Você está aqui: Página Inicial / Política / O prefeito tucano que votou em Dilma

Política

Eleições

O prefeito tucano que votou em Dilma

por Renan Truffi publicado 22/01/2015 06h09, última modificação 22/01/2015 17h48
Gabriel Maranhão, prefeito de Rio Grande da Serra (SP), está a um passo de ser expulso do PSDB por ajudar a reeleger a petista
José Cruz/Agência Brasil
Dilma e Gabriel Maranhão

Dilma durante reunião, em julho de 2014, com prefeitos para assinatura de contratos do PAC Mobilidade Urbana; Gabriel Maranhão (PSDB) é o segundo, da direita para a esquerda

Gabriel Maranhão nunca havia votado no PT na vida. Prefeito de Rio Grande da Serra, ele ingressou na vida pública apenas em 2005, quando se filiou ao PSDB por influência do ex-prefeito Adler Kiko, a quem servia como secretário de Obras. Desde que começou o mandato à frente do município do Grande ABCD, Maranhão tem, no entanto, nutrido um sentimento de gratidão pelo governo federal, por conta da ajuda recebida para obras de infraestrutura. Mais do que isso. A parceria levou o prefeito tucano a votar na presidenta Dilma Rousseff, em 2014, contra o senador Aécio Neves (PSDB-MG), seu companheiro de partido. Agora, Gabriel Maranhão está a um passo de ser expulso da legenda e corre o risco de ter que defender seu cargo na Justiça.

A polêmica nasceu em julho do ano passado quando o próprio Gabriel Maranhão quis agradecer Dilma pelos investimentos feitos em Rio Grande da Serra, durante uma reunião em Brasília entre a petista e os prefeitos do Grande ABCD. “Quero enaltecer as obras da presidenta, que hoje vem fazendo uma política muito republicana. A senhora sabe que eu sou do PSDB, mas meu coração e minha alma são vermelhos”, afirmou antes de surpreender e abrir seu voto publicamente. “A senhora fez com que Brasília fosse mais próxima de Rio Grande da Serra do que o Palácio dos Bandeirantes [sede do governo Geraldo Alckmin]. A senhora tem a minha gratidão, meu reconhecimento e principalmente a senhora tem o voto, tá presidenta?”, complementou Maranhão três meses antes do primeiro turno.

Apesar de a reunião ter sido fechada para imprensa, cinegrafistas e fotógrafos puderam entrar no auditório e o áudio acabou sendo captado pelas câmeras de TV. A repercussão em torno do caso levou o Conselho de Ética do PSDB a recomendar a expulsão de Gabriel Maranhão do partido. A Executiva Estadual acatou esse argumento e a saída do prefeito da legenda só depende, agora, da decisão do Diretório Estadual tucano. Ao que tudo indica, o partido deve expulsar Maranhão por infidelidade partidária.

Em entrevista a CartaCapital, o prefeito confirmou que votou mesmo na petista e disse não ter arrependimentos. “Tenho de ter um respeito hoje com a população que me elegeu e com o que é melhor para a cidade. Não posso deixar de ter gratidão pelas pessoas que nos ajudaram. Não posso deixar de falar do carinho e gratidão que tenho pela presidenta por conta do que ela vem fazendo”, justifica. Gabriel Maranhão é o único prefeito tucano que comanda uma cidade do Grande ABCD. Nas eleições, Dilma ganhou em apenas duas cidades da região, enquanto que Aécio venceu em cinco, fazendo um estrago no antigo bastião do PT em São Paulo. Dentre as cidades em que a petista saiu vencedora está justamente Rio Grande da Serra. A outra foi Diadema.

Para Gabriel Maranhão, a explicação para a vitória do PT na cidade durante sua gestão é, principalmente, a parceria com o governo federal. A cidade tem um orçamento que gira em torno de 60 milhões de reais, já que possui apenas 47,1 mil habitantes, e vai receber aproximadamente 41 milhões como parte de recursos enviados pelo PAC Mobilidade (Programação de Aceleração do Crescimento). A verba será empregada na pavimentação de corredores de transporte público. “O projeto de mobilidade, se Deus quiser, vai colocar Rio Grande da Serra entre as mais avançadas e irá transformar a história da nossa cidade”, disse o prefeito.

Apesar de reafirmar o voto em Dilma e defender a parceria com o governo federal sob a iminência de ser expulso, Gabriel Maranhão diz que se identifica com a ideologia do PSDB e que não está no partido por oportunismo. “Tenho identificação com o partido, mas não poderia deixar de dizer também que tenho uma aproximação, muitas vezes, pelas pessoas", diz. "A gente tem relacionamento com todos os partidos e, muitas vezes, nutrimos amizades até em níveis pessoais”, afirmou, antes de citar o petista e prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho (PT-SP).

Gabriel Maranhão e Alckmin
Gabriel Maranhão com o governador Geraldo Alckmin mesmo após declarar voto em Dilma

Gabriel Maranhão ainda se recusa a criticar o PSDB antes da decisão final, mas admite que já foi procurado por outras legendas. Além disso, o caso pode não se resolver tão facilmente. Caso ele seja realmente desfiliado pelo PSDB, a novela pode parar na Justiça. Isso porque, segundo o advogado e especialista em direito eleitoral Arthur Rollo, o partido pode usar uma resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para reivindicar o mandato, usando argumento costumeiramente aceito nos casos de cargo no Legislativo. O PSDB não informa se irá levar o caso para o Judiciário, pois ainda não tem uma decisão oficial sobre o processo contra o prefeito.

Gabriel Maranhão nega estar preocupado com essa possibilidade. Ele reitera o comportamento que teve diante da presidenta e minimiza a disputa entre os partidos. “A gente vê bons exemplos e maus exemplos em todas as instituições. O que dirá na política, não é mesmo?”