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Política

Eleições 2010

"São Paulo não é fortaleza impenetrável do PSDB"

por Brasil Econômico — publicado 30/08/2010 16h42, última modificação 30/08/2010 18h00
Depois da série de crises que derrubou os candidatos naturais do PT à sucessão de Lula, o nome de Marta Suplicy passou a frequentar todas as listas de apostas para a disputa ao Palácio do Planalto em 2010.

Depois da série de crises que derrubou os candidatos naturais do PT à sucessão de Lula, o nome de Marta Suplicy passou a frequentar todas as listas de apostas para a disputa ao Palácio do Planalto em 2010.

Ela sabia disso e, na época, alimentava esse sonho.

Foi em uma conversa reservada com o presidente Lula que a então ministra do Turismo foi uma das primeiras a saber da boa nova: o partido teria uma candidata à Presidência. "Eu pensei: Marina, Dilma ou eu. Mas logo percebi que seria a Dilma e achei muito bom", diz.

O mundo da política deu muitas voltas desde então e Marta hoje lidera com folga todas as pesquisas para o Senado em São Paulo.

Ela integra a seletíssima lista de candidatos prioritários do PT que disputam essa raia nobre do parlamento. Se Marta e Dilma vencerem, a ideia é que a ex-prefeita integre uma espécie de "Tropa de Elite" da base do governo.

"Quero ser o braço direito de Dilma", diz. Nessa entrevista exclusiva ao Brasil Econômico, Marta Suplicy analisa o cenário em São Paulo e fala de seus planos para o futuro.

Como a senhora explica a força do PSDB em São Paulo e a dificuldade do PT em avançar no estado, especialmente no interior ?

A densidade que o PT está tendo em outras regiões amenizou o peso de São Paulo, que é muito grande. Sempre tivemos dificuldade aqui. A única vez que o Lula ganhou (no estado) para presidente foi quando eu era prefeita. Mas sinto que isso está em transformação. Há uns três meses atrás eu diria que São Paulo seria uma pedreira para a Dilma, especialmente no interior. Mas há um mês e meio notei que as coisas tinham mudado completamente. Era o peso das pessoas querendo a continuidade do Lula.

O PT já governou cidades na Baixada Santista, no interior, ABC e Vale do Paraíba, mas nunca conseguiu votações expressivas para governador...

Na medida que o PSDB fincou raízes, criou-se uma máquina muito grande. As disputas em São Paulo, em termos financeiros, sempre foram desiguais. Não podemos esquecer que São Paulo é o centro do PIB nacional. O peso da máquina é um fato. Mas São Paulo não é uma fortaleza impenetrável do PSDB.

Sua principal base, hoje, é a periferia paulistana?

A periferia é muito grata pelo CEU e pelo bilhete único. Mas, para minha surpresa, estou muito bem em cidades onde fui muito pouco, como Ribeirão Preto e Araçatuba. O voto é um mistério, por mais que os marqueteiros tentem explicar. Eu discordo, por exemplo, dessa tese de que o Tiririca terá 1 milhão de votos. Com o Lula presidente, as pessoas viram o que o voto bem dado pode fazer e passaram a olhar com cuidado as eleições. Eu tenho visto pessoas pouco politizadas indignadas e ofendidas com certas propagandas eleitorais. O povo está mais exigente.

Mas o Tiririca está na sua coligação. Na propaganda dele na TV, o nome do Mercadante aparece com destaque. Isso é um constrangimento para o PT?

Na minha opinião, é sim um constrangimento. Até porque o PT optou por divulgar sua bandeira apenas com o número em vez de nomes. Acho isso interessante. Só que logo depois da nossa propaganda vem a dos outros partidos aliados. Fica parecendo que são nossos candidatos. Alguns fazem troça, o que é um desrespeito ao cidadão. Ele (Tiririca) faz parte de uma coligação, e nós não temos controle sobre isso.

A campanha do José Serra está pregando que, se o PT vencer, nomes envolvidos no mensalão voltarão ao governo. A senhora vê algum problema no retorno deles? Ficou algum trauma no PT dos casos do "mensalão" e do caseiro?

Essa propaganda que está no ar é absolutamente ridícula e apelativa. O "mensalão" está na mente de todos nós, inclusive dos petistas. Mas essa apelação é um tiro no pé. As pessoas percebem que é oportunismo. Ninguém está preocupado com as pessoas do "mensalão". Só querem que a Dilma faça um bom governo e esteja à altura do que foi o governo Lula.

A senhora tem planos de disputar a prefeitura em 2012?

Estou encarando o Senado como um desafio extraordinário na minha vida. Espero poder ser, como senadora, o braço direito da Dilma. Não tem por que disputar nada.

Caso seja derrotado agora, o Mercadante é o nome natural do partido para disputar a prefeitura?

Espero que ele reverta a eleição. Essa pergunta é precipitada.

Que tipo de reforma política a senhora defende?

Essa será a primeira preocupação da presidenta e dos eleitos ao Senado. Vamos ter que discutir primeiro se vamos ter uma constituinte focada para isso ou se a reforma será dentro do Congresso. Essa escolha vai determinar se ela será ampla e revolucionária ou um arranjo melhor do que é hoje.

O que mudaria no estilo de gestão no caso de uma mulher presidente?

Será fantástico. As meninas vão ver todos os dias na TV que a pessoa mais importante do país é uma mulher. Isso vai ter um impacto grande na cabeça delas. Não teremos teto para nada. O simbolismo disso é gigantesco. As pessoas não perceberam ainda.

Qual será o futuro do PT? A eleição vai mudar a vida orgânica do partido?

O partido tende a se fortalecer cada vez mais. O PT já é o preferido da maioria do povo brasileiro, com uma diferença enorme em relação ao PSDB.

Que futuro vislumbra para o PSDB, caso ele perca a eleição presidencial?

Vamos ter que esperar a eleição para ver o tamanho deles. Se perderem em São Paulo e Minas, vão sumir. O quadro para o PT é mais definido. Podemos ter o maior número no Senado.

Algumas alianças que o PT fez este ano pegaram os militantes de surpresa. Não acha forte demais a imagem de Collor e Lula no mesmo palanque, especialmente para quem viveu a eleição de 1989?

Isso foi um amadurecimento do PT. Nós percebemos que não se governa sozinho, especialmente em um sistema como o nosso. O PT acertou no Maranhão e em Alagoas (onde apoia Roseana Sarney). Se você tem um projeto para o Brasil, ele só pode ser implantado com alianças. Não adianta ser um Don Quixote solitário.

O malufismo morreu?

Não, mas está em decadência. Basta ver os gráficos do Maluf em cada pleito. Mas ele ainda é um homem com muitos votos e seguidores. Mas acho que não tem condições de voltar a ter um cargo majoritário.

O Celso Russomanno é um subproduto do malufismo?

Eu não usaria essa palavra. Eu diria que ele representa um setor que tem apoiadores do Maluf, mas não é o Maluf.

Antes da Dilma ser escolhida para disputar o Palácio do Planalto, o nome da senhora foi cogitado. Ser presidente é um sonho?

Não tenho mais. Antes de escolher (a Dilma), um dia o Lula me falou: "Marta, a presidente do Brasil será uma mulher". Eu pensei: Marina, Dilma ou eu. Mas logo percebi que seria ela e achei muito bom. Dilma acompanhou os momentos mais difíceis e as grandes decisões. Foi o braço direito do Lula nos oitos anos. Essa simpatia mútua que nós temos vem da percepção que ela teve do meu engajamento de corpo e alma. Em nenhum momento cogitei competir nesse quesito. Desde o primeiro momento em São Paulo apresentei ela para deputados estaduais e federais, além de personalidades da mídia. Depois fiz uma apresentação dela à sociedade paulista no Jóquei. Não tenho nenhuma competição com ela. Estou no barco para ajudar.

A senhora está fazendo campanha junto com o Netinho de Paula. O fato de ele ter agredido a ex-mulher não é uma saia justa?

Sempre é algo pesado, mas ele pediu desculpas e creio que tenha a compreensão e o arrependimento do que fez. O eleitor é que vai dizer se considera o episódio superado em vista do arrependimento, da contribuição que ele possa dar para melhorar o Brasil.

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