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Política

Crônica / Matheus Pichonelli

Sorry, periferia

por Matheus Pichonelli publicado 22/11/2013 05h59, última modificação 22/11/2013 09h19
Os mandamentos de Jasmine, personagem do novo filme de Woody Allen, para sobreviver à vida após o camarote
Cate Blanchett

A personagem de Cate Blanchett em “Blue Jasmine”

Jasmine era uma espécie de rainha do camarote de Nova York. A exemplo do endinheirado brasileiro que virou piada nas redes sociais, a personagem de Cate Blanchett em Blue Jasmine, novo filme de Woody Allen, também poderia fazer os seus dez mandamentos para se dar bem na balada. Alguns desses mantras combinariam com a versão tupiniquim de Jasmine, como a obsessão por roupas de grife, o champanhe, os gastos em uma única festa ou o fetiche por pessoas influentes – que agregam ao camarote, em um caso, ou ao salão da mansão, em outro. Em comum, ambos descobriram a fórmula para ganhar dinheiro (ela, por exemplo, ao se casar com alguém que havia descoberto a fórmula) e circular nos lugares mais badalados, e insuportáveis, de suas cidades.

As semelhanças param por aí. Jasmine, que na verdade se chama Jeanette, é o símbolo da decadência com elegância americana, enquanto o rei do camarote brasileiro é a caricatura do novo rico sem pedigree. Falida, ela tenta aprender a comer sardinha falando de caviar: o maridão (Alec Baldwin), responsável por criar essa vida de luxos, foi à falência após a polícia americana descobrir suas falcatruas. Sem o escudo do cartão de crédito do marido, Jasmine (ou Jeanette) entra em um colapso nervoso e é obrigada a pedir abrigo à irmã pobretona de San Francisco.

Inspirada em Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams, a história renderia um filme convencional sobre decadência e desilusão se não fosse um filme de Woody Allen. Com ele, a insuportável socialite, que irrita o interlocutor ao elencar todo o bom gosto e excentricidade da antiga vida, se humaniza. É quase impossível não criar empatia com a personagem de Blanchett, atacada repentinamente pela consciência de que há vida fora da bolha de afetação em que se enfiou nos últimos anos. Jasmine se controla para se adaptar à nova vida em um apartamento claustrofóbico, desordenado, sem glamour nem champanhe, e passa por provações o tempo todo.

É o oposto do filho pródigo: não há festa nem banquete na volta a o lugar de origem e ao velho nome. Este lugar de origem também tem seus vícios, suas provocações, suas arrogâncias (ninguém, nos filmes de Woody Allen, está exatamente gabaritado para ir ao céu).

O passado de Jasmine a condena, e as pessoas ao seu redor não parecem ter a menor disposição à compaixão. Pobre, sem marido e sem um talento notável (ela largou os estudos para se casar), ela descobre que precisa trabalhar, ralar, cumprir horário. Fazer cursos. Pagar o próprio estudo. E aceita trabalhar como secretária para se financiar. Neste mundo real, longe da antiga aura, ela se torna acessível a outros tipos de abutres: é assediada pelo chefe, provocada pelo namorado da irmã, pela irmã e pelos novos amigos. Descobre, na marra, estar refém a uma lógica masculina de dominação, seja na brutalidade da classe trabalhadora, seja na desfaçatez do golpista com quem se casou.

Como não pode confiar em ninguém, assume o próprio cinismo para sobreviver – e passa a ganhar, pouco a pouco, a empatia até mesmo de quem adoraria ver o rei do camarote dizendo “sim, senhor” para poder pagar uma conta.

Jasmine entra, assim, em uma lista de personagens clássicos dos filmes de Woody Allen: alguém ejetado de sua zona de conforto que a certa altura se encanta com uma vida de novas possibilidades (a riqueza, via de regra) e se frustra, sendo obrigado a encarar o que sobrou de uma existência anterior em busca de uma velha essência até que surja outra nova possibilidade. Esse (des) caminho é o ponto que une Jasmine à irmã e aos personagens anteriores da obra do cineasta: todos têm convicções perenes até o primeiro sinal de abalo, a exemplo dos protagonistas de Manhattan, Annie Hall, Crimes e Pecados e também da temporada europeia, inclusive Para Roma com Amor – no qual as pessoas comuns se deparavam com a oportunidade de agregar valor aos seus camarotes particulares e não pensavam duas vezes antes de cair em tentação.

Este vício universal do deslumbramento é cortado de cima a baixo pelo facão do cineasta: dessa vida de afetação, não sobrará pedra sobre pedra a não ser a noção do ridículo.