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Secessão “democrática”

por Coluna do Leitor — publicado 27/12/2010 13h43, última modificação 27/12/2010 13h45
Durante o pleito eleitoral no Brasil varias “verdades” foram ditas, mesmo que para dar suporte argumentativo a essas “verdades”, fosse necessário recorrer a outras realidades que não as nossas. Do leitor Marcelo de Andrade Lima

Manifestar uma opinião que vem de baixo foi algo quase que impossível de se fazer durante muito tempo neste país. Nesse sentido é altamente positivo o espaço aberto em Carta Capital que desde 2001 vem contribuindo para o meu entendimento sobre o que se passa no mundo e em nosso país.

Mas com já diria em velho ditado é importante ter por perto teus inimigos, saber quais são seus planos, o que eles pensam. Assim é interessante ter posse do conteúdo que é repassado à população pela dita, até agora, de grande mídia, ou melhor, da nossa “mídia nativa”, principalmente no que eles acham que pensam por nós, o que eles acham que são verdades absolutas sobre a heterogênea sociedade brasileira.

Durante o pleito eleitoral no Brasil varias “verdades” foram ditas, mesmo que para dar suporte argumentativo a essas “verdades”, fosse necessário recorrer a outras realidades que não as nossas. Por exemplo, o fato de Michelle Bachelet, ex-presidente chilena, não ter feito seu sucessor, apesar de seus altos índices de popularidade, dando a vitoria a oposição, representada por Sebastián Piñera, soou pela mídia brasileira, mais precisamente por aqueles comentários de fundo astrológico nas rádios pela manhã e no final de tarde, como uma alerta ao Presidente Lula; “olha, altos índices de popularidade não significa transferência de votos”. Tiveram que calar, mas não o fizeram.

Durante os oitos anos de governo, alguns discursos do Presidente Lula foram visto pela grande mídia como uma forma de dividir o Brasil entre ricos e pobres, e que essa divisão não era algo positivo para o país (como no artigo de Janaina Conceição Paschoal veiculado na Folha de São Paulo em 12 de Novembro de 2010). Logo após a vitória da Presidente Dilma uma revista de grande circulação nacional, através de um canal na internet e em uma edição especial tentaram diminui a eleição de Dilma com os 43,7 milhões de votos obtidos por Serra, e distorcendo os fatos, lembraram que a oposição irá governar, através dos estados, 52% do eleitorado brasileiro sem levar em conta o porcentual que Dilma obteve nesses estados ganhos pela oposição, como em Minas Gerais, que apesar de ter reeleito um tucano para os próximos quatro anos, deu a Dilma 58,45% dos votos daquele estado, o mesmo serve para o Rio grande do Sul que elegeu um petista para o próximo mandato, mas deu a Serra uma pequena maioria 50,94%.

O que quero dizer com esses dados obtidos do TSE? Algo que não é novidade em Carta Capital, parte da mídia utiliza os dados conforme seus interesses político, colocando com suas “verdades”, que uma parte da população não apenas desaprova o governo atual, mas também “os desmandos petistas com inclinações autoritárias”. Se esses argumentos não são suficientes, lembram-nos da aliança PT-PMDB e de suas fragilidades, ao invés de fazer uma reflexão do nosso sistema político eleitoral. Enfim são inúmeros os argumentos.

Mas já não bastando, vem à tona o absurdo, como um apresentador de um tele jornal da Globo de Santa Catarina manifestar as verdades que foram deixadas de lado, o preconceito aos mais pobres, ou como o colunista da revista Veja, na edição de 17 de Novembro, que diz ter errado, de forma irônica, a sua previsão eleitoral por não entender a cabeça de brasileiro, algo que, segundo ele, foi feito brilhantemente por Euclides da Cunha em Os Sertões, obra que estereotipa os seguidores de Antonio Conselheiro, como “retrógrados”, “antiquados”, “primitivos”... E todo aquele olhar do sudeste sobre o nordeste, sem analisar a pobreza histórica criada por anos de exploração naquela região, que eram por vezes agravadas pelos períodos de seca.

A divisão ou secessão “democrática” é feita por parte da grande mídia. E como se percebe isso? Através do espaço dado aos seus leitores e seus comentários reacionários; Uns condenam as ações da OAB-PE e OAB-SP contra a estudante de direito por ter manifestado ódio aos nordestinos como no Estadão de 14 de novembro. Outros lamentam a Eleição de Dilma, e lembram que “venceu o projeto do Bolsa Família. Pelé e Charles de Gaulle tinham razão. Viva ao povo brasileiro” (Veiculado na Veja em 10 de Novembro) ironizando o fato de Pelé ter dito que o brasileiro não sabia votar.

Dai então me vem outra leitora do Paraná, da Revista Veja, na edição de 17 de Novembro dizer: que tal separar o país vermelho do “azul pensante” que “faz um país melhor”, que tem que carregar milhões que “pensam com o estomago”, para que cada um tenha o governo que mereça. E o que é pior, publicam essa idiotice.

Comentários esse que passaram em branco, por serem de certa forma mais sutis do que “afogar nordestino”, mas que são graves, e mostram como pensam parte da dita “elite bem feitora de nosso país”.

A mim como estudante de Geografia fica a pergunta. Qual é a idéia dessa leitora do Paraná para dividir os dois países, o vermelho e o azul, ao começar pelo seu estado, onde Serra teve 55,44% dos votos e Dilma 44,56%? O que fica claro é que uma cobertura superficial dos meios de comunicação frente aos acontecimentos acaba por refletir opinião aos mesmos moldes, ou seja, não aceitam o fato democraticamente posto por uma maioria, que a sua opinião prevalece frente à outra historicamente desfavorecida, que as “verdades” provem deles.

Lula não dividiu o país. Os pobres e por que não a classe média e os ricos, de varias localizações geográficas fizeram apenas dar um passo em direção aos comprimentos da constituição de 1988, como aumentar as igualdades da população promovendo um pouco de justiça social, com objetivo de eliminar a secessão antidemocrática de injustiças sociais durante décadas de nossa história.

*Marcelo de Andrade Lima é graduando em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas.

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