provável que aconteça.

CCDurante as campanhas presidenciais, Obama disse que iria se envolver no mundo muçulmano, e não apenas para ameaçá-lo ou atacá-lo, como o senhor escreve em seu livro. Iria mostrar liderança, mas não tinha nenhuma estratégia. Por que a política externa de Obama tem sido tão terrível?

VNObama nunca se envolveu muito em política externa. Ele acredita não ser importante para os EUA se engajarem no Oriente Médio, e aconteça o que acontecer por lá não haverá maiores repercussões em Washington. O nível da retórica da administração de Obama sobre o Oriente Médio tem sido significativo, mas nunca houve qualquer acompanhamento. A política externa é a mesma em todos os lugares. Se há democracia na Tunísia, guerra civil na Síria, ou uma guerra sectária no Iraque, a resposta é sempre a mesma: os Estados Unidos não precisam se envolver por não ter interesse nacional nessas regiões.

CC: O senhor diz que os especialistas da Casa Branca de Obama estão mais preocupados com a política interna do que com a política externa. Mas não tem sido esse o caso com todos os presidentes e primeiros-ministros de todo o mundo?
VN: Sim, mas é preciso manter um equilíbrio. Você tem de ser sensível à opinião pública doméstica, é preciso gerenciá-la. No entanto, você não deve tentar se esconder atrás de opinião pública, é preciso também liderar a opinião pública externa. Olhe o que está acontecendo na Alemanha. A chanceler Angela Merkel está ciente de que o público alemão não está interessado em resgatar o resto da Europa, mas ela tenta, ao mesmo tempo, manter um equilíbrio. Merkel argumenta que o euro é do interesse da Alemanha, e não seria positivo para o país sair da Zona Euro. Em outras palavras, você não pode se esconder por trás de política interna e evitar tratar de questões de política externa.

CC: Numerosos especialistas do Oriente Médio têm defendido que o cerne do problema no conflito mundial entre muçulmanos e pessoas de outros credos tem sido o fracassado processo de paz entre Palestina e Israel. Por que o Paquistão, como o senhor sustenta, se tornou país mais perigoso do mundo?
VN: O Paquistão tem um governo fraco, problemas econômicos, uma população muito jovem. E foi sugado pelo conflito afegão desde a década de 1980. Esse envolvimento aprofundou o extremismo no país. Ele também atravessa outros conflitos, como aquele na Caxemira. E os paquistaneses têm armas nucleares. A situação lá é bastante instável.

CC: Não ter uma estratégia para a Primavera Árabe teria sido o maior fracasso de Obama em termos de política externa?
VN: Um país como os Estados Unidos tem de ter uma estratégia global. Quais eram os objetivos da América na Primavera Árabe? E como Barack Obama realizaria as metas dele? A reação foi: “O Oriente Médio está se tornando democrático e temos de torcer por eles, mas não temos de articular objetivos para ajudá-los”. As metas serão automaticamente realizadas por conta própria. Esse foi o pensamento simplista.

CC: O senhor sugere que os EUA poderiam viver com um Irã nuclear como acontece com um Paquistão nuclear, entre outros países nucleares. Podemos esperar quaisquer mudanças políticas do Irã após as eleições?
VN: As eleições fazem a diferença no mercado interno. Mas o problema maior, o das negociações nucleares, não tem nada a ver com as personalidades. Os Estados Unidos não vão oferecer ao novo presidente iraniano nada de diferente. Por sua vez, o novo presidente iraniano não pode oferecer os Estados Unidos algo substancialmente diferente do que Ahmadinejad fez, a não ser que ele nutra a expectativa de receber algo em troca. Nenhum presidente iraniano, por mais liberal que seja, iria sobreviver politicamente se ele fosse subserviente de qualquer forma com os EUA.

CC: Houve uma iniciativa turco-brasileira de lidar com o programa nuclear iraniano. Costumamos falar sobre a chamada “comunidade internacional”, o que, obviamente, não inclui todos os países. Na verdade, alguns deles cismaram com a iniciativa turco-brasileira.
VN: A China e a Rússia ficaram particularmente irritadas com o fato de o Brasil e a Turquia roubarem o show. Mas os Estados Unidos ficaram felizes com a iniciativa porque Washington, concentrada em sanções econômicas contra o Irã, estava completamente despreparada para qualquer sucesso.

CC: Acha positivo o Lula ter falado com Ahmadinejad?
VN: Claro. Mas, em última análise, a relação Brasil e Irã nunca foi alavancada pelos Estados Unidos para ajudá-los a processá-la.

CC: O Brasil e a Turquia, de fato, assinaram com o Irã a Declaração de Teerã, o primeiro documento assinado pelo Irã em relação ao seu programa nuclear. O senhor alega que Obama não soube tirar proveito dessa importante declaração.
VN: Ele só estava interessado em sanções.

CC: Porque ele seria visto como um presidente "soft" pelos republicanos?
VN: Sim, seria visto como um mole pelos republicanos. Mas acredito que ele também nunca teve uma estratégia para negociar com o Irã. Acho que Obama fala sobre falar sem qualquer compromisso sério com a diplomacia como é a forma como ele está atualmente a conduzir a política externa dos EUA na Síria.

CC: Diplomatas brasileiros também estavam envolvidos em negociações de paz entre Bashar al-Assad. Você crê que a solução não pode ser alcançada por meio da diplomacia?
VN: A solução está se tornando mais difícil. Ainda há espaço para a diplomacia, mas você tem que estruturá-la corretamente. A diplomacia não é o suficiente para envolver os russos e outros atores regionais. É preciso criar as condições para a diplomacia para ela ter sucesso. Você tem de armar os rebeldes, caso contrário Assad não vai te levar a sério. Durante os Acordos de Dayton (supervisionados por Holbrooke) que colocaram fim à guerra na Bósnia, armamos os croatas e os muçulmanos para o Milosevic entender que não poderia ganhar. Isso antes de ele saber que a Otan poderia bombardeá-lo. A diplomacia sempre tem de vir em primeiro lugar, mas os oponentes têm de ter em mente que se ela falhar as outras opções serão desastrosas para eles.

CC: O senhor argumenta que talvez a próxima corrida geopolítica entre os Estados Unidos e a China será disputada no Oriente Médio. A China seria a nova União Soviética em um contexto mais econômico?
VN: Os EUA identificaram a China como o seu mais provável rival como uma potência global. Esta rivalidade não tem nada a ver com a Guerra Fria, uma vez que não tem o componente ideológico de outrora entre os EUA e a União Soviética. Além disso, os Estados Unidos fazem negócios com a China. Mesmo assim, os Estados Unidos veem a China como um rival.

CC: A América é uma nação dispensável?
VN: Foi Bill Clinton, que disse que os EUA eram “indispensáveis”.  Mas quando os EUA não são indispensáveis ​​no Oriente Médio, então o país passa a ser dispensável. Os norte-americanos estão cansados de guerras, mas será que eles realmente querem ser irrelevantes para o Oriente Médio? Quais serão as consequências dessa postura?

CC: Mas as superpotências não são eternas...
VN: É muito provável que adentraremos uma época na qual os Estados Unidos perderão sua importância. No entanto, isso não vai acontecer da noite para o dia. Isso requer mudanças graduais nas instituições. Se essa transição acontecer muito rapidamente ela será prejudicial para o Brasil, China e Oriente Médio. A China está crescendo e o Brasil também. Mas esses países ainda não têm a capacidade para atuar a nível global. Você não pode simplesmente dizer que os EUA eram uma nação indispensável ontem e já não são mais.

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