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Selic e a festa do caqui

por Luis Nassif Online — publicado 19/04/2011 10h05, última modificação 19/04/2011 11h05
Há sinais claros de desaquecimento da economia no horizonte. À medida que foram sendo expurgados os últimos meses do ano da inflação oficial, ela tenderá a cair substancialmente. Por Luis Nassif

Por Luis Nassif

Poucas decisões do COPOM (Comitê de Política Monetária do Banco Central, que define a taxa Selic) foram tão polêmicas quanto a da próxima quarta-feira, que definirá a nova taxa.

Desde o ano passado, o Banco Central tomou a decisão de largar a ortodoxia ligeira de combater aumentos de inflação exclusivamente com taxas de juros. Seguindo uma mudança correta de rumos, que ocorre em nível global – endossada pelo próprio FMI -, o BC passou a aplicar um mix de medidas, como aumento do compulsório, redução de prazo de financiamento, exigência de maior valor à vista nos financiamentos, medidas com efeito imediato sobre consumo.

No final do ano, coincidiu com movimentos novos na economia internacional, especialmente a inundação de dólares no mercado internacional promovendo uma explosão nos preços das commodities e das moedas de países emergentes.Houve um aumento da inflação puxado fundamentalmente por fatores externos – sobre os quais as medidas internas têm pouca eficácia. Mas tenta-se compensar em outros preços a alta registrada nas commodities.

Tomadas as medidas, sempre se espera um tempo para avaliar os resultados. Há sinais claros de desaquecimento da economia no horizonte. Estatisticamente, à medida que foram sendo expurgados os últimos meses do ano da inflação oficial, ela tenderá a cair substancialmente.

Por isso mesmo, qualquer visão prudencial da economia sugeriria que o Copom manterá inalterado a taxa Selic.

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A reação do mercado foi curiosa. Literalmente, rasgou a fantasia.

Começou pelo discurso em Washington do presidente do BC Alexandre Tombini, um discurso convencional, avaliando a super-liquidez internacional e alertando para os riscos futuros, de elevação das taxas de juros das economias desenvolvidas.

Imediatamente saíram as primeiras notas nos jornais sugerindo que a fala de Tombini indicaria a propensão do BC em elevar em meio ponto a Selic. Puro chute, desmentido na sequencia pelo BC.

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Ontem na Internet foi a verdadeira farra do boi. Um leitor do meu blog coletou as manchetes dos principais portais:

IG: Notícia enviada por Mercado eleva projeção de inflação no ano - Previsão para IPCA sobe para 6,29% em 2011 e encosta no teto da meta estipulada pelo governo.

G1 - Mercado prevê subida dos juros para 12,25% ao ano.

Folha - Mercado prevê inflação de 6,29% neste ano, aponta Focus

Estadão - Mercado eleva pela 6ª semana projeção da inflação, para 6,29%

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Ontem tive longa conversa com dois executivos que têm o pulso da economia na mão: Lázaro Brandão e Luiz Carlos Trabucco Cappi, presidente do Bradesco.

Opinião unânime:

- aumento de meio ponto na Selic em nada afetará a trajetória da inflação;

- o aumento nas expectativas de taxas de juros futuras se deveu à interpretação errada da fala de Tombini;

- a China aumenta o compulsório em meio ponto e consegue interferir na atividade econômica; no Brasil não é possível porque a taxa de juros é tão elevada que interferiu na eficácia de todos os demais remédios monetários.

*Matéria publicada originalmente no blog do Luis Nassif

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