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Sob o signo da continuidade

por Leandro Fortes — publicado 20/07/2010 11h11, última modificação 20/07/2010 17h32
Como na sucessão nacional, os candidatos da situação nos estados levam vantagem na disputa
Sob o signo da continuidade

O eleitor não teme mais o continuismo, símbolo, no passado, da precariedade da democracia do País. Sergio Cabral (foto), do Rio, deixa o adversário a ver poeira. Foto: Fabio Gonçalves/ Ag. O Dia/ AE

Como na sucessão nacional, os candidatos da situação nos estados levam vantagem na disputa

A manutenção de um mesmo grupo no poder por um longo período já foi considerado um mal do sistema político brasileiro. Havia até um substantivo pejorativo para defini-lo – continuísmo – associado à imagem do coronelismo e da precária democracia do País. O retorno dos civis ao poder e, principalmente, a aprovação da emenda da reeleição mudaram a percepção dos eleitores. Hoje, o debate da continuidade domina as eleições e, ao que tudo indica, ele nunca foi tão preponderante quanto na disputa deste ano.

Nos estados, a soma do desempenho da economia e da boa avaliação de diversos governadores tem provocado uma onda a favor de quem tenta se reeleger ou é candidato da base governista. Em São Paulo, o tucano Geraldo Alckmin registra atualmente mais de 50% das intenções de voto e as chances de o petista Aloizio Mercadante reverter a situação parecem ínfimas.

No Rio de Janeiro, o peemedebista Sérgio Cabral só não chega a igual porcentual por conta da instável candidatura do ex-governador Anthony Garotinho. Sem Garotinho no cenário, cuja possibilidade de concorrer depende de decisão judicial, Cabral abre larga vantagem em relação a Fernando Gabeira, que tem hoje 12% do eleitorado. Em Minas Gerais, Antonio Anastasia, cria de Aécio Neves, está em segundo, mas, a exemplo- de Dilma Rousseff na disputa nacional, deu saltos nas pesquisas. Saiu de 5% para 23% às vésperas do início oficial da campanha, na segunda-feira 5. E isso sem o empenho máximo que, agora, Aécio dispensa à eleição mineira.

Ciente do efeito da continuidade no cenário eleitoral, o PT aceitou reduzir ao mínimo suas pretensões estaduais em prol da eleição de Dilma Rousseff, de modo a não criar pontos de tensão com aliados bem colocados nas pesquisas. Assim, os petistas vão concorrer ao governo em apenas dez estados, uma redução considerável diante dos números das eleições de 2002 (24 candidatos) e 2006 (18 candidatos), quando as alianças continuístas começaram a ser construídas. Foi essa visão pragmática que levou o partido a apoiar, no Maranhão, a candidata do PMDB, a governadora Roseana Sarney, em detrimento da posição histórica do PT no estado, nascido e criado na luta contra a oligarquia montada pelo senador José Sarney ao longo de quatro décadas. Ou seja, rendeu-se à circunstância política mesmo onde o continuísmo continua a ser sinônimo de atraso.

O interessante é que nem todo mundo se beneficia do efeito. No Rio, Cabral parece caminhar para uma vitória folgada (hoje tem cerca de 43% das intenções de voto), mas os demais integrantes da chapa majoritária não conseguem igual desempenho. O petista Lind-berg Farias, ex-prefeito de Nova- Iguaçu, e o deputado estadual Jorge Picciani, do PMDB, ambos candidatos ao Senado, têm menos de 8% da preferência do eleitorado fluminense.
“De uma forma ou de outra, os governadores, inclusive os de oposição, se beneficiaram com o momento de crescimento econômico pelo qual passa o País”, diz o cientista político Murillo de Aragão, presidente da consultoria Arko Advice, em Brasília. “Assim, puderam também se beneficiar do aumento de receita e da possibilidade de distribuir renda entre as populações dos estados.”- Segundo Aragão, o eleitor brasileiro aprendeu a montar opções eleitorais diferenciadas nos níveis federal e estadual, de modo a escolher candidatos de acordo com suas conveniências. Daí o surgimento de votos como o “Dilmasia”, em Minas Gerais: Dilma Rousseff, do PT, para presidente, e Antonio Anastasia, do PSDB, para governador.

A análise de Aragão encaixa-se com exatidão no caso de São Paulo, estado mais diretamente beneficiado pelo crescimento industrial recorde verificado em maio pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), 2,3% maior que o nível pré-crise, de setembro de 2008. Apenas nos cinco primeiros meses de 2010, o faturamento da indústria cresceu 12,5%. E o emprego industrial avançou 0,4% na comparação com abril. De acordo com a CNI, a criação de vagas acumula dez meses seguidos de expansão. “Esse quadro acaba se revertendo para a imagem dos governadores também”, diz Aragão.

Além do momento econômico, é o instituto da reeleição, criado por Fernando Henrique Cardoso em benefício próprio, o outro principal responsável pela onda de continuidade nas eleições de 2010. Salvo raras exceções, a ocupação da máquina administrativa e a consequente dominação política das assembleias legislativas e prefeituras municipais têm servido para fortalecer candidaturas próprias e de aliados aos governos estaduais. Além de São Paulo, estados como Ceará e Pernambuco nadam de braçada.

Em Pernambuco, é dada como certa a reeleição do governador Eduardo Campos (PSB) na disputa com Jarbas Vasconcelos, da ala oposicionista do PMDB ligada à candidatura nacional de José Serra. Campos, neto do ex-governador Miguel Arraes, é aliado de primeira hora de Lula e tem se mostrado um político hábil à frente do governo local. Tanto que, se a eleição para governador de Pernambuco fosse hoje, ele seria reeleito em primeiro turno, com mais de 60% dos votos. Campos é o candidato com melhor desempenho no interior, entre os homens, entre os mais jovens e entre os que simpatizam com o PT. Entre os governadores, é um dos mais identificados com a popularidade de Lula no cenário nacional. Em Pernambuco, Lula tem 95% de aprovação popular. A Vasconcelos, resta ir ao sacrifício, apenas para fornecer um palanque a Serra no estado.

Caminho semelhante percorre o governador do Ceará, Cid Gomes, do PSB, candidato a uma reeleição quase certa, segundo as pesquisas, no primeiro turno das eleições. Cid conseguiu contornar a crise política decorrente da decisão do PSB de não avalizar a candidatura à Presidência do irmão, o deputado federal Ciro Gomes, e bancou a briga contra os tucanos no estado. Para concorrer com ele, o PSDB escolheu Marcos Cals, ex-secretário de Justiça do próprio Cid Gomes, depois que a mais importante liderança do partido no estado, o senador Tasso Jereissati, desistiu da candidatura ao governo. Pela vontade de Serra e da maioria dos tucanos locais, Jereissati, três vezes governador, seria o candidato ideal, mas ele preferiu tentar a reeleição ao Senado sob o argumento de que a política cearense precisa se renovar.

Entre os candidatos a governador de estado, no entanto, nenhum representa tão bem a força da transferência de votos- como o senador Renato Casagrande (PSB), no Espírito Santo. Com o apoio do governador Paulo Hartung (PMDB) e de uma aliança de 13 partidos, Casagrande tem, atualmente, segundo pesquisas recentes, mais de 60% da preferência do eleitorado capixaba. Nem a repercussão internacional sobre o bárbaro sistema prisional do estado, denunciado, em março deste ano, pela seção de Direitos Humanos das Nações Unidas, conseguiu afetar a popularidade e o potencial de transferência de votos de Hartung ou mesmo atrapalhar a costura de alianças partidárias em torno do socialista, montada com o apoio do PDT e do PT.

Na Bahia, a continuidade é a óbvia bandeira do governador Jaques Wagner, do PT, que tenta a reeleição. Contra ele, disputam o ex-governador Paulo Souto, do DEM, e o também governista Geddel Vieira Lima, ex-ministro de Integração Regional do governo Lula. A pos-sibilidade de Wagner ser eleito no primeiro turno está virtualmente ligada à divisão de votos entre os eleitores de Ged-del, muitos dos quais apoiadores tradicionais de Lula, mas vinculados regionalmente a candidatos do PMDB.

Por motivos diferentes, as governadoras do Pará, Ana Júlia Carepa, do PT, e do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, do PSDB, despontam como exceções à regra da continuidade em voga nas eleições- de 2010. Nas pesquisas, Ana Júlia está atrás do ex-governador Simão Jatene, do PSDB. Por causa de sua orientação sempre a favor das causas sociais, enfrenta a oposição ferrenha dos ruralistas e latifundiários, além dos ataques recentes de um aliado formal, o deputado Jader Barbalho, do PMDB, candidato ao Senado com quem mantém uma relação de altos e baixos com reflexo direto na administração estadual.

Já Yeda Crusius tem tropeçado nas pesquisas e tem pouca chance de passar do terceiro lugar na disputa gaúcha. O mal de Yeda, contudo, são as denúncias de corrupção e malversação de dinheiro público, o que inclui uma acusação de ter usado dinheiro de caixa 2 para comprar uma casa em Porto Alegre. Assim, no Rio Grande do Sul, as chances de reeleição são pequenas, embora a governadora tenha recuperado um pouco da popularidade e apareça nas pesquisas com cerca de 10% das intenções de voto. Lá, a eleição será acirrada e em clima de ruptura com o status quo tucano. O ex-ministro da Justiça Tarso Genro, do PT, aparece um pouco à frente nas pesquisas do candidato do PMDB, José Fogaça, ex-prefeito da capital. A tendência continua, porém, a da união de forças antipetistas no segundo turno, o que favorece Fogaça.

Piauí e Tocantins vivem situação semelhante. Nas eleições piauienses, o candidato do ex-governador Wellington Dias, do PT, à sucessão do estado, Wilson Martins (atual governador), segue atrás do tucano Sílvio Mendes, ex-prefeito de Teresina. Em Tocantins, Siqueira Campos, do PSDB, três vezes governador, e o atual titular do cargo, Carlos Gaguim, do PMDB, estão empatados. Por lá, no entanto, tudo é continuísmo desde a fundação do estado, em 1988, por obra e graça do referido Siqueira Campos, com quem, em Tocantins, todo mundo já foi, é ou será aliado.
Embolada como sempre, as eleições no Paraná têm sido influenciadas diretamente pela conjuntura nacional ditada pela disputa entre Dilma Rousseff- e Serra. O tucano Beto Richa, ex-prefeito de Curitiba, aparece com uma leve dianteira nas pesquisas eleitorais sobre seu principal adversário, o senador Osmar Dias, do PDT, mas não há análise política capaz de prever nada no estado. As últimas eleições têm mostrado que, no Paraná, as disputas tendem a ser apertadíssimas e ganhas no último minuto. Mas Richa leva vantagem e tem mais chances de vencer.

Até pela indecisão de Dias. O pedetista decidiu ser candidato há duas semanas, depois de esgotadas as possibilidades de seu irmão, o também senador Álvaro Dias, ser o vice na chapa de Serra. A decisão de Osmar abriu um palanque para Dilma Rousseff no confuso quadro eleitoral paranaense onde, até um mês atrás, o governador Roberto Requião, que vai disputar o Senado, primeiro defendeu a tese da candidatura própria do PMDB e depois apoiou o vice-governador Orlando Pessuti, que cedeu a vaga a Osmar em nome da aliança nacional com o PT.

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