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Reforma e Revolução em Cuba

por Emiliano José — publicado 18/06/2008 18h40, última modificação 01/09/2010 18h42
Era um Lada. Com bem mais de 20 anos de uso. Um russo decadente. Quando o volante era girado para qualquer lado, a buzina era acionada. O motorista dizia tratar-se de um sofisticado software instalado no velho carro. Ironizava com um defeito elétrico não solucionado por falta de peças de reposição.

Era um Lada. Com bem mais de 20 anos de uso. Um russo decadente. Quando o volante era girado para qualquer lado, a buzina era acionada. O motorista dizia tratar-se de um sofisticado software instalado no velho carro. Ironizava com um defeito elétrico não solucionado por falta de peças de reposição.

Estamos em Cuba, desfrutando das belezas de Havana, 2 de janeiro de 2008, o automóvel andando a coisa de 60 quilômetros, mais por suas deficiências do que por qualquer respeito a limites de velocidade. Havana, aliás, é curiosa. Você faz uma viagem no tempo. Passa a contemplar não apenas os velhos Lada, mas automóveis das décadas de 30, 40, 50, 60 do século passado.

O motorista do Lada é Luís Sexto, jornalista desde 1972. Já foi repórter, chefe de reportagem, redator-chefe. É um revolucionário, defensor da revolução. E cristão. Escreve atualmente para o Juventude Rebelde, diário cuja circulação é superior a 250 mil exemplares. Teve um de seus livros publicado no Brasil: O cabo das mil visões: Magias e mistérios do Cabo de Santo Antônio, em Cuba, pela editora Casa Amarela. Já havia lido alguns dos meus livros.

Foi um privilégio conhecê-lo e sentir nascer uma promissora amizade, como ele diz no autógrafo do livro que me entregou no início da noite daquele dia 2 de janeiro, em seu simpático e modesto apartamento, depois de nossa turnê por Havana. Ele esbanja conhecimento sobre a história da Ilha, sua cultura, sua gente. Conhece profundamente a alma do povo cubano.

Eu visitava Cuba pela primeira vez. Escrevera tanto sobre a Revolução, estivera com vários dirigentes cubanos, inclusive com Fidel Castro, em 1993, na Bahia, quando lhe entreguei um exemplar do livro sobre o Capitão Carlos Lamarca, escrito por mim e por Oldack Miranda. Mas, ainda não visitara Cuba. Confesso que tinha algum receio. Eu, que me inebriara tanto com as conquistas revolucionárias dos liderados de Fidel, será que não me frustraria ao me ver face a face com aquela experiência?

As revoluções suscitam situações complexas depois da tomada do poder. Quanto mais uma revolução feita nas barbas do Império. De 1959 até hoje, Cuba tem vivido sob ataque cerrado. O bloqueio econômico constitui-se numa cruel agressão ao povo cubano.

E Cuba, que teve sua situação agravada com o fim do socialismo real e com a desintegração da URSS, tem sabido resistir, mantendo intocadas as conquistas do socialismo, particularmente aquelas registradas nas áreas da saúde e da educação. Não me frustrei com o que vi. Mas, óbvio, não há paraíso sobre a terra. Algumas preocupações assaltaram-me.

E na conversa com Luís Sexto pude perceber que as preocupações eram também dele. Ele, com sua experiência, do alto de seus 62 anos e de sua dedicação à Revolução, conquistou um espaço que lhe permite o exercício da crítica. “Eu tenho compromisso com o meu país. E por isso tenho o direito de criticar. Não sou complacente. O que está mal, está mal. O que é equivocado é equivocado”.

No nosso diálogo, ele recordava o que Fidel dissera no dia 17 de dezembro de 2005. “Os inimigos externos da Revolução não podem nos destruir. Já compreenderam isso”, foi o que dissera. No entanto, acrescentara, “o que pode nos destruir são os nossos próprios erros”. E isso reforçou ainda mais o espírito crítico de Luís Sexto. Na opinião dele, naquele início deste ano, o que pode comprometer o futuro da Revolução são os restos do modelo de socialismo herdados da experiência soviética.

Havia em Cuba, naquele momento, e isso era confirmado pelo jornalista, um clima surdo contrário à excessiva concentração econômica nas mãos do Estado, um alargamento da pequena corrupção, indisciplina no mundo do trabalho, ausência de estímulo à criatividade de empreendedores individuais, a revolta contra a existência de duas moedas (uma para o turista, outra para os cubanos) e contra o excesso de proibições, entre vários outros aspectos.

Sentia alguma amargura em sua voz, talvez decorrente da pressa que tinha nas mudanças. O povo cubano, me dizia, é paciente, ama sua Revolução, mas não pode esperar muito mais. E me fez uma revelação surpreendente: a esperança de que as coisas mudem está nas mãos de Raul Castro. Ao contrário do que todos apregoam, ele é mais, usemos a palavra, é mais liberal do que Fidel Castro. Me revelou que a filha de Raul era a vanguarda da luta pelo direito à liberdade de orientação sexual.

Acabei de ler o livro O senhor de todas as armas, de Carlos Alberto Tenório, que dá uma visão do Raul em Sierra Cristal, 1958. Fornece pistas sobre a forte personalidade dele. Raul era o comunista da família.
Parece que Luís Sexto tinha razão. O irmão de Fidel, logo que assumiu o comando político, iniciou uma política de reformas que parece atender as expectativas do povo cubano, nem que parcialmente. Surpreendeu a todos, iniciando um processo de diminuição das proibições, o que abre as portas para a criatividade e premia o mérito. Politicamente, para lembrar apenas uma iniciativa, criou as condições para uma grande manifestação a favor do direito dos homossexuais, que ocorreu.

Luís Sexto me dizia que o excesso de proibições e o volume de coisas concentradas nas mãos do Estado prejudicavam o consenso, limitavam as iniciativas do povo para que ele próprio resolvesse os seus problemas. “Tem que se dar espaço às pessoas, aos indivíduos. A igualdade deve se basear na máxima de que todos tenham os mesmos direitos. Mas, é fundamental que os talentos individuais possam se manifestar. O medíocre não pode valer igual ao mais apto”.

Mais do que isso, no plano da economia, com reflexos no mundo da política, defendia que o socialismo cubano devia dar mais espaço aos trabalhadores, que na opinião dele deviam ser protagonistas mais efetivos. “Aos gerentes não têm importado o que pensam os trabalhadores”. O socialismo cubano não tem sido capaz, na opinião dele, em razão das travas burocráticas, em converter os trabalhadores em agentes efetivos da produção, em dirigentes do mundo da economia.

Senti que os dirigentes cubanos têm alguma consciência dos problemas. Conversei com Jorge Ferreira, do Comitê Central. E agora vejo Raul Castro começando a implementar reformas que podem impulsionar a economia, aumentando a margem de manobra para as iniciativas do povo. Pode ser que a vitória de Obama nos EUA abra portas para o fim do bloqueio, isso primeiro se ela ocorrer e segundo se ele se dispuser de fato a enfrentar o problema com uma visão democrática.

O fato é que o caminho para libertar-se do modelo antigo – aquele do socialismo real, como diz Luís Sexto – ainda é longo. É fundamental que a caminhada continue. Estamos numa época de reconstrução de modelos de socialismo. Aquele, fundado no autoritarismo, na concentração de tudo nas mãos do Estado, já demonstrou sua falência. O momento é edificar modelos que consigam juntar a luta pela igualdade com a prevalência das liberdades, democracia e socialismo irmanados.