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Política

Direto de Porto Alegre

Reflexões dos pampas sobre a campanha de Dilma

por Paulo Cezar da Rosa — publicado 06/10/2010 09h59, última modificação 06/10/2010 12h18
Sem segundo turno para governador no RS, nosso colunista gaúcho dá sua opinião sobre a eleição presidencial

Sem segundo turno para governador no RS, nosso colunista gaúcho dá sua opinião sobre a eleição presidencial

Não tenho ideia do que o comando da campanha de Dilma vai fazer nos próximos dias. Também não tenho nenhuma influência sobre isso, mas como todo brasileiro é técnico de futebol, eu também sou.

Se eu fosse o técnico do time da Dilma, primeiro faria um balanço. O time Dilma jogou os últimos quinze minutos da partida enrolando a bola, cansado, sem iniciativa, torcendo para levar o resultado positivo até o juiz apitar o final. Acabou vindo uma tal Marina pelo flanco e fazendo um gol que levou a partida para a prorrogação.

Faltou iniciativa na reta final. Era só ver os programas de TV repetindo a exaustão as mesmas cenas e as mesmas jogadas do começo da disputa.

Perdoem-me a arrogância. Talvez seja coisa de gaúcho. Não acompanhei atentamente o embate eleitoral nacional no primeiro turno. Ative-me mais à disputa regional, no Rio Grande do Sul. Portanto, além de arrogante, posso estar errado. Mas acho que a campanha Dilma deve compreender que:

1) Não foi a Erenice que tirou votos. Isso ajudou. Mas foi principalmente a falta de projetos de futuro na campanha Dilma, a falta de propostas e iniciativas políticas na reta final. Seguir mudando é bom, mas precisa dizer o que vai fazer, pra que lado vai seguir a mudança;
2) A paralisia permitiu a iniciativa dos adversários. Serra, que não dava uma dentro, passou para a ofensiva, com suas propostas mirabolantes mas capazes de enrolar eleitores desavisados. Marina, que estava num canto, pôde vir para o centro da disputa e dar contornos sociais e éticos ao seu eco capitalismo;
3) Serra, ao atacar Marina no último debate como ex-petista, não errou politicamente. O tucano garantiu com isso que Marina pudesse crescer no território do PT, junto a quem cultiva algum desgosto com o partido.

Se esse balanço guarda uma certa proximidade com a verdade, neste segundo turno, além de mostrar com clareza um projeto de desenvolvimento do País nos próximos anos, de garantir concretamente mais saúde, mais seguranças e mais educação, teria de tratar de:

1) Incorporar o tema do desenvolvimento sustentável na campanha. Dialogar com Marina se houver espaço, mas se não houver é preciso trabalhar o tema de maneira clara e transparente para toda a população. Ou seja, se não for possível trazer Marina para a campanha é preciso incorporar a sua principal bandeira. Não por oportunismo eleitoral, mas porque a bandeira do desenvolvimento sustentável é correta.

2) Dilma não pode ficar na generalidade na questão social. Dizer que vai erradicar a miséria é o mesmo que nada. Aliás, o povo nem sabe o que é “erradicar”. Enquanto Dilma ficou neste discurso elitista, Serra foi pro “promessômetro”: Salário Mínimo de 600 reais, Prouni do ensino técnico, 13º. para o Bolsa Família, 10% de aumento para os aposentados, 400 quilômetros de metrô pelo País etc. A classe média sabe que é demagogia, mas não muda o voto por causa disso. Quem muda é o povão. Dilma não deve cair na demagogia, mas precisa concretizar as suas promessas sociais. Dizer concretamente o que vai fazer para erradicar a miséria. Afirmar quantos empregos pretende criar. Quantos cursos de qualificação profissional vai fazer....

3)O time da Dilma precisa sair da defesa e ir para o ataque. Isso não quer dizer ser agressivo. Mas isso quer dizer pautar o adversário, estabelecer o ritmo do jogo, os temas a serem tratados. Há um grande risco desse segundo turno ter uma pauta conservadora. Para que isso não ocorra, não basta querer repetir o segundo turno do Lula em 2006 e achar que a comparação entre os anos Lula e FHC é suficiente. Não é! Esta comparação já rendeu os votos que podia render. Se quiser crescer no eleitorado que não votou Dilma no primeiro turno, a campanha precisa apresentar outras iniciativas, outra agenda de discussão.

4) É preciso estar atento à grande imprensa. Ela vai para o tudo ou nada neste segundo turno. Não é permitido esperar qualquer benevolência dela com a candidata do presidente Lula. Por isso, se eu fosse o técnico do time da Dilma estaria organizando comícios pelo Brasil para que o nosso centro-avante possa fazer gols. Ah, e colocaria o Lula também em todos os programas de TV. À exaustão.

O segundo turno já começou. Sexta-feira deve começar os programas de TV. Dilma terminou a partida no último domingo muito cansada. Vamos torcer que entre em campo renovada e com gás para enfrentar o tucano de bico comprido e olhar soturno.

Porque o Brasil precisa.

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