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Política

Protesto no Rio: Mais caciques do que índios

por Edgard Catoira — publicado 27/11/2012 13h49, última modificação 27/11/2012 13h56
Causas certas patrocinadas por pessoas erradas perdem muito da sua importância, escreve Edgard Catoira
Rio

Políticos, artistas e milhares de pessoas participam da manifestação "Veta, Dilma: contra a injustiça, em defesa do Rio"

A forma como o governo fluminense organizou o protesto da Cinelândia, no centro do Rio, na segunda feira 26, serviu apenas para desmoralizar o movimento de quem protesta contra a partilha dos royalties do petróleo.

Ao chegar ao centro para trabalhar, logo cedo, um amigo que tem escritório na praça contou ter percebido que sobrava pouco espaço na Cinelândia para a população. Em frente à sede da Câmara, foi montado um palco digno de popstar. Ao lado, uma estrutura enorme, com dezenas de aparelhos de ar condicionado, fazia crer que se tratava de camarins de apoio e sabe-se lá com que tipo de mimos para os “protagonistas” do ato... Caminhões geradores de energia, torres de som e de iluminação, cabos para todos os lados e, lógico, banheiros químicos azuis completavam o cenário.

Dentro da Câmara, ele viu várias caixas com pães de forma. Certamente, para o buffet que deve ter sido organizado para Suas Excelências... Não tinha bebida, mas, a julgar pela sofisticação da produção do lado de fora, ele acredita que existiam até guardanapos de linho.

Eu, pessoalmente, não acredito que alguém da produção tenha ousado levar guardanapos de linho, mesmo num evento em que estaria o governador Sergio Cabral. Até porque, mais tarde, pouco antes da chegada das autoridades que estavam na passeata, seguranças e PMs desceram o cassetete em alguns manifestantes que estavam com lenços na cabeça, lembrando o escândalo das fotos em que aparecem secretários do governo fluminense, e o próprio governador, em festança num caríssimo restaurante em Paris. Todos estavam felizes, comemorando com empresários sabe-se lá o quê, com guardanapos nas cabeças.

E os manifestantes da Cinelândia que, com seus lenços, remetiam à festança que Cabral gostaria de apagar das mentes da população, acabaram apanhando até com as placas “Fora, Cabral. Veta, Dilma” que carregavam, enquanto um ajudante do governador os chamava de “canalhas oportunistas” sem conseguir controlar a raiva. Esses protestos, por incrível que pareça, a imprensa do Rio não divulgou.

Aliás, causas certas patrocinadas por pessoas erradas perdem muito da sua importância. Como faltam lideranças verdadeiras no estado, o que se viu foi um verdadeiro show, com um clima de festa que contrastou com as reais e justas razões do evento: a revolta contra uma legislação que poderá abalar as finanças do estado.

Sergio Cabral e o prefeito Eduardo Paes, principais anfitriões da manifestação, só conseguiram reunir as pessoas de sempre: alguns notáveis – eu cito apenas Fernanda Montenegro – que lá foram acreditando realmente na importância do protesto, e aquelas transportadas em ônibus fretados. E, para chegar na área perto do palco, só convidados selecionados, usando pulseiras distribuídas pela organização, podiam entrar nos “currais”, ou área cercada, usando as entradas “setor verde” ou “setor azul”, de acordo com a cor do bracelete.

No final das contas, havia mais caciques do que índios; mais espaço para governantes do que para governados. E, convenhamos, se fosse para ser dessa forma, teria sido melhor gravar tudo num estúdio. As autoridades e artistas convidados fariam seus discursos com mais calma e, depois, colava-se a imagem do povo com bandeiras, fogos de artifício e muitos efeitos especiais.

Todo esse material, devidamente editado, seria mandado para Dilma Rousseff assistir, Vai ver o Jornal Nacional teria a exclusividade da divulgação. Na edição, podiam até ter dado um jeito na chuvinha chata...

Triste espetáculo. Não se faz mais manifestações como antigamente.