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Crise da Gol reacende discussão sobre estrutura

por Paula Thomaz — publicado 06/08/2010 12h23, última modificação 23/11/2010 10h37
A poeira vai baixando, mas dúvidas surgem: ainda há uma crise aérea? Como estará em 2014?

Depois de quase uma semana de atrasos e cancelamentos nos voos da Gol, uma notícia veio alentar os usuários dos serviços aeroportuários do Brasil. Como punição, a companhia aérea vai ser multada em R$ 2 milhões. E o ministro da Defesa Nelson Jobim garante, as multas vão resolver a situação. Já era hora de os problemas serem sanados, mas os funcionários da empresa ainda se queixam e mantêm a greve prevista para acontecer na sexta-feira, dia 13.

“As duas categorias, a de tripulantes – que trabalham nos voos – e do pessoal que trabalha em terra, estão ultrapassando as horas de trabalho previstas na regulamentação da profissão, os salários são baixos. Mas tem o pessoal do ‘abafa-abafa’”, diz Selma Balbino, presidente do Sindicato dos Aeroviários (SNA), referindo-se à tentativa do Ministério Público do Trabalho de reunir os trabalhadores para acertar um acordo. “Nós vamos ao encontro, mas a questão não é só o que aconteceu essa semana, o SNA recebe muitas denúncias por assédio moral, agressão física, discriminação racial. A situação se agrava a cada dia”, conta.

Foi o que afirmou à CartaCapital um funcionário da Gol que pediu para não ser identificado. Ele diz não acreditar que o problema tenha sido só no sistema “a tripulação está fazendo operação tartaruga, quando são escalados para o trabalho e não comparecem. Houve mobilização. Todos são muito cobrados, a pressão do dia a dia é muita e os salários ruins. Ninguém fala que tem o sonho de trabalhar na Gol.”

Todo esse caos acabou por fazer as atenções, não os esforços, se voltarem para o problema aeroviário brasileiro. A situação de imensos atrasos e cancelamentos de voos passa, aos poucos, de desastrosa à praticamente normalizada. A poeira da confusão vai baixando de um lado, mas de outro, questionamentos vêm à tona: ainda vivemos numa crise aérea? Como estará a situação na Copa Mundo em 2014?

A verdade é que, faz tempo, os aeroportos estão operando acima da capacidade instalada. “Com 25% a mais de passageiros”, diz o especialista em transporte aéreo, Adyr da Silva. “Estamos chegando perto dos 150 milhões de passageiros por ano, sendo que a nossa capacidade real é de 100, 110 milhões. É uma desproporção descomunal”. Para dar aquele empurrãozinho, para baixo, o movimento de voos por hora que já foi de 66 está em 36. Por que isso aconteceu já que o número de voos só aumenta? Talvez por “medo de que um controlador ou que um operador faça uma bobagem”, supõe Silva.

Enquanto isso, as empresas de aviação civil parecem não se incomodar com os problemas e fazem propagandas e promoções de passagens cada vez mais baratas. Coincidência ou não, nesta semana, a TAM Linhas Aéreas anunciou que vai vender passagens na Casas Bahia em parcelas mínimas de 20 reais e em até 12 vezes no cartão. O projeto deve ser iniciado em duas lojas na Grande São Paulo e se estender até o final do ano para outros pontos de venda da rede de eletroeletrônicos. O objetivo é atrair mais consumidores da classe C, que está consumindo mais, viajando mais e de avião, por que não?
Talvez isso minimize uma das maiores causas de cancelamentos de voos que, segundo Silva, que já foi presidente da Infraero, é a baixa venda de passagens em diferentes voos. “Se há 160 lugares numa aeronave e você só vende 30, não dá para levantar voo. A lucratividade tem de estar entre 35 e 50% sobre o custo do voo. Para resolver isso, você cancela um voo e junta com outro”, fala.

Apesar disso, Silva afirma que as empresas não ofertam mais passagens se não tiverem como suprir a demanda criada. E na verdade, o que elas podem fazer a curto prazo, é colocar mais aviões conforme se aumenta o número de passageiros. Mas aí, esbarra-se nos aeroportos. “Nós temos aeroportos com pátios que não cabem mais aviões. Ampliar ou construir um aeroporto não se faz da noite para o dia. Qualquer obra dessas tem de se fazer estudos, consultar os planos diretores, os projetos anteriores; aí se fixa numa decisão e dela vai ser feito um projeto que vai ter uma constituição. E isso tudo é submetido a um monte de regras que em geral são rigorosas. E depois de tudo pronto ainda tem homologação para certificar que o componente pode ser usado e isso tudo é um processo extremamente demorado”, explica Silva. Mesmo com a verba de R$ 5,15 bilhões para obras em 13 aeroportos do País, não há garantias de que ficarão prontos em menos de quatro anos, para a Copa do Mundo. É no que acredita o especialista.

Uma reportagem do Portal 2014, o oficial da Copa no Brasil, mostra que para os organizadores, a infraestrutura aeroportuária é o principal “calcanhar de aquiles da preparação brasileira”, pior que o atraso da construção dos estádios.

A expectativa é a de que 600 mil turistas estrangeiros e 3,1 milhões brasileiros circulem pelo País no período da Copa, e as dimensões continentais do Brasil vão aumentar ainda mais o fluxo de transporte aéreo.

A cada dia mais próximos da Copa do Mundo, que se tornou um motivo a mais para que se resolva o problema da estrutura aeroportuária, estamos passando da hora de arrumar a casa para começar a festa e cuidar da porta de entrada e saída dos turistas do mundo inteiro.

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