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Eleição americana

Trump: a convenção republicana e o outsider

por Deustche Welle — publicado 18/07/2016 14h56, última modificação 18/07/2016 14h56
Magnata chega à convenção republicana como pré-candidato mais votado da história do partido. E com eleitores improváveis.
AFP
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Tudo pronto para a convenção que deve escolher Trump como candidato dos republicanos

A ascensão de Donald Trump foi, de início, acompanhada com ceticismo por muitos observadores, que questionavam como um pré-candidato tão inortodoxo poderia angariar votos e se consolidar na corrida à Casa Branca.

Inicialmente, pesquisas de opinião revelaram que a maioria dos eleitores de Trump era formada por homens, brancos, de baixa escolaridade e cidadãos pouco atuantes. E nos Estados Unidos e no exterior, passou-se a questionar-se a capacidade de discernimento do eleitorado americano.

Trump é hoje mais do que um fenômeno político: chega à convenção nacional do partido, nesta segunda-feira (18/07), como o pré-candidato republicano mais votado da história. E seu apelo tem alcance maior: cruza as fronteiras demográficas para incluir apoiadores improváveis, como mulheres, estudantes, negros, latinos e muçulmanos.

Retórica simples para questões complicadas

Dolores Newsuan está entre eles – e não poderia ser mais diferente do que se imagina ser o típico eleitor de Trump. Como consultora, ela apoia fervorosamente pequenos negócios de negros, latinos e mulheres na capital Washington, buscando financiamento e estratégias fiscais para ajudá-los a se desenvolver.

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Afro-americana orgulhosa, ela é politicamente ativa desde a adolescência e se diz 100% republicana. Atualmente, é membro do grupo "Mulheres por Trump", e seu marido, de origem latina, também votará no magnata.

"Nós demos ao establishment republicano tempo, dinheiro e votos – e eles fracassaram", afirma Dolores, que diz apoiar Trump por ser ele o único capaz de realizar mudanças em Washington e fazer o que é "bom para os EUA".

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Seu argumento é o mesmo de muitos outros eleitores de Trump, de diferentes classes sociais, que se dizem cansados de políticos que só querem se reeleger. E, como outsider, o magnata republicano vem conseguindo capitalizar essa desilusão, oferecendo, por exemplo, soluções simples para questões complicadas. A maioria dos eleitores não pesa a complexidade de cada questão quando escolhem candidatos.

"Eles gostam das soluções de senso comum dele. As pessoas costumam achar que políticos complicam as coisas, e Trump não é assim", opina o analista político Jason McDaniel, da Universidade Estadual de São Francisco. Para ele, esses fatores ampliaram o apelo de Trump para além de sua base eleitoral, alcançando latinos, negros e mulheres.

Apoio entre os que se sentem ignorados pelo Estado

Uma pesquisa do instituto Rand, que estuda o comportamento eleitoral nos EUA, concluiu que Trump encontra apoio sobretudo naqueles que se sentem ignorados pelo Estado. Seu slogan – "tornar a América grande novamente" e colocar os americanos "em primeiro lugar" – ressoou entre eleitores de diferentes perfis.

Como Dolores. A moradora de Washington diz que chegou o momento de os americanos "terem sua justiça", especialmente aqueles que foram deixados para trás em guetos, trailers em estacionamentos e nos chamados "barrios" (redutos latinos).

Ela tenta se distanciar das declarações mais controversas de Trump – como a de elevar um muro na fronteira com o México e de barrar a entrada de muçulmanos no país. Mas muitos outros, mesmo membros de minorias, pensam diferente de Dolores e chegam a dizer que são projetos necessários para manter a segurança nos EUA.

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Francisco Semião, de ascendência latina e portuguesa, não vê Trump como racista e culpa a imprensa por tentar rotulá-lo como mau. "Ele não é antilatino, ele está simplesmente sendo sensato sobre imigração", afirma.

Francisco entende a razão que leva latino-americanos a cruzarem a fronteira em busca de uma vida melhor, mas diz que, mesmo assim, eles estão violando a lei. De infância pobre, ele se formou na universidade e, aos 46 anos, leva uma vida confortável no setor de assistência médica. Em muitos sentidos, ele personifica o sonho americano.

Trump é seu candidato neste ano, apesar de, em 2008, ter votado em Barack Obama e, em 2012, no republicano Mitt Romney. Entre outras coisas, Francisco valoriza a experiência do magnata como empresário e seu conhecimento sobre a economia americana.

Saba Ahmed também acha que a experiência de Trump pode ajudar a enfrentar os desafios políticos. A advogada de 31 anos, que migrou do Paquistão para o Oregon ainda criança, chefia a Coalizão Muçulmana Republicana e tem feito campanha pelo empresário.

Ela é crítica quanto a políticas que possam atingir a comunidade islâmica, mas quando indagada sobre as polêmicas declarações de Trump sobre muçulmanos, diz que nenhum candidato é perfeito e que a retórica dele está, aos poucos, se tornando mais branda.

A universitária Sarah Hagmayer, de Nova Jersey, afirma que é preciso coragem para andar com uma camisa da campanha do candidato. Ela lidera um grupo que encoraja as pessoas a externarem seu apoio a Trump. Dolores Newsuan, de Washington, concorda e diz que muitos preferem apoiá-lo em silêncio. Algo não muito diferente do que deve acontecer nos próximos quatro dias, na convenção republicana em Ohio.

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