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Rebelião na Usina de Jirau: trabalhadores reagem aos abusos

por O Escrevinhador — publicado 22/03/2011 09h41, última modificação 22/03/2011 09h42
A revolta dos trabalhadores do canteiro de obras da hidrelétrica de Jirau, em Rondônia, foi um dos acontecimentos mais importantes dos últimos tempos no Brasil. Por Pedro Pomar

Por Pedro Pomar*

A revolta dos trabalhadores do canteiro de obras da hidrelétrica de Jirau, no Rio Madeira, em Rondônia, foi um dos acontecimentos mais importantes dos últimos tempos no Brasil, em matéria de luta dos assalariados. Uma das empreiteiras contra as quais se insurgiram os peões é uma antiga conhecida dos brasileiros, por seu envolvimento em escândalos: a Camargo Corrêa.

Tudo indica que o fator imediato da rebelião foi a agressão de funcionários terceirizados a um trabalhador contratado; mas os abusos se sucediam, havendo uma situação de enorme descontentamento entre os peões da obra. De acordo com o sítio TudoRondônia, que publicou diversas reportagens sobre o caso, as principais fontes de descontentamento eram o corte de vantagens (hora-extra, adicionais e outras), o assédio moral, violência física, péssima comida e “preços exorbitantes no canteiro de obras” (vide http://www.tudorondonia.com/).

O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) emitiu uma interessante nota sobre o episódio, que reproduzo a seguir:

Nesta semana acompanhamos a revolta dos operários na Usina Hidrelétrica de Jirau contra as empresas que controlam a barragem. Existem informações de que os mais de 15 mil operários da obra estão em situação de superexploração, com salários extremamente baixos, longas jornadas e péssimas condições de trabalho, que existe epidemia de doenças dentro da usina e não existe atendimento adequado de saúde, que o transporte dos operários é de péssima qualidade, sofrem com a falta de segurança e que mais de 4.500 operários estão ameaçados de demissão. Esta é a realidade da vida dos operários.

Esta situação tem como principal responsável os donos da usina de Jirau, o Consórcio formado pela transnacional francesa Suez, pela Camargo Corrêa e pela Eletrosul. As revoltas dos operários dentro das usinas têm sido cada vez mais frequentes e isso é fruto da brutal exploração que estas empresas transnacionais impõem sobre seus trabalhadores.

Há pouco tempo houve revolta na usina de Foz do Chapecó, também de propriedade da Camargo Corrêa, em 2010 houve a revolta dos operários da usina de Santo Antonio e agora temos acompanhado a revolta dos operários da usina de Jirau.

As empresas construtoras de Jirau são as mesmas que foram denunciadas em recente relatório de violação de Direitos Humanos, aprovado pelo Governo Federal, que constatou que existe um padrão de violação dos direitos humanos em barragens e de criminalização, sendo que 16 direitos têm sido sistematicamente violados na construção de barragens. Os atingidos por barragens e os operários tem sido as principais vítimas.

A empresa Suez, principal acionista de Jirau, é dona da Barragem de Cana Brava, em Goiás, e Camargo Corrêa é dona da usina de Foz do Chapecó, em Santa Catarina. Essas duas hidrelétricas também foram investigadas pela Comissão Especial de Direitos Humanos em que foi comprovada a violação. Estas empresas tem uma das piores práticas de tratamento com os atingidos e com seus operários.

Em junho de 2010, o MAB já havia alertado a sociedade que em Jirau havia indícios e denúncias, que circularam na imprensa local, de que as empresas donas da Usina de Jirau haviam contratado ex-coronéis do Exército para fazer uma espécie de trabalho para os donos da usina de Jirau e não seria surpresa se estes indivíduos contratados pelas empresas promovessem ataques ou sabotagens contra os operários e atingidos, para jogar uns contra os outros e/ou criminalizar nossas organizações e sindicatos.

A revolta dos operários é reflexo desse autoritarismo e da ganância pela acumulação de riqueza através da exploração da natureza e dos trabalhadores. Prova desse autoritarismo e intransigência é que estas empresas se negam a dialogar com os atingidos pela usina e centenas de famílias terão seus direitos negados. As consequências vão muito além disso, pois nesta região se instalaram os maiores índices de prostituição e violência.

Em 2011, o MAB completa 20 anos de luta e os atingidos comemoram a resistência nacional, mas também denunciam que estas empresas não têm compromisso com a população atingida e nem com seus operários. Recebem altas taxas de lucro que levam para seus países e o povo da região fica com os problemas sociais e ambientais.

O MAB vem a público exigir o fim da violação dos direitos humanos em barragens e esperamos que as reivindicações por melhores condições de trabalho e vida dos operários sejam atendidas.

Água e energia não são mercadorias!

*Pedro Pomar é jornalista, editor da Revista Adusp e doutor em ciências da comunicação.
** Matéria publicada originalmente no O Escrevinhador

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