Você está aqui: Página Inicial / Política / Um passeio com Mujica e Benedetti

Política

Uruguai

Um passeio com Mujica e Benedetti

por O Escrevinhador — publicado 21/12/2010 10h15, última modificação 21/12/2010 10h27
Foi um dia delicioso, com Mujica, Furlán e Benedetti. Montevidéu tem muita mais do que boa carne – pensava enquanto encerrava a jornada com o livro de poesias ao lado. Por Rodrigo Viana

Foi um dia inteiro de caminhadas por Montevidéu. Um dia delicioso. O passeio começou por Punta Carretas, onde ficava meu hotel. Em vez de caminhar pela “Rambla” (o simpático calçadão à beira-rio – que mais parece beira-mar), preferi as ruas de dentro no bairro. Passei ao lado do elegante Shopping de Punta Carretas, onde nos anos 70 funcionava o presídio político para onde eram conduzidos os militantes que se opunham à ditadura uruguaia. Em 1971, 111 presos (na maioria militantes do grupo guerrilheiro Tupamaro) empreenderam uma fuga cinematográfica – e que virou mesmo filme!

Entre os fugitivos de Punta Carretas estava Jose Pepe Mujica, que vem a ser o atual presidente do Uruguai. Mujica fugiu com os companheiros, mas acabou preso de novo, e foi brutalmente torturado, mantido numa solitária durante vários anos. Resistiu! Manteve a sanidade e a tenacidade. Terminada a ditadura, ajudou a constituir a Frente Ampla: tornou-se moderado, sem abandonar as raizes de esquerda. Uma trajetória parecida com a de Dilma. A diferença é que o uruguaio Mujica aparentemente é mais expansivo que nossa futura presidenta. Dois ex-guerrilheiros que chegaram ao poder graças à força do voto.

Pensava eu nessas coisas enquanto me afastava de Punta Carretas e já avançava pelo bairro de Pocitos: com calçadas largas, ruas arborizadas, lembra um pouco (mal comparando) Ipanema. Tem até praia (sem os encantos de Ipanema, claro). Mas ali há outros encantos…

Segui pela calle Jose Ellauri, depois desci o boulevard Espana. Ali, quase na esquina com a Benito Blanco, fui fisgado por uma simpática livraria, “Libros de la Arena” – uma da muitas que visitei na capital uruguaia em três dias de viagem. Ambiente agradável: música brasileira (Vinicius de Moraes), atendentes muito simpáticos e preços baixíssimos (quase tudo em liquidação, promoção de inauguração). Mas havia pouca coisa nas estantes: aquela, logo me informaram, era a filial de outra livraria de mesmo nome, essa sim tradicionalíssima.

Fui atrás. Bastou virar a esquina na Benito Blanco, pra encontrar o que eu queria: o dono do estabelecimento (um discreto uruguaio, escondido atrás de um bigode severo) sabia tudo sobre Mario Benedetti – escritor recem falecido, por quem me apaixonei depois de ler ”A Tregua” (romance comovente e simples, uma obra-prima na minha modesta opinião).

O livreiro foi-me mostrando tudo: edições populares em papel barato, coletâneas especiais, até edições antigas e disputadas pelos leitores mais conservadores. Tudo sobre Benedetti – que, além de escrever bem, era um intelectual de esquerda, colaborador de jornais históricos (e muito vivos) como o semanário “Brecha”.

Fiz o pobre do homem subir e descer as estantes várias vezes para buscar um, dois, três, quatro, uma dúzia de livros de Benedetti. Até que me decidi. Saí dali feliz, com dois livros de poesia, um de contos e um outro romance. Ainda na calçada, já comecei a ler “Inventario Dos” (coletânea de poemas de Benedetti dos anos 80 e 90).

Que coisa boa! Textos simples, quase crônicas em forma de verso: uma mistura (de novo, mal comparando) de Drummond com Rubem Braga.

Fugindo do sol inclemente, rodopiei por mais uma hora e deixei-me perder pelas ruas de Pocitos, até parar pra almoçar num restaurante sombreado, todo de pedra: refeição regada a vinho branco (e gelado) uruguaio, e a versos de Benedetti.

À tarde, de volta ao hotel, fugi da tentação de uma soneca, e peguei o carro pra seguir direto rumo à Ciudad Vieja – o centro antigo de Montevidéu. Não foi difícil achar vaga pra estacionar numa rua de prédios mal ajambrados do centro. Melhor mesmo seguir a pé. O passeio pela peatonal (rua de pedestres) Sarandi conduziu-me até o “Cafe de la Pausa” - curioso refúgio, na sobreloja de um prédio centenário. Pra entrar, é preciso tocar a campainha, esperar a dona (uma senhora reservada, de poucas palavras) autorizar entrada pelo interfone meio enguiçado, e finalmente subir dois lances de uma escada velhissima, que serpenteia ao lado de um elevador pantográfico e também enguiçado.

Lá dentro, encontrei boa música, muitos jornais e (nem tudo é perfeito) cerveja quente. Deixei a bebida de lado, e passei a folhear um exemplar de “Brecha” – o jornal em que Benedetti colaborou.

Incrível: “Brecha” é um jornal que já completou um quarto de século. É fácil encontrá-lo nas bancas de Montevidéu. Disputa manchetes (e leitores) com a imprensa conservadora uruguaia. Promove bom debate, é uma publicação de esquerda mas mantem independência do governo que - agora - está nas mãos da Frente Ampla de Mujica (o presidente anterior, Tabaré Vasquez, um médico de origem socialista, também era da Frente Ampla).

Por que os uruguaios conseguem construir (e manter) “Brecha”, assim como os argentinos fazem “Página 12″, e nós no Brasil tateamos, nos arrastamos e temos tanta dificuldade em produzir um jornal com a mesma força (apesar dos bravos esforços da turma do “Brasil de Fato”)?

Perguntas que me perseguiam enquanto eu descia a velha escada para retomar a caminhada, rumo a outra lembrança de Benedetti: o “Café Brasileiro”, na calle Ituzaingó. O escritor gostava de frequentar esse que é o mais antigo (e certamente um dos mais agradáveis) cafés de Montevidéu. Ali, mais vinho e mais versos, num circuito etílico que parecia não ter fim.

Começo da noite, e eu ainda precisava sair atrás de um presente: a camisa da “Celeste” para meu filho Vicente – que adora futebol. Objeto disputado depois do heróico quarto lugar obtido pela seleção uruguaia na Copa da África do Sul. Depois de idas e vindas, encontrei a camiseta numa loja grande da avenida 18 de Julio. Camiseta que carrega a mística do futebol uruguaio e traz o nome do craque Furlán – um dos heróis da ressureição futebolística da Celeste em 2010.

Mas ainda havia uma última parada. De novo, a peatonal Sarandi. E mais uma livraria. Essa belíssima também pela arquitetura: “Más Puro Verso”. Cheguei quase na hora de fechar. O vendedor, atencioso, tentou me agradar: olha, tem lançamento de um livro daqui a pouco, se o senhor quiser pode ficar para assistir. Achei engraçado e já ia recusando, quando descobri qual era o livro: a história dos 25 anos do jornal “Brecha”!

Que tremenda coincidência. Fiquei, e meio encolhido ao lado de uma estante com livros de psicanálise, acompanhei a deliciosa palestra de Gerardo Caetano – historiador uruguaio que recontou, para quase uma centena de convidados aboletados no saguão da livraria, a bela trajetória do heróico jornal.

Um dia delicioso: com “Brecha”, vinho, futebol, literatura e muita caminhada. Com Mujica, Furlán e Benedetti. Montevidéu tem muita mais do que boa carne – pensava eu enquanto encerrava a jornada devorando um filé suculento, com o livro de poesias bem ao lado do prato.

Um dia de refeição completa, à beira do rio da Prata.

*Publicado por Rodrigo Vianna no blog Escrevinhador

registrado em: