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Rio de Janeiro cria seu mercado de reflorestamento

por Envolverde — publicado 14/12/2010 10h43, última modificação 14/12/2010 11h21
Projeto pretende reflorestar uma bacia hidrográfica essencial para o abastecimento de água no estado e ainda criar um mercado que estimule o emprego e o consumo local

Rio de Janeiro cria seu mercado de reflorestamento

Por Fabiana Frayssinet, da IPS 
Rio de Janeiro, Brasil, 14/12/2010 – Em uma das regiões mais devastadas da Mata Atlântica do Brasil, um projeto pretende reflorestar uma bacia hidrográfica essencial para abastecer de água o Rio de Janeiro e criar, ao mesmo tempo, um mercado de reflorestamento que estimule o emprego e o consumo local. Gilberto Pereira, diretor-executivo do não governamental Instituto Terra de Preservação Ambiental (ITPA), disse à IPS que a iniciativa implementada em Miguel Pereira, município do sul do Estado, nasceu com duplo objetivo: ter grande relevância regional e gerar ganhos.
A Área Protegida Ambiental do Rio Santana foi selecionada porque seu corpo de água é um dos principais afluentes do Rio Guandu, que abastece de água 80% da área metropolitana da cidade do Rio de Janeiro, de 10 milhões de habitantes. O desmatamento progressivo compromete tanto a qualidade como a produção de água, porque restam apenas 30% da cobertura florestal original. Além disso, é uma área paralisada economicamente.
No passado, foi desmatada para criar pastagem para o gado e com isso impulsionar um desenvolvimento sólido, mas atualmente “temos uma economia parada na região”, explicou Gilberto. Por isso, ao criar um mercado de reflorestamento “podemos, além de reflorestar áreas devastadas, gerar emprego e água”, acrescentou. A estratégia foi contratar trabalhadores do lugar, que tinham empregos precários ou estavam desempregados. Os 35 homens e mulheres agora têm contrato formal e benefícios trabalhistas, ganham muito mais do que o salário mínimo e não precisam percorrer longas distâncias para chegar ao trabalho.
Em Eurilene Martin, uma das reflorestadoras, se concentram todos os objetivos do projeto. Define-se como “mãe e pai ao mesmo tempo”, porque deve criar seus filhos sozinha, trabalhava como doméstica na cidade, o que a forçava a percorrer longas distâncias, e perdeu sua casa na margem do Rio Santana por causa do desmatamento. “Sabia que sem a proteção das árvores o barranco cederia com a chuva. E foi o que aconteceu: a terra caiu como uma avalanche sobre minha casa”, disse à IPS.
Agora, ela trabalha para que isso não volte a ocorrer, ganha um bom salário e faz algo que “dá grande prazer”. Isto “não é trabalho, é um projeto de vida”, disse, pouco antes de carregar um caminhão, junto com outros companheiros, de pequenas árvores nativas da Mata Atlântica para levar às áreas desmatadas. O viveiro fica no terreno do Sindicato dos Ferroviários, que junto com o do setor de telefonia empresta as instalações para colaborar com a iniciativa.
Marilene Ramos, secretária do Meio Ambiente do Estado, destacou que os proprietários rurais também dão sua contribuição, autorizando o plantio em suas terras e se comprometendo a não desmatar. A bacia do Guandu tem, inclusive, a primeira experiência de pagamento de serviços para o ecossistema. “Os proprietários que cedem a área para o reflorestamento, que reflorestam ou preservam os remanescentes florestais, recebem dinheiro, em pagamentos semestrais, por essa preservação”, explicou à IPS.
Para contribuir com a criação desse mercado ecológico citado por Gilberto, também é utilizada mão-de-obra do lugar para plantar e coletar sementes. O estimulo dá seus frutos. Em apenas três meses, os reflorestadores plantaram cerca de cem mil árvores nativas, entre elas a árvore nacional, o Pau Brasil (caesalpionia echinata). Trata-se de uma espécie ameaçada de extinção. Alguns historiadores dizem que sua exploração para extrair o corante usado na tintura vermelha de telas ou pintura chamada brasilina foi a primeira atividade dos portugueses nestas terras, quando chegaram no século XVI.
“Eu ouvia na televisão sobre o Pau Brasil e ficava louca para saber como era. E agora sou eu que planto e cuido dele. Estou do outro lado da televisão”, brincou, orgulhosa, Eurilene. As pequenas árvores chegam até seu destino, no alto dos morros desmatados, em caminhão e seguem em lombo de cavalo pelos trechos mais inacessíveis. A lama deixada pelos dias anteriores de chuva dificultou a subida quando a IPS acompanhou os trabalhadores.
No entanto, no alto do morro e nas encostas do que algum dia foi a Mata Atlântica, um dos biomas mais ricos do planeta, os reflorestadores realizam sem pausa seu trabalho quase arqueológico de recuperar a biodiversidade do passado. Descarregam as árvores dos cavalos, cavam um pequeno buraco e com cuidado semeiam o que Eurilene descreve como “o futuro”. “Cada árvore é a esperança de que algum dia tudo melhore”, disse emocionada.
Vida a partir da água, pois com o reflorestamento será evitada a erosão do terreno e, assim, os desmoronamentos no leito do rio. Também será evitado que as nascentes sequem e vai melhora a qualidade da água que os habitantes do Rio de Janeiro beberão. O cálculo do ITPA é que com o que a estação de tratamento de água gasta em um trimestre para limpar suas impurezas, se poderia pagar um ano a todos os proprietários rurais da Bacia do Guandu.
“O rio tem problemas de desbarrancamento e erosão muito acentuados. A vegetação ribeirinha contribui para reduzir esse problema da sedimentação, da erosão da bacia”, explicou Marilene. Para o ITPA, a iniciativa é um exemplo de que a preservação e o desenvolvimento social não são contraditórios. Ao mesmo tempo em que contribui para melhorar a qualidade do solo, equilibrar o microclima regional, combater o aquecimento global pela captura de carbono e melhorar a qualidade da água potável, o reflorestamento “permite uma renda mensal maior para dezenas de famílias”, explica em vários documentos.
Uma mudança que por sua vez gera maior atividade do comércio local, em uma economia ativa que também contribui para evitar o tradicional êxodo do campo para a cidade em busca de fontes de emprego, argumenta o ITPA. É o que Mauricio Ruis, seu secretário-executivo, define como “um princípio de economia ecológica, um caminho sem retorno”, o que Eurilene resume em “plantar o futuro”. Envolverde/IPS
(IPS/Envolverde)

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