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Um fórum em transformação

por Ricardo Young — publicado 28/01/2009 16h03, última modificação 08/09/2010 16h04
Quando pensamos em Davos, logo nos vem à mente um espaço elitizado no topo do mundo onde meros mortais não chegam, não são convidados

Quando pensamos em Davos, logo nos vem à mente um espaço elitizado no topo do mundo onde meros mortais não chegam, não são convidados. Apenas lideranças globais,do mundo empresarial ou da política ou ainda estrelas de primeira grandeza orbitam a "Montanha Mágica", como Thomas Mann a chamou.

Não é bem assim. Se aproximarmos o olhar, veremos que o Fórum Econômico Mundial vem aos poucos se transformando em uma plataforma de convergência que vai além da agenda empresarial ou econômica. Klaus Schwab, fundador do Fórum há quase 40 anos e seu principal líder afirma que a intenção do fórum foi historicamente a de promover a cidadania empresarial, hoje entende que este espaço deve ser muito mais. A complexidade da agenda global apresenta desafios que nenhum setor isoladamente pode responder. A interdependência é a tônica e a colaboração intersetorial é o espírito do processo.

Há alguns anos quando o movimento antiglobalização assumia proporções preocupantes e paradoxalmente globais, o WEF enfrentava violentas manifestações de rua e seu destino parecia ser a de um confinamento progressivo. Depois de 11/9 onde Fórum se realizou pela primeira vez fora de Davos parecia que o terrorismo havia realmente empurrado a elite do mundo econômico para o “córner”.

Seja pelo grande choque causado pela queda das torres, seja pelos fatos subseqüentes que moldaram a década, seja, ainda, pelo grande sucesso e impacto da criação do Fórum Social Mundial o fato é que o Fórum Econômico mudou.

Com sua fala mansa que mal disfarça a sua vocação acadêmica Schwab descreve o Fórum hoje como uma "ONG gerida com o dinamismo Empresarial e com rigor acadêmico" onde de fato líderes empresariais, líderes políticos, da sociedade civil global e do sistema multilateral se engajam em longos debates entre si e com os melhores expoentes da academia mundo afora além, é claro, de jornalistas e artistas. Ele
mesmo considera-se artista. Crê possuir uma timidez social que o afasta de obrigações mais mundanas e de qualquer ambição política maior. No entanto, quando fala da Estratégia , da beleza da colaboração intersetorial, da diversidade, seu rosto se ilumina e se transforma em jovem Empreendedor social. "Eu não me interesso pelo que as pessoas pensam de mim, me interessa saber qual o impacto positivo que crio nelas. E se isso for verdade aí me sinto reconfortado". Parece que Bono Vox, Bill Gates, Angelina Jolie, Al Gore, Kofi Anan etantos outros parecem crer que este espaço genuinamente causa impacto positivo ao menos neles pois eles tem vindo e participado de forma cada vez mais intensa, ano após ano.

Esse ano, há uma grande surpresa. A partir da crise o Fórum convidou os maiores expoentes mundiais para trabalharem em comitês temáticos procurando descortinar os prováveis desdobramentos dela e as saídas possíveis. A partir daí foi redigido um documento chamado "Riscos Globais 2009" mapeando 36 áreas que se não forem endereçadas simultânea e sistêmicamente, poderemos ir de crise em crise aprofundando o dilema que nossa civilização se encontra.

Mais de 700 expertos se dividiram em Conselhos para definirem esta agenda global e na edição deste ano o Fórum se deterá em analisar prováveis as principais implicações desta agenda e como os setores podem colaborar entre si para esta consertação. Outra coisa importante é que esta agenda deverá acumular também para a conferência de Kopenhagen que acontecerá no final do ano e inaugurará a era pós Kioto onde qualquer falha, veleidade ou miopia dos governantes e líderes mundiais pode significar uma verdadeira condenação de qualquer esperança futura.

Nunca Davos e Belém tiveram tanta responsabilidade em provar que estes fóruns realmente podem ser campos de conexão sistêmica indispensáveis à nova agenda global. Se assim não for, de onde sairá a energia criativa e a liderança legítima para nos tirar deste atoleiro?