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Saudades do Império e de Bob Fields

por Felipe Corazza — publicado 30/11/2010 08h47, última modificação 01/12/2010 00h39
No "Fórum da Liberdade", dividindo palco com elogios ao liberalismo, o príncipe Bertrand de Orleans e Bragança estrela seminário em defesa das “liberdades”. Texto e foto: Felipe Corazza
Saudades do Império e de Bob Fields

No "Fórum da Liberdade", dividindo palco com elogios ao liberalismo, o príncipe Bertrand de Orleans e Bragança estrela seminário em defesa das “liberdades”. Foto: Felipe Corazza

Logo na chegada a Belo Horizonte, pelo caminho que sai do aeroporto de Confins, um outdoor gigante informa: “Surge um novo líder”. Antonio Anastasia, governador eleito do estado. O imenso cartaz é pago pela prefeitura da vizinha Vespasiano. O “novo líder” é um dos participantes ilustres do Fórum da Liberdade – MG, promovido na capital mineira pelo Instituto Millenium e pelo Instituto de Estudos Empresariais na segunda-feira 22.

Na companhia do advogado Ives Gandra Martins, da senadora ruralista Kátia Abreu, do “príncipe” dom Bertrand de Orleans e Bragança e de outros palestrantes, Anastasia é a segunda atração do cardápio. A primazia na abertura fica para Roberto Civita, presidente do Grupo Abril, agraciado com o Prêmio Liberdade. O comitê que decide o destino da honraria é do próprio fórum. Acompanhado por seguranças e assessores, Civita chega ao hotel. Um assessor espana-lhe as caspas do paletó, antes da entrada no saguão.

A caminho da sala vip, Civita há de ter notado certos detalhes. Alguns indicavam que a militância da direita aprendeu com a esquerda. A banquinha de camisetas, CDs, adesivos e outros badulaques – indispensável em qualquer evento progressista – ocupa um canto na entrada do Fórum. Mas, no lugar de camisetas com imagens de Che Guevara, pode-se adquirir uma com a efígie de Roberto Campos, ex-ministro e embaixador da ditadura. Generosamente e atenta à evocação histórica, a camiseta cuida de apresentar Campos como Bob Fields, apelido que ganhou por sua afeição às ideias americanas.

Um grupo de jovens, que se autointitulam anarco-liberal, distribui panfletos e um teste para quem quer descobrir sua real posição política. Um dos jovens critica o próprio Fórum: “Os verdadeiros defensores da liberdade não estão aqui”.

Enquanto isso, na entrada do hotel Mercure, manobristas estacionam Mercedes, Porsches e Lexus. De vez em quando, um carro popular. Pouco antes da abertura do evento circulam pelo saguão, fardados e portando crachá vip, dois representantes do Corpo de Bombeiros da Polícia Militar mineira. Junta-se a eles na expectativa o ex-senador tucano Eduardo Azeredo. Um terceiro fardado chega em carro oficial da corporação. Apesar de ser uma viatura dos bombeiros, o veículo – identificado pelo código CBMG 0493 – é tranquilamente entregue ao manobrista.

Todos acomodados, começa o evento. Discursam os fundadores do Instituto de Estudos Empresariais, Silvia Araújo e Felipe Quintana. Ambos criticam o Estado, o “excesso de regulação”, a “burocracia ineficaz” e os “impostos absurdos”. Terminada a sessão, Civita sobe ao palco para receber o prêmio.

No discurso de agradecimento, loas ao empresariado, e mais algumas palavras mornas. O tom de voz grave, porém manso, altera-se um pouco apenas no final, quando entram na pauta as tentativas de regulação da mídia. São ameaças à liberdade, diz, para satisfação dos presentes. A peroração chega ao ápice com uma citação a Adam Smith: para o boss da Abril, a “mão invisível” do mercado há de regular a mídia. É aplaudido de pé, inclusive pela empolgada espectadora que, segundos depois, vira-se para um repórter e pergunta: “Esse aí que falou, quem é mesmo?”

Sucede a Civita no palco o governador Anastasia. É a primeira voz no recinto a defender um Estado forte – por motivos óbvios. Mas, para não perder totalmente o apoio da plateia, prega uma mudança radical nas estruturas burocráticas, profissionalização e eficácia. Governador da terra da Inconfidência, ele não se esquece da presença, entre os espectadores, de um herdeiro da família real, a quem faz uma saudação de súdito fiel: “Sua Alteza”.

“Sua Alteza” está no fórum para participar do painel Reforma Agrária: Progresso ou retrocesso. Vestido com apuro e com os cabelos grisalhos impecavelmente penteados, o autoproclamado nobre é acompanhado na tarefa pela senadora ruralista Kátia Abreu e pelo professor José Ambrósio Ferreira Neto, coordenador do Movimento Paz no Campo.

Neto é o primeiro a falar. Defende a reforma agrária “nos termos em que está na Constituição”. Quando diz que a reforma é um avanço, especialmente contra os latifúndios improdutivos, discretos protestos surgem entre o público, talvez vindos da plateia anarco-liberal. E o professor cede lugar no palco ao “príncipe”.

Bertrand começa por desautorizar a Carta Magna. Pudera, é a base da República. Para ele, a reforma agrária, “por mais que esteja na Constituição, é contra o direito natural. A propriedade privada é um direito natural que antecede o Estado”. Contra o argumento das terras improdutivas, a lógica é peculiar: “Se todos os produtores plantarem em 100% das terras, faltarão bocas para comer tanto alimento”. Em momento de humor, Bertrand arranca aplausos da plateia, ao chamar de “TerraBras” o programa de auxílio à agricultura familiar. Ao classificar os assentamentos de “favelas rurais”, vai adiante: “Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, logo, inteligente e capaz de decidir. O Estado não pode decidir o que o homem vai plantar ou fazer com suas terras”. Aplausos efusivos.

A senadora Kátia Abreu, presidente da Confederação Nacional da Agricultura, soa ponderada ao assumir o microfone depois de “Sua Alteza”. Agradece o convite, evoca Azeredo, “que insistiu tanto” para que ela fosse a Belo Horizonte para o Fórum. A senadora não renega a reforma agrária, apenas exige que seja feita dentro “das regras estabelecidas”. Segue a mesma linha de dom Bertrand e elogia o direito de propriedade, ao qual atribui uma “origem maravilhosa”, e ataca o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra: “O MST usa a bandeira da reforma agrária como pretexto para uma bandeira revolucionária”.

Já se encaminhando para o fim do discurso, a senadora faz uma revelação bombástica para a plateia liberal: “Tenho lido sistematicamente Gramsci, para entender os que pensam diferente de mim”. As gargalhadas do distinto público quase impedem que Kátia Abreu termine a frase. Findo o libelo da senadora, o ex-presidente e príncipe dos sociólogos Fernando Henrique Cardoso prepara-se para subir ao palco e palestrar no encerramento do Fórum da Liberdade. Lá fora, os manobristas agitam-se em aquecimento para a trabalheira que se anuncia.

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