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Tudo mudou na Bahia

por Emiliano José — publicado 20/02/2008 16h26, última modificação 02/09/2010 16h31
A cultura está sempre vinculada à política

A cultura está sempre vinculada à política. Parece uma obviedade, mas em geral são as obviedades que necessitam de reconhecimento. As transformações políticas por que o Nordeste passou recentemente – com vários governadores progressistas eleitos – elevaram a temperatura sob vários aspectos, como naturalmente devia ocorrer, e mais ainda no caso da cultura, já que a política representou, também, mudanças nesse campo. Claro que falo especialmente do caso da Bahia onde há um aceso debate desde o início do governo Wagner em torno da política cultural. Não creio, no entanto, que a discussão se circunscreva apenas à Bahia.

Para dizer de modo aligeirado, a vitória de Wagner, derrotando uma oligarquia que dominava a Bahia havia coisa de quatro décadas, foi o mais surpreendente de todos os acontecimentos eleitorais de 2006. O que era conhecido como carlismo – em referência ao falecido Antonio Carlos Magalhães – para além de todo um modo de governar baseado na truculência, no autoritarismo, na arrogância, na privatização do espaço público no mais amplo sentido sistematizou também um modo de se relacionar com o mundo das artes, que até então era sinônimo de cultura.

Em tempos recentes, quando ainda predominava o mando carlista, denominei o modelo dominante, no campo da cultura, de mecenato corruptor. Procurava-se, via o financiamento pelo Estado de algumas poucas manifestações artísticas, obter a adesão dos criadores culturais, o que, durante largo tempo, foi conseguido. Mais do que isso, tal financiamento era profundamente concentrador – tanto em termos dos poucos que eram beneficiados quanto do ponto de vista espacial. Para se ter uma idéia, no governo passado, mais de 90% dos recursos do Estado na cultura ficavam nas mãos de produtores de Salvador. O resto da Bahia ficava ao deus-dará.

Os que compartilhavam do modo de produção cultural anterior imaginavam, quem sabe, que tudo seria como antes. Que nada seria sacudido. E quando a política cultural começou a mudar, quando outras concepções se apresentaram, a partir do novo governo e das demandas da sociedade, a gritaria foi geral. É curioso como isso se dá. Muitos dos intelectuais que apareciam anteriormente como progressistas, sacam idéias de arsenais retóricos conservadores para atacar as novas práticas. Parecem anticomunistas das décadas de 50, 60 do século passado bradando contra o perigo vermelho.

Tudo mudou. Nada será como antes. E ninguém imagine estar em curso qualquer espécie de revolução cultural à China de Mao. Longe disso. Todos, inclusive as mais de 40 mil pessoas que se envolveram na construção da Conferência Estadual de Cultura, realizada em Feira de Santana no segundo semestre do ano passado, reconhecem as extraordinárias produções culturais anteriores, no teatro, na música, na literatura, em várias outras áreas. Só que ali, no passado oligárquico, havia, de parte do Estado, uma outra concepção de cultura, muito distante da que começa a ser esboçada nessa nova fase.

Lá, a cultura era vista a partir de cima: tratava-se de ofertar ao povo as criações artísticas e não de possibilitar a expressão do poder criativo do povo da Bahia. Essa concepção, já o disse, manifestava-se na espantosa concentração de recursos dirigidos a alguns poucos grupos. Nada de políticas que considerassem a existência da chamada cultura popular, que saíssem de Salvador, que chegassem ao Recôncavo, que andassem pelo Sertão, que navegassem pelo Vale do São Francisco, que contemplassem o samba de roda, que atentassem para as manifestações artísticas dos quilombolas, que reconhecessem no candomblé um precioso lugar de manifestação da cultura, que dessem visibilidade ao espantoso número de artistas populares.

A nova política, reclamada por um amplo espectro de criadores culturais de todo o Estado, desconcentrou recursos e passou a levar em alta conta as manifestações da cultura popular. E isso gerou reações impressionantes de elitismo, de desconsideração, de preconceito diante daquelas manifestações. Esse é o lado bom do debate. Não há mais um modo de camuflar posições. Trata-se do embate entre duas linhas da política cultural: uma, nitidamente elitista, ancorada no passado próximo, já definida; outra, democrática, disposta a preservar tudo que de positivo, de belo tenha sido criado anteriormente, mas que propõe a inclusão de outros atores, nem sempre destinados à visibilidade midiática, nem sempre submetidos às regras draconianas do mercado. Esses atores, apesar de fora da mídia, não deixam de ter extraordinárias qualidades artísticas e continuam a ser uma preciosa fonte cultural.