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Topete em riste

por Cynara Menezes — publicado 03/07/2011 09h02, última modificação 06/07/2011 18h56
Com ironia e apego aos ritos formais do Congresso, o ex-presidente Itamar Franco torna-se o grande destaque da oposição neste início de mandato. Por Cynara Menezes
Topete em riste

Republicamos perfil do ex-presidente Itamar Franco, falecido neste sábado, em São Paulo, escrito por Cynara Menezes em março. Com ironia e apego aos ritos formais do Congresso, o ex-presidente tornou-se o grande destaque da oposição no início de mandato. Foto: Sérgio Lima/ Folhapress

Com ironia e apego aos ritos formais do Congresso, o ex-presidente Itamar Franco torna-se
o grande destaque da oposição neste início de mandato

Quando foram eleitos senadores por Minas Gerais em outubro, ninguém diria que o senhor às vésperas de completar 81 anos, ex-governador e ex-presidente, quase um aposentado da política, seria capaz de competir com o boa-pinta de 51 anos no auge da carreira e no primeiro lugar da fila para representar a oposição nas próximas disputas presidenciais. Mas é o que tem acontecido. Três meses depois da posse de Dilma Rousseff, a surpresa é Itamar Franco, do PPS, não Aécio Neves, do PSDB.

Com a saída de cena de alguns dos oposicionistas mais ferrenhos ao governo Lula, derrotados pelas urnas, Itamar tem ocupado até agora o lugar de maior destaque entre os que pretendem combater no Parlamento o governo petista. Tornou-se uma espécie de líder informal da oposição e tem roubado a cena no Senado, como aconteceu durante a votação do salário mínimo, em fevereiro. Não havia chances de a oposição derrotar o valor proposto pelo governo, de 545 reais. Restava fazer barulho, e Itamar fez.

À frente do governo na votação, o líder Romero Jucá passou maus bocados ao ser interpelado pelo ex-presidente sobre o que uma família poderia fazer com a quantia proposta. O ápice da querela se deu quando Itamar, que passara a manhã se preparando para as provocações, dirigiu-se a Jucá: “Uma vez perguntaram ao presidente (João Figueiredo) o seguinte: ‘Se o senhor recebesse um salário mínimo, o que o senhor faria?’ Sabe qual foi a resposta dele, excelência?” Jucá, constrangido: “Sei. Que daria um tiro na cabeça”. Fim de papo.

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Um campo em que Itamar irá se destacar, sem sombra de dúvida, é a Comissão de Reforma Política, onde é o autor de duas propostas tonitruantes: o mandato de cinco anos para presidente da República e o fim da reeleição. Na quinta-feira 17, sentado atrás do velho Itamar, postado na primeira fila da comissão, assim o tucano Aécio se referia ao conterrâneo: “Meu grande inspirador”.

O ex-presidente parece renascido desde que conquistou a cadeira no Senado. Há quase quatro anos, uma reportagem chegou a apresentá-lo como “o ex-presidente que perdeu a alma”, termo que o próprio Itamar concedeu à repórter. “Minha alma está perdida por aí. Eu ainda não a encontrei”, dissera. Pelo que se tem visto no Parlamento, ele a reencontrou, embora o próprio negue o resgate da alma perdida. “Cheguei ao Congresso com a alma no lugar, mas ela voltou a ir embora com o que vi aqui”, devaneia.

“Ele estava desencantado de tudo naquela época”, lembra o fiel escudeiro Henrique Hargreaves. Chefe da representação do governo de Minas em Brasília, Hargreaves passa as tardes a auxiliar Itamar no Senado. Discreto, posta-se ao fundo do plenário para acompanhar a performance do senador. Pergunto a Hargreaves se agora Itamar está mais contente. O ex-ministro chefe da Casa Civil meneia a cabeça. “É... Tem de estar, tem de estar...” Itamar parece um tanto mais feliz, rebato. “O problema é que ele acha que o Legislativo está muito desprestigiado, que não se compara com o Congresso de quando foi senador no passado, e até mesmo da época da ditadura.”

Essa é uma tecla em que Itamar tem batido há tempos: a necessidade de o Legislativo recuperar seu papel. Acusava Lula de, na Presidência, “enfraquecer” o Congresso, torná-lo “submisso”. Atualmente, recorda que, nos tempos de presidente, o então deputado petista José Genoino fazia discursos “todos os dias” contra seu governo. “Ele estava errado? Não, o papel da oposição é esse. Só que hoje os governistas fogem do debate”, afirma. “Nem sei se a presidenta Dilma sabe que os senadores dela faltam tanto às reuniões das comissões.”

Na terça-feira 15, o senador conseguiu sua primeira vitória: transformar em projeto de lei uma medida provisória, a que previa punição ao servidor público que quebrasse o sigilo fiscal de contribuintes. “Não podemos passar a impressão de que estamos aqui a brincar de legisladores”, bradou da tribuna.
Além de presidente da República (1990-1992), Itamar foi governador de Minas Gerais (1999-2003) e embaixador brasileiro em Portugal e na Itália. Há quem considere, porém, que é melhor no Legislativo do que no Executi­vo. “São funções distintas. A comparação não é milimétrica, mas pode ser que seja verdade”, opina o ex-ministro da Justiça Paulo Brossard (governo José Sarney). Juntos, Brossard e Itamar conseguiram uma façanha: aprovar, em 1978, ainda na ditadura, uma comissão de inquérito para investigar o acordo nuclear Brasil-Alemanha. Eram precisos 22 votos, o MDB só tinha 20 senadores. Conseguiram quatro na Arena.

“Mesmo a oposição sendo minoria, quando se conhece o regimento da Casa é possível fazer algo”, diz Brossard, para quem Itamar poderá ser um senador “muito melhor do que antes”. Até hoje são amigos e o ex-ministro do Supremo aplaude o savoir faire com que o ex-presidente, nas palavras de Hargreaves, fará oposição, à diferença da truculência de senadores da época de Lula, quando o líder tucano Arthur Virgilio chegou a amea­çar ir ao Planalto “dar um soco” no presidente. “É o ardor amazônico”, tripudia Brossard. “Um pouco de bom humor não faz mal a ninguém, as coisas são ditas de forma que não ferem. Às vezes dá uma comichão, mas não chega a correr sangue.”

Itamar também foi vice-presidente da CPI da Corrupção durante o governo José Sarney. Vem daquele período sua eterna desavença com o falecido senador Antonio Carlos Magalhães. Colecionador de dossiês (ou “dóziê”, como pronunciava), o então ministro das Comunicações ACM atacou os integrantes da CPI com denúncias. De Itamar, suscitou dúvidas quanto à masculinidade, o que deixou o mineiro furioso. Partidário do dito que “a vingança é um prato que se come frio”, foi à forra quando ocupou a Presidência da República, anos mais tarde, em substituição ao impichado Fernando Collor.

Governador da Bahia, ACM anunciara ter um “dóziê” sobre a má utilização de verbas federais em seu Estado, a Bahia, e conseguiu uma audiência com o então presidente. A estratégia da velha raposa baiana era entregar os tais dossiês no gabinete, no quarto andar, e fazer estardalhaço com os jornalistas no térreo. Mas Itamar lhe preparara uma surpresa: chamara os repórteres e o ministro da Justiça, Mauricio Correa, à sua sala. “Soube que o senhor viria trazer graves denúncias, por isso fiz questão de todos estarem presentes”, disse o presidente a um lívido ACM, cujo “dóziê” se resumia a recortes de jornal.

Não se pode dizer que Itamar seja um grande colecionador de amizades na política, nem mesmo com os colegas ex-presidentes. De Fernando Henrique Cardoso sabe-se que não é chegado. Primeiro, por ter-lhe roubado as glórias do Plano Real. Depois, porque tentou prorrogar o pagamento da dívida de Minas Gerais, quando assumiu o governo, e teve sua proposta recusada por FHC. De Lula, distanciou-se por se considerar desprestigiado, mesmo tendo sido o único governador a apoiar sua candidatura, em 2002. Ganhou apenas o posto de embaixador na Itália, que considerou um prêmio de consolação.

Desde que assumiu o mandato, se estranhou com o atual presidente do Senado, José Sarney, mas nos últimos dias os dois deram manifestações públicas de apreço no plenário da Casa. Com Fernando Collor, de quem foi vice, mantém certa distância. Recentemente, foi surpreendido ao receber um abraço do alagoano por trás, no cafezinho. “Que susto”, disse, embaraçado. Curiosamente, tem uma relação bem mais afetuosa com o ex-cara pintada Lindberg Faria, hoje senador, um dos líderes do movimento pelo impeachment de Collor.

Lindberg conta, divertido, que Itamar costumava receber no Palácio os líderes estudantis sem marcar audiência e chegou a tomar chope no Lamas, no Rio, com a turma da UNE. “Itamar é leve”, diz o ex-líder estudantil, contrariando o senso comum de que o mineiro é pessoa difícil de lidar. “Gosto da presença dele no Senado, independentemente da posição política.” Também com os jornalistas que cobriam o Palácio do Planalto, Itamar era capaz de exibir sua melhor faceta: descia todos os dias para tomar café com os repórteres ou os convidava para um pão de queijo no gabinete. Não raro, compartilhava a mesa de sinuca com colegas da imprensa para amenizar a solidão do Alvorada, em noitadas regadas a Campari e cerveja.

Sobre Dilma Rousseff, manifesta admiração. “Me parece uma mulher muito inteligente”, diz, para em seguida ironizar: “Tem uma coisa que gosto muito nela: nunca a ouvi falar ‘nunca antes’”. Por enquanto, os líderes governistas ainda subestimam a capacidade de Itamar de ser uma pedra no sapato da presidenta. “Ele vai ser uma espécie de rei do pequeno expediente”, desdenha um senador da base, referindo-se ao momento em que proliferam os discursos na Casa. “A maioria que o governo tem hoje no Senado é muito confortável, é difícil criar empecilhos para a presidenta atualmente”, opina um peemedebista graúdo.

Itamar diz ainda não ter uma estratégia traçada para a oposição que deseja fazer, mas rejeita a ideia aventada por Aécio Neves de “oposição responsável”. “Isso não existe. Oposição é oposição, não tem adjetivo para a oposição.” Antes de qualquer coisa, defende que os opositores se organizem, estudem e, sobretudo, falem. “Quando a oposição se cala é ruim para o País.”

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