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Rio de Janeiro

Segurança pública ainda é caso de polícia

por Edgard Catoira — publicado 02/11/2011 10h34, última modificação 02/11/2011 10h42
A história de Mitríades VI, um antigo rei da Ásia Menor, ilustra bastante a situação a que nos habituamos a viver no Rio de Janeiro

O deputado estadual fluminense Marcelo Freixo (PSOL) viajou mesmo com a família para o exterior. Tudo porque, em 2008,  a CPI que ele presidiu terminou com o indiciamento de 225 pessoas, entre políticos e policiais.

Aconselhado – e convidado – pela Anistia Internacional, o deputado deixa seu cargo por pelo menos um mês, sua família larga tudo para se exilar em algum lugar na Europa. Tudo para não acontecer como no caso da juíza Patrícia Accioli, que, jurada de morte, foi finalmente assassinada pelos milicianos. Na porta da casa dela. Os criminosos acabaram aparecendo e estão presos. Mas a juíza não é mais entrave para o desenvolvimento das milícias no Rio. Freixo, é.

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Há denúncias concretas na PM, no Ministério Público, no Disque Denúncia e na Assembléia Legislativa de que, como no caso da juíza, grupos de milicianos querem acabar com o deputado e sua família. Ele está com alguma segurança e carro blindado. Mas nenhuma autoridade garante que ele escape de um atentado. Todos concordam que ele tem que sair do cenário – como deveria ter feito Patrícia Accioli.

E nós, do povo, vemos sua saída do cenário carioca, que ele defende, e não temos a quem gritar. A insegurança está abalada e o crime banalizado. Todos nós, cordeiros, vemos tudo passivamente, sem a mínima indignação.

O próprio secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, também corre o risco de ser fuzilado a qualquer momento pelas milícias?

É esta a democracia que merecemos?

 

Estamos todos Mitridatizados?

Sobre o exilo do deputado Marcelo Freixo que, aliás, é um nome forte para levar a candidatura do prefeito para o segundo turno, conversei longamente com um casal amigo, ambos intelectuais – ele também político, o que prova que o meio também tem gente de alto nível.

Ele resolveu fazer uma parábola que ilustra perfeitamente a situação que vivemos, que reproduzo aqui.

Para entendermos o raciocínio, é bom lembrar que Mitrídates VI, o Grande, foi  soberano de um antigo reino da Ásia Menor, o Ponto. Por temer a morte por envenenamento, tomava doses não letais de variados venenos, procurando imunizar-se. A estratégia é descrita no dicionário Houaiss como mitridatismo.

Ainda de acordo com a lenda, depois de ser derrotado por Pompeu, Mitrídates VI tentou envenenar-se. No entanto, resistiu à substância e teve que pedir a um escravo que o matasse com um golpe de espada. A história foi imortalizada a partir do século XVII, na peça Mithridates de Racine.

A lenda se encaixa muito bem para ilustrar o comportamento apático da maior parte da sociedade brasileira, diante de crimes em série e da sucessão de escândalos no país e, claro, mundo afora. É como se ingeríssemos doses diárias de veneno, e nos tornássemos imunes a toda sorte de barbaridades.

 

Proposta

Um outro amigo, jornalista, diz que a reação pública ao caso Freixo também se encaixa na medicina homeopática, criada por Samuel Hahnemann, que ensinou: “Simila similabus curantur”, ou, “A cura pelo semelhante”. Doses pequenas, atenuadas, de substâncias tóxicas, promovem a cura.

O jornalista faz uma proposta sábia: o número de dias que Freixo ficar fora do país servirá como um novo indicador da efetividade das ações de segurança pública. E conclui: “o problema transcende à política no Estado do Rio. Brasília precisa se envolver.”

A verdade atual é que nas áreas mais carentes das metrópoles brasileiras  já não causam tanto espanto a extorsão, o sequestro, as agressões físicas produzidas pelos mais fortes ou até um cadáver ou outro no meio do caminho.

Nos espaços mais elitizados, outros tipos de delito deixam de causar indignação, sobretudo, a conduta de corruptos e corruptores. Obras superfaturadas, abandonadas, autoridades circulando em aviões de empreiteiros são rapidamente esquecidas, assimiladas como corriqueiras.

A conduta condenada torna-se corrente e tudo cai no esquecimento, a não ser que exista um grupo rival com poder de fogo suficiente para alimentar a indignação da opinião pública.

É com essa disposição que damos adeus a Marcelo Freixo, deputado eleito com mais de cem mil votos nos deixar, abrigado pela Anistia Internacional. Na sua terra, não está mais seguro para continuar a exercer o seu mandato e enfrentar o poder das milícias.

No ar, ficaram as dúvidas: Qual será o próximo veneno que vamos ingerir? Quantos estarão imunes ou indiferentes? Ou quantos de nós ficarão indignados? E por quanto tempo?

Vamos aferir, quando ele retornar, a reação de autoridades e população.

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