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Uma eleição que não deixa saudade

por Coluna do Leitor — publicado 26/10/2010 10h53, última modificação 27/10/2010 08h53
Os últimos meses de campanha, tanto pela mídia como as programações eleitorais de rádio e televisão, vem sendo consumidos pela guerra suja recheada por mentiras, agressões verbais e contra-informações. Por René Ruschel

Por René Ruschel*

A eleição à presidência da República é um fato da mais alta relevância em qualquer Nação. Os meses que antecedem o pleito são marcados por entrevistas, debates, palestras e reuniões dos candidatos com os mais diversos segmentos organizados da sociedade para discutir um novo modelo ou reordenamento político, econômico e social. A menos de dez dias das eleições, o País literalmente para. Nada é mais importante do que projetar o futuro a partir do que pensam os candidatos.

O Brasil parece ser uma exceção na aldeia global. Há exatos nove dias da eleição o debate nacional gira em torno da agressão sofrida pelo candidato tucano, José Serra, em caminhada de campanha no calçadão de Campo Grande, bairro da zona norte do Rio de Janeiro. Algumas imagens mostram que a arma do atentado foi uma ‘bolinha de papel’ atirada contra a cabeça da vítima. Outras apontam para uma pequena ‘bobina de adesivo’ de campanha. Os jornais e noticiários de rádio e televisão dão destaque ao simulacro à porta de um hospital onde Serra teria se submetido a uma ‘tomografia computadorizada’. Ser contra ou a favor do aborto, assim como a ira dos fundamentalistas religiosos, é coisa do passado.

Os últimos meses de campanha, tanto pela mídia como as programações eleitorais de rádio e televisão, vem sendo consumidos pela guerra suja recheada por mentiras, agressões verbais e contra-informações. Os debates na televisão não só tem pouca relevância na definição do voto por parte dos eleitores como os conteúdos programáticos são de uma nulidade absoluta. Enquanto isso, marqueteiros de plantão usam e abusam da mais potente e mortífera arma da vez: a internet. No mundo virtual vale tudo, uma vez que a farsa não tem cara, não tem idade nem identidade; apenas um endereço comum identificado como ponto com. Nela, os canalhas se deleitam.

A reboque vem a imprensa adesista. Com marca, nome, timbre e assinatura, porém dissimulada quando convêm. Patrões e jornalistas, não necessariamente colegas, se mancomunam na defesa dos seus interesses, embora nem sempre sejam os mesmos. Aliás, justiça seja feita. Exceto a revista CartaCapital, que sempre apoiou Lula em eleições anteriores e agora apóia Dilma, e o jornal O Estado de S. Paulo que optou por José Serra, as demais publicações não assumem suas preferências. Mas também não é necessário. Basta atentar as capas e manchetes de cada edição; os editoriais e páginas internas tendenciosas; colunistas a opinar em harmonia com os desejos e anseios dos superiores imediatos; assistir aos noticiários de televisão ou comentários e análises dos jornalistas.

O compromisso da imprensa deve ser com a responsabilidade pública. Sua função é apurar e informar à sociedade os acontecimentos de maneira factual. O que não impede que qualquer veículo assuma em sua linha editorial uma postura de defesa a determinadas posições políticas ou econômicas. Faz parte do jogo democrático sendo, inclusive, salutar. Mas vale repetir: desde que a verdade não seja omitida ou deturpada. Aqui pelas terras de Pindorama, os jornalistas engajados à idéia de exercer a profissão com dignidade e isenção, costumavam – ou costumam, para os que ainda resistem – repetir o velho chavão que a redação e o departamento comercial do jornal devem permanecer distantes um do outro.

Hubert Beuve-Méry, fundador e primeiro diretor de redação do jornal francês Le Monde, implementou como regra geral no diário parisense que todos os jornalistas da redação deviam “escrever a verdade, custe o que custar. Sobretudo se custar”.

No Brasil, os donatários da mídia parecem pensar exatamente o oposto.

René Ruschel é jornalista em Curitiba.

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