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Política

Crônica do Villas

Sexo Frágil

por Alberto Villas publicado 10/04/2014 10h01, última modificação 10/04/2014 12h10
O mundo mudou realmente e - que pena - minha mãe não viu
Julian Fong/Flickr
mulher-maravilha.jpg

Peça de lego da personagem Mulher-Maravilha, da DC Comics

Minha mãe viveu num mundo que não é esse nosso em que vivemos hoje. Mãe de cinco filhos, tinha todos os dias a casa pra arrumar, os filhos pra cuidar, a roupa pra lavar, passar, o almoço pra fazer. Não havia leite em caixinha, arroz parabolizado ou feijão pré-cozido. Ela tinha de ferver o leite todos os dias porque senão azedava. Tinha que separar os marinheiros do arroz – para quem não sabe, marinheiro é aquele arroz com casca – e tinha que tirar as pedras do feijão. Para quem não sabe, o feijão não vinha limpinho como hoje, vinha cheio de pedras.

Minha mãe não era muito de leitura não. Eu me lembro dela lendo um livro chamado A Filha do Diretor do Circo, da Baronesa F. Von Brackel e as obras de Alberto Campos, de quem ela era fã. Nunca soube do que se tratava aquele livro A Filha do Diretor do Circo. Ela não contava nada pra gente e sempre lia à noite, depois de rezar sua novena e apagar a vela.

Para ler o livro da Baronesa F. Von Brackel, minha mãe sempre tinha uma faca ao lado. Não que fosse um livro policial ou para se defender. Assim que ela acabava uma página, pegava a faca para abrir a página seguinte, que vinha sempre colada. Sem muito cuidado, ela metia a faca na Filha do Diretor do Circo e depois de liberada, começava a ler.

Com as obras de Alberto Campos era diferente. Aquilo era para ela uma verdadeira Bíblia do futuro. Cada parágrafo, ela parava, refletia, e chamava as filhas.

Era um tempo em que mulher não dirigia automóvel, nem empresa alguma. Mulher, quase nenhuma, trabalhava fora. Eram poucas nas universidades e num boteco tomando cerveja, nenhuma. Zero! Mulher não saia sozinha à noite, não ia a campo de futebol, não trocava pneu, não conseguia trocar uma lâmpada, nem abrir o pote de geleia. Mulher só comprava absorvente na farmácia, já embrulhado, pra não passar vergonha ali no balcão.

Nem mesmo nesses tempos de Google e pesquisas avançadas, consegui achar os livros de Alberto Campos que ela lia e nos chamava a atenção. Fazendo uma pesquisa profunda, desconfio até mesmo se seriam de Alberto Campos aqueles livros que ficavam em cima do criado mudo. Mas ela sempre citava seu nome e quando chamava minhas irmãs, falava:

- Venham ver o que Alberto Campos está dizendo!

Ela ia contando o que estava escrito e acabara de ler. No futuro, a mulher ia dirigir automóvel! Não somente dirigir mas veríamos também mulheres trabalhando como motorista de táxi. Segundo minha mãe, ele contava que lá pelo ano 2000, a mulher ia ser totalmente independente. Ia trabalhar fora, ganhar o seu próprio dinheiro, tomar cerveja com as amigas no boteco, sair desacompanhada à noite, ir ao campo de futebol  e até mesmo decidir sozinha que modelo de geladeira, de liquidificador ou de fogão comprar.

Minha mãe ficava muito assustada com aquelas palavras mas não duvidada, em momento algum, daquilo que acabara de ler. Dizia para as minhas três irmãs que elas precisavam estudar muito, fazer faculdade, ganhar dinheiro, ser independentes para nunca precisar pedir dinheiro ao marido. Se não, estavam perdidas. Ao ler Alberto Campos, minha mãe, de repente, virou uma espécie de Beth Friedmam, meio Chiquinha Gonzaga.

Ela percebeu que não estava errada quando o meu tio rico voltou de uma turnê pela Europa, que incluiu Moscou e Stalingrado, quando São Petersburgo ainda se chamava Stalingrado. Ele veio contando que viu em Moscou, mulheres garis varrendo a Praça Vermelha, mulheres policiais na porta do Kremlin e mulheres dirigindo trens na estação Lubyanka do metrô.

Eram as palavras de Alberto Campos se concretizando. Ela não se espantou nem um pouco e disse ao meu tio rico, que já previa isso desde que começou a ler aqueles livros. Hoje, sinceramente, gostaria que minha mãe estivesse aqui conosco, orgulhosa de ver suas três filhas - uma advogada, uma psicóloga e outra professora -  além de um punhado de netas, todas elas jogando no ataque de um time que poderíamos chamar de Independente Futebol Clube.