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Impeachment

Takumã Kuikuro, um indígena em Brasília no dia do golpe

por Felipe Milanez publicado 07/09/2016 04h53, última modificação 07/09/2016 12h43
Cineasta do povo Kuikuro acompanha processo de impeachment: 'Essa política agressiva e autoritária traz medo para a gente"

Takumã Kuikuro é um premiado cineasta indígena, do povo Kuikuro, e vive na aldeia Ipatse, no Parque Indígena do Xingu. Ele fez um primeiro curso de audiovisual com o projeto da organização Vídeo nas Aldeias, e posteriormente estudou cinema na Escola de Cinema Darcy Ribeiro.

Entre outros trabalhos, dirigiu o curta metragem Karioka (2014), que acompanha a saga de sua família no Rio de Janeiro enquanto estudou na Darcy Ribeiro, mostrando o cotidiano de sua mulher, Kisuagu Regina KuiKuro, e o filhos Kelly Kaitsu, Ahuseti Larissa e Mayupi Bernardo KuiKuro. Dirigiu também com Leonardo Sette e o antropólogo Carlos Fausto o filme As Hiper Mulheres (2011). Seu último filme, Londres como uma aldeia (2015) tem circulado em festivais em todo o mundo.

Takumã esteve em Brasília durante a semana em que a presidenta Dilma foi deposta pelo Congresso, e por telefone transmitiu o seguinte depoimento, em forma de crônica, dos dias em que esteve na capital do Brasil.

Para ele o atual Congresso é uma “Casa das Doenças” que não representa aqueles que estão sendo atacados no Brasil. As disputas pela presidência da Funai estão focadas mais nos interesses individuais de pessoas que querem o poder, e serão, de qualquer maneira, controladas por esses deputados. Ele teme pelo futuro: “Essa política agressiva e autoritária traz medo para a gente.”

Abaixo, o depoimento de Takumã Kuikuro: 

O clima de enterro e a Casa dos Feiticeiros

Quando eu cheguei em Brasília, semana passada, eu estava desanimado, e a cidade estava desanimada. É como acontece na aldeia quando alguém falece: a aldeia fica triste. Brasília estava em um clima de luto. Foi isso que eu vi quando cheguei. E logo depois que os homens derrubaram os poderes das mulheres com o golpe.

Nesse clima de enterro, quando eu vi o Congresso Nacional pensei assim: aqui é a Casa dos Feiticeiros. Uma “Casa da Doença”, um lugar que hoje traz doença para qualquer povo indígena do Brasil. A “Casa dos Políticos” parece uma “Casa das Doenças”. Não representa mesmo a diversidade nossa, nem as pessoas que estão mais fragilizadas, que estão sendo atacadas. Ali representa é a doença que se espalha por esses feiticeiros políticos que só defendem seus interesses.

Eu fui para Brasília para tirar um visto no consulado americano para poder ir aos Estados Unidos, e na verdade eu não estava sabendo disso tudo o que estava sendo armado.

E foi uma surpresa para mim o que aconteceu, porque nas últimas semanas eu estive trabalhando em uma série de TV sobre cineastas indígenas, visitando outras aldeias no Xingu e nos Xavantes, e quando eu chegava na minha aldeia Ipatse eu tinha que cuidar da roça, que fazemos nessa época do ano.

Andei bem desligado das notícias, sem acompanhar TV nem internet nesse último tempo. Por acaso, eu estava em Brasília nessa semana fatídica para a democracia brasileira. Foi uma coincidência eu estar lá no dia 31 de agosto, quando os senadores votaram para derrubar a Dilma. E fui tentar entender o que está a acontecendo no Brasil nesses dias que fiquei na capital.

Assim que eu cheguei lá, me avisaram que estava tendo a última defesa da Dilma, que era a última votação no Congresso para ela ficar ou para ela sair. Eu vi lá que o que aconteceu era como se fosse algo pré-determinado, de alguma coisa ainda maior que vai acontecer e que vai cair em cima da gente. Eu senti isso lá em Brasília.

Fiquei essa semana toda, e estava lá por acaso. Queria perceber melhor o que estava acontecendo. Mas foi difícil de entender andando por lá e conversando com as pessoas que encontrei. É um momento muito difícil, e muito complicado.

Sobre esse negócio da política, o que eu consegui perceber é que aqueles que estão lá no poder querem mudar tudo. Primeiro, queriam a Dilma afastada. Depois, os homens, principalmente só os homens que querem estar em cima das mulheres, eles querem mudar tudo. Isso eu também percebi lá. Até a Constituição de 1988, eles querem mudar. Não sei porque eles querem mudar tudo: tirando a presidenta, eles querem mudar a lei.

Parece que estava acontecendo uma guerra em Brasília essa semana, ou preparando alguma coisa que vai atacar o Brasil. Alguém que vai atacar os povos indígenas. Na verdade, ninguém lá falava de povos indígenas, ninguém lá estava defendendo os povos indígenas, querem acabar mesmo. E nisso, na verdade, não era uma “guerra”, porque era um lado só que parecia muito mais forte, o que atacava.

Sobre o ataque aos povos indígenas, me chamou a atenção que mesmo que algum antropólogo ou indigenista assuma como presidente da Funai, não vai ter saída.

A luta de antigamente, como era de Rondon, ou mesmo do sertanista Orlando Villas Bôas, eles lutavam mesmo para defender os povos indígenas. Mas hoje em dia ninguém luta mais como eles, todo mundo gira com propina mesmo, com outros interesses diretos.

Essa disputa pela presidência da Funai que eu vi lá em Brasília estava assim, sem ninguém falar de uma verdadeira luta, só pensando nos seus interesses.

E também na Funai, não se pode negar, são os deputados é que estão mandando. Mesmo que, aparentemente, alguém entre na Funai para estar do lado dos indígenas, no meio dessa guerra que eu vi em Brasília, os deputados não vão gostar e não vão deixar. Percebi que essa guerra é mesmo violenta, uma coisa muito triste ver isso acontecendo. Não vai ser apenas alguém dizer que entra na Funai para lutar com os indígenas; isso não vai acontecer, a coisa está muito pior.

Depois que eu ouvi na TV o discurso do Michel Temer, vi que ele não falou nada de povos indígenas. Na verdade, ninguém lá falou nada de povos indígenas. Isso é um medo para a gente, pois é como se fosse uma doença que vai atacar os povos indígenas e que estivesse começando a se espalhar.

Eu percebi nesse impeachment que vão atacar os povos indígenas. Quem fez isso, não gosta dos indígenas. E não só de indígenas, não gosta é de muita gente que esta sofrendo. A gente tem que ficar ligado com isso porque essa política contrária é muito forte, e muito agressiva.

Tenho esperanças de que não irá acontecer coisas ainda pior contra os indígenas e as pessoas que estão sofrendo mais nesse momento, como os quilombolas, os negros e as negras, as mulheres.

Espero que não aconteça nada pior. Não só contra os indígenas, mas outras pessoas que também estão sendo atacadas. Essa política agressiva e autoritária traz medo para a gente.