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Política

Eleições 2014

Requião: meninos ricos tomaram conta do Paraná

por Piero Locatelli — publicado 15/09/2014 03h52
Em segundo lugar nas pesquisas, senador diz que o governador Beto Richa era “um moleque que aborrecia muito o pai porque não gostava de trabalhar"
Divulgação
Requião

Requião tenta governo do Paraná pela quinta vez

De Curitiba

O senador Roberto Requião (PMDB) tenta chegar ao seu quarto mandato como governador do Paraná. Ao disputar a sua quinta eleição ao Executivo do estado, trata com desprezo o seu principal adversário, o candidato à reeleição Beto Richa (PSDB). “É um moleque que aborrecia muito o pai porque não gostava de trabalhar, que acabou pelos azares da sorte virando governador para se aliar a grupos econômicos e quebrar o estado do Paraná”, resume Requião, referindo-se a José Richa, ex-governador e pai de Beto.

Em segundo lugar nas pesquisas, Requião está à frente da senadora Gleisi Hoffmann (PT), ex-ministra da Casa Civil de Dilma Rousseff. Parte do seu partido queria apoiá-la na disputa, o que ajudou na divisão do PMDB no estado. Durante o período eleitoral, a direção estadual da legenda foi destituída pelo grupo do senador. Segundo Requião, isso não afeta a disputa e não há partido que não esteja dividido. “O único que não tinha esse problema era o partido nazista, o Hitler fuzilava. E eu não quis fazer uma noite dos longos punhais aqui, é uma coisa pouco democrática”, diz Requião.

Veja abaixo trechos da entrevista da CartaCapital com o senador:

CartaCapital: O senhor foi governador três vezes, faz campanha pela quinta vez. O que o levou a ser candidato novamente? O que seria diferente dos doze anos que já ocupou no cargo?
Roberto Requião: Nós introduzimos no Paraná o conceito de planejamento, tínhamos trezentos programas no Paraná, sociais, de educação, fiscais, de saúde, educação. De repente, isso tudo desapareceu. Um grupo de meninos ricos tomou conta do estado, se elegeram numa campanha atípica. A meninada tomou conta com um grupo de negociantes da política. Se elegeram com três milhões de reais, por exemplo, do pessoal do pedágio. Houve uma apropriação, por um grupo de financiadores, do estado. E eu estou aqui movido à indignação.

CC: O senhor se refere especificamente ao governo do Beto Richa?
RR: Do Beto Richa, foi uma coisa incrível. Eu queria que se lançasse uma candidatura alternativa, e não tinha. O PT em confusão, com "mensalão", Petrobras, [Eduardo] Gaievski, o pedófilo, André Vargas, então eles achavam que compravam o PMDB e estavam com a eleição garantida por falta de concorrente. Eu propus ao partido que lançasse um candidato, o partido se mobilizou e me convidaram a ser. Eu vim com entusiasmo, o objetivo é por a casa em ordem, fazer o Paraná voltar a ser o que era.

CC: O senhor citou o seu partido, que veio dividido na eleição...
RR: Mas qual partido não é dividido? Conhece algum que não seja?

CC: Mas dentro de uma ideia centralista, como a do PT, em tese o partido brigaria e depois estaria unido na campanha. O PMDB está unido na campanha?
RR: Está. Uma ou duas pessoas não estão.

CC: Mas isso não afeta a sua campanha?
RR: Aliás, o teu exemplo é infeliz porque o PT está dividido, sim, aqui no estado. É uma síndrome que acomete a todos os partidos. O único que não tinha esse problema era o partido nazista, o Hitler fuzilava. E eu não quis fazer uma noite dos longos punhais aqui, é uma coisa pouco democrática.

CC: O senhor foi um aliado do José Richa, ex-governador e pai do atual governador. Vê alguma relação entre ele e seu antigo aliado?
RR: É um moleque que aborrecia muito o pai porque não gostava de trabalhar, que acabou pelos azares da sorte virando governador, para se aliar a grupos econômicos e quebrar o estado do Paraná. Só reclama da Dilma, faz malcriação com a Gleisi, e não trabalha. É o pior governador da história do Paraná e a pior equipe de governo.

CC: Como o senhor disse, o Beto Richa reclama que o governo federal não coopera com o estado, e critica a Gleisi por isso. Olhando de fora desta briga, o senhor acha que a União coopera com o Paraná?
RR: O Beto apresentou um projeto de casas populares que o governo federal fez tudo, ele só puxou a energia elétrica. O que você quer? Uma cooperação maior do que a construção de mais de cem mil casas? O Beto tenta justificar a sua incapacidade e sua incompetência com reclamação. Ele já subiu em cinco bilhões a dívida [do Paraná com a União] e até o final do ano vai subir nove. Quem está quebrando o estado é ele. Deu aumento onde não devia, aumentou a participação [no orçamento] do Ministério Público e do Judiciário de forma irresponsável. A dotação do Judiciário dificulta a sobrevivência do Paraná. É uma irresponsabilidade absoluta na gestão.

CC: Como senador, qual sua opinião sobre o projeto de renegociação da dívida enviado pelo Executivo? Acha que solucionaria os problemas financeiros do estado?
RR: Isso tem que mudar de uma forma radical. O Governo Federal, depois de 1988, passou a concentrar a arrecadação da nação. E não é por má vontade e nem por maldade, é pelo modelo econômico. O governo federal tem uma dívida fantástica, e se não concentrar a arrecadação não consegue pagar mais nada. Isso tem que mudar com prazo longo e juro baixo. Se desinfla da mesma forma que inflou, mudando o indexador e os prazos. Agora, vem a Marina [Silva, candidata do PSB ao Planalto] com essa história de Banco Central independente, que é a piada maior. Daí o Bill Clinton ou o Obama liga para cá e falam “quer falar com o presidente?”. “Não, chama o presidente do BC”. A presidente não serve mais para nada.

CC: Em pouca mais de dois meses de campanha, os três principais candidatos moveram mais de 300 ações na Justiça eleitoral. Ao que o senhor atribuiu essa judicialização da disputa?
RR: Ao desespero do Beto Richa. Ele ganhou a última eleição bloqueando as pesquisas de opinião. Com essa manipulação, ele chegou a ser governador. Então ele tem uma equipe para fazer isso.

CC: Mas o senhor moveu mais de cinquenta ações no período eleitoral.
RR: Eu não tenho nenhum interesse nisso, mas você tem que dar uma resposta.

CC: E a resposta não pode ser outra?
RR: Não pode ser outra. E aí os juízes ficam extrapolando suas funções, tomando medidas absurdas. Chegaram a tirar um site meu do ar, porque eu não podia ter um site no meu nome. É uma coisa absolutamente ridícula. Ontem, eu soube que tiraram um site que se chamava “taca le pau”, que eu abri e não sei nem de quem é. Não há nada que justifique a retirada do site do ar. É o fim do mundo.

CC: Em algumas pesquisas o senhor aparece empatado com o governador...
RR: Aí você tem que entrevistar o Datafolha e o Ibope. Eles têm que explicar, não sou eu. As minhas pesquisas são outras. Estamos muito bem nelas.

CC: O que pode se esperar de um segundo turno entre o senhor e o Beto Richa? Até que ponto o eleitorado da Gleisi apoiaria o senhor?
RR: Eu não tenho que esperar nada. É um problema do PT, só vou colocar minhas propostas. Não existe essa possibilidade de comando, se existisse a Gleisi estava ganhando aqui com o apoio do Lula e o Padilha seria o primeiro lugar em São Paulo. Voto não é mercadoria.

CC: O senhor se referia à Marina Silva como sua “irmãzinha”, e agora criticou a proposta dela para o Banco Central. Como o senhor avalia a candidatura dela?
RR: O Aécio não recepcionava votos de oposição porque eles eram confundidos pela insatisfação popular com tudo, com insatisfação no governo federal e estadual. E a Marina se deslocou disso, recepcionou os votos. Ela passou a ser um desaguador da insatisfação com suas posições e sua projeção nacional. Eu não entendo o liberalismo econômico dela, eu tenho dificuldade de entender de onde veio isso.