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Política

Rio Grande do Sul

Transição no pampa é terreno minado

por Paulo Cezar da Rosa — publicado 29/12/2010 13h40, última modificação 29/12/2010 17h01
O eleito Tarso Genro critica os movimentos da governadora tucana Yeda Crusius nos últimos dias da troca de gestão

O eleito Tarso Genro critica os movimentos da governadora tucana Yeda Crusius nos últimos dias da troca de gestão

Até a semana do Natal, tudo eram flores na sucessão gaúcha. A governadora Yeda Crusius, no entanto, parece estar repassando ao novo governador um Estado embalado num imenso cavalo de Troia. Seu sucessor, Tarso Genro, vinha evitando qualquer crítica à governadora, mas esta semana mudou o tom e veio a público dizer que “não há mar róseo pela frente”. E prometeu, para meados de janeiro, um diagnóstico sobre a situação financeira do Estado.

A manifestação de Tarso foi precedida por declarações de diversos de seus assessores, que  vinham dando sinais de descontentamento com os movimentos da governadora tucana ao longo da transição. Talvez traumatizado com a posse de Olívio Dutra em 1999, quando seu antecessor, Antônio Britto, não compareceu à cerimônia, Tarso vinha evitando qualquer tipo de atrito com a tucana. Entretanto, os movimentos de Yeda para fixar a ideia de estar passando adiante um governo com as contas em dia e os cofres cheios tornaram inevitável a manifestação do novo governador.

Um problema depois do outro

Dias antes da eleição, quando já se via derrotada, Yeda nomeou por mais dois anos o presidente do Instituto Riograndense do Arroz (IRGA), um órgão que tem grande importância na economia e na política gaúcha. A governadora tomou por base uma nova lei, votada às pressas na Assembleia, considerada inconstitucional. O próximo secretário da Agricultura, Luis Fernando Mainardi, reagiu fortemente. “Se eles quisessem continuar mandando no IRGA, deviam ter reeleito a Yeda”, afirmou o novo secretário.

Esta semana, o PT decide se entra ou não com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade.  Tarso quer revogar a nomeação e colocar na presidência do Instituto o prefeito de Santa Vitória do Palmar, Cláudio Breyer Pereira (Batata), de seu partido.

Presídios PPP's

Ato seguinte, a governadora resolveu num primeiro momento acelerar o projeto dos presídios, a serem construídos através de PPP's, e a assinatura dos contratos para exploração da orla do Rio Guaíba, em Porto Alegre.

Esta semana, numa jogada final, Yeda revogou as licitações dos presídios, tentando embretar o novo governador. Se reiniciar os processos do zero, Tarso fica com o ônus do atraso na solução do problema prisional. Se retomar de onde foram paralisados, reconhece o processo como legítimo. Em qualquer hipótese, Yeda elimina um último problema de seu governo: a desconfiança a respeito dos números envolvidos nas obras.

Já a concessão de exploração da orla do Guaíba é questionada por outros motivos. A  Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ) contesta o direito do governo do Estado de conceder a exploração da área do porto de Porto Alegre. Os empresários espanhóis, que venceram uma licitação para exploração da orla do Guaíba, foram constrangidos pelo atual governo a assinar um contrato com Yeda.  Temerosos de estarem entrando numa fria, fizeram chegar suas preocupações ao futuro governador. Mas assinaram o papel, com pompas e circunstâncias semana passada.

Problemas acumulados

A estes problemas, Yeda veio juntar nos últimos dias pelo mais dois, e dos grandes. Primeiro, anunciou um caixa superavitário de 3,6 bilhões. Esse dinheiro seria suficiente para o Estado girar durante quatro meses. E também seria uma prova de seu “déficit zero”, bandeira que a governadora defendeu na campanha.  A seguir,  passou a assinar dezenas de convênios com os municípios, deixando a conta para o sucessor. Depois do cheque voador, Yeda inaugurou a figura do convênio voador; só vira realidade se o seu sucessor “esquentar” a sua assinatura.

Artifício numérico

Conforme o novo secretário da Fazenda do Rio Grande do Sul,  o superávit apresentado por Yeda é um artifício contábil. Odir Tonolier desconfia da saúde financeira do Estado e afirma que até mesmo os 3,6 bilhões que Yeda diz ter em caixa precisam ser melhor analisados. Ele antecipa que, na realidade, “o Rio Grande do Sul é um dos que está em pior situação entre todos os Estados no Brasil”.  Tonolier afirma ainda que, do seu ponto de vista, o Rio Grande do Sul não está bem financeiramente “por quatro fatores”: a dívida com a União, a dívida de precatórios, o comprometimento com a folha e inativos, e a dívida social com a demanda reprimida de investimentos em saúde, educação e segurança.

De fato, o equilíbrio nas contas obtido pelo governo Yeda em seus quatro anos foi feito no formato já clássico dos tucanos: venda da prataria da casa, de um lado (mais de 40% do Banrisul tornou-se propriedade de investidores estrangeiros sob o governo Yeda), e corte em gastos sociais, de outro. Tudo ao contrário do governo Lula. Além disso, os problemas que Yeda transfere não são pequenos. Só a dívida com a União, de 30 bilhões, é quase dez vezes os 3,6 bilhões que ela afirma estar deixando em caixa.

Desarmar minas

Tarso Genro assume dia primeiro sob a promessa de colocar ordem na casa e alinhar o Rio Grande do Sul com o ritmo do crescimento do Brasil. Como um general que perde a batalha mas não abandona a guerra, Yeda está deixando centenas de minas enterradas. Saber desarmá-las vai fazer parte das primeiras tarefas do futuro governador.

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