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Direto de Salvador

Primavera partida

por Emiliano José — publicado 06/12/2010 09h47, última modificação 06/12/2010 12h50
Só quem tiver passado pela ditadura, enfrentado a prisão e a tortura saberá, e sofrerá novamente, o que significa o que dom Rafael diz sobre a solidão do enfrentamento com o torturador, com o carrasco que não tem olhos, no livro "Primavera num espelho partido"

Mario Benedetti é um autor provocante. Li dele A Trégua, notável romance publicado em 1960, em que o amor, a paixão, a solidão, a vida sem perspectivas dos centros urbanos aparecem tecidos pela sensibilidade de um extraordinário escritor. O protagonista, Martín Santomé, um viúvo com três filhos, só vive um momento de redenção quando se apaixona, e é correspondido, por uma bela e jovem mulher, que sacode sua vida cinzenta, Laura Avellaneda. Será, como o leitor poderá conferir, apenas uma trégua.

Para mim, que o considero um autor imperdível, que tornou-se ainda mais imperdível com Primavera num espelho partido.  Me fez mergulhar no tempo. No tempo do exílio da prisão, da tortura. No tempo do companheirismo, da solidariedade na dor . Da solidão da prisão. Da tentativa permanente de não sucumbir. Das lágrimas furtivas dos homens de ferro que pretendíamos ser, quase convocados a ser assim para não nos desintegrarmos. Ensimesmei-me nas últimas horas com a leitura de Benedetti, quase autobiográfico.

Benedetti, ao construir Santiago, prisioneiro político no Uruguai, Graciela, sua companheira no exílio argentino, dom Rafael, o intelectual pai de Santiago, e ao retratar as grandezas e as miudezas de tantos outros personagens, incomoda, e muito a quem tenha, como eu e tantos companheiros e companheiras, vivido a dureza e a grandeza de ter enfrentado e sofrido as consequências do terror de uma ditadura. Aqui, no Uruguai, na Argentina, no Chile, onde quer que seja, ditadura é a mesma coisa.

Fomos grandes e fomos pequenos. Acertamos e erramos. Fomos voluntariosos e donos do caminho correto. Amamos e desamamos. Encontramos amores e nos desencontramos. Fomos surpreendidos pela força das armas dos generais. Pela tortura que eles determinavam. Pelo assassinato de tantos dos nossos, sempre pelos métodos mais brutais e mais covardes. Em nossos corpos e em nossas almas esse tempo cravou-se para sempre. Nós nunca o esqueceremos, para o bem e para o mal. E não esquecer, e aqui é para o bem, quer dizer que sempre lutaremos contra qualquer ditadura.

O eixo narrativo do romance – será que deveria chamá-lo romance, considerando que ele próprio, Benedetti, é personagem explícito? – gira em torno de Santiago e Graciela, com o ingrediente de que ela vai sentir o tempo e a distância corroerem o desejo e o amor por Santiago, e levá-la a se apaixonar por Rolando, companheiro antigo de Santiago e que também vive no exílio argentino.

Tudo nos toca. As reflexões das cartas de Santiago a Graciela e a Beatriz, filha de 9 anos do casal, de dom Rafael, do próprio Benedetti, de Rolando, de Graciela. A decisão de Graciela, a conselho do próprio dom Rafael, de não contar a Santiago do amor dela por Rolando enquanto ele estiver preso, é um dos momentos mais sensíveis e tensos do livro.

Se a boa literatura for aquilo que incomoda, estamos diante de um belíssimo livro. Desculpando-me naturalmente pela emoção e quem sabe parcialidade da leitura. Porque a mim, em alguns momentos, parecia estar revivendo um período, descontadas as diferenças de tempo e lugar.

Penso na reflexão de dom Rafael acerca do Uruguai sob ditadura, e dizendo que não sabia como nem quando, mas que a garotada de hoje, daquele tempo em que ele estava situado, é que seria a vanguarda de “uma pátria realista”.  E que os veteranos, “as carroças que ainda estivermos rodando, nós os ajudaremos a recordar o que viram. E também o que não viram”.

Parece triste, e é, mas é ao mesmo tempo esperançoso, ao dar alento a uma espécie de diálogo entre gerações, de modo que não sobrevenha o esquecimento sobre ditaduras. Quando lembrarmos sobre as ditaduras, não pensem tratar-se apenas de raiva, asco ou nojo delas. Também. Mas o que pretendemos, os que estamos na luta e guardamos fortemente as lembranças daquele tempo, é que os mais novos firmem cada vez mais suas convicções democráticas, valorizem a liberdade, e saibam o quanto é triste, pesado, sombrio o período de uma ditadura.

Só quem tiver passado por ditadura, ter enfrentado a prisão e a tortura saberá, e sofrerá novamente, o que significa o que dom Rafael diz sobre a solidão do enfrentamento com o torturador, com o carrasco que não tem olhos. Nesse momento, “a pessoa fica espantosamente só, não tem sequer a companhia da presença suja do teto ou das paredes, nem dos rostos imundos dos que o destroçam”.

Ali, na tortura, o prisioneiro “está só com seu capuz, ou mais exatamente com o avesso do capuz; só com sua taquicardia, suas ânsias, sua asfixia ou sua angústia sem fim”. No meu caso, era um grosso esparadrapo que tampava os meus olhos enquanto os choques, o afogamento, o pau-de-arara dilaceravam meu corpo jovem de 24 anos.

E quando supliciam um homem ou uma mulher, mais velho ou mais novo, não fazem sofrer apenas aquele homem ou aquela mulher, matando-o ou não. “Martirizam também (apesar de não prendê-los, embora os deixem desamparados e atônitos em sua casa violada) sua mulher, seus pais, seus filhos, aqueles com quem se relaciona.”

Nós, até hoje, não sabemos o destino de tantos que foram mortos e desaparecidos pela ditadura brasileira, e o STF, quase que num escárnio, decide que os torturadores foram alcançados pela anistia. Há viúvas, há filhos, há irmãos, irmãs que até hoje querem enterrar um ente querido seu, e não podem. Nem esse direito têm. Ditadura é isso.

Assustam-se os que nos ouvem dizer que na tortura a idéia da morte não impressiona. Ao menos o desejo de algum descanso, desmaio, e se sobrevir, a própria morte. Ali, naquela situação-limite da existência, “também está presente a idéia da morte / vem e vai / às vezes coincide com o medo e outras não / em mim geralmente não coincidia / no fim a dor provoca mais medo que a morte – pode-se inclusive encarar a morte como um analgésico definitivo”. O desabafo é de Santiago, embora ele conclua que “há sempre um pedacinho de primavera que resiste”.

Ali, também, nesse tempo, dolorido, nossas reservas morais são postas à prova. Não só na prisão, mas fora dela. E o caso de amor entre Rolando e Graciela é a evidência disso. É um lindo encontro o deles. Mas um encontro que os põe diante de conflitos morais – ou de uma espécie de moral – muito fortes. Ela, por todo o dever de lealdade ao velho amor, pai de sua filha. Ele, por ter compartilhado da luta com Santiago. E Rolando só é convertido a uma relação monogâmica pela tempestade da paixão avassaladora por Graciela. Rolando confessa que nunca tinha lhe acontecido isso com nenhuma mulher. Tinha como princípio que a relação fosse sempre provisória. E agora Graciela, encurralado pela paixão.

E Santiago, como se disse, só saberá dessa paixão, quando pisar os pés na Argentina, ansioso, em busca do amor de sua companheira e de sua filha. E feliz também porque vai rever Rolando. É a vida. É o amor. São as paixões, os sustos, os alumbramentos, que surpreendem a todos. Benedetti deixa o leitor em suspense, terminando o livro no momento em que Santiago divisa ao longe, ao desembarcar no aeroporto, Graciela, Beatriz e o próprio Rolando, para sua infinita alegria. O que será pela frente, ninguém sabe.

Benedetti é também grande poeta, e eu me lembro de seu belíssimo Táctica e estrategia. Ele finaliza o poema, que fala do amor, dizendo

Mi estrategia es

en cambio

más profunda y más

simple

mi estrategia es

que um dia cualquiera

no sé cómo ni sé

com qué pretexto

por fin me necesites.

Quem sabe quem necessitará de quem ao final da história de Primavera num espelho partido? Graciela de Rolando? Santiago de Graciela? Graciela de Santiago? A resposta fica em aberto. Para o exercício do leitor. Como na vida, tudo pode ser.

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