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Política

Entrevista

Prefeito do Recife diz que não fará campanha para Humberto Costa

por Piero Locatelli — publicado 15/06/2012 11h22, última modificação 15/06/2012 15h56
Preterido pela direção nacional do PT, João da Costa diz não se sentir confortável para fazer campanha para o senador, o escolhido de Lula
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João da Costa (à direita) com o governador de Pernambuco, Eduardo Gomes. Foto: Divulgação / Prefeitura do Recife

Preterido pelas lideranças nacionais do PT, o prefeito do Recife, João da Costa, entrou nesta semana com um recurso no Diretório Nacional do partido, a instância decisória mais alta do PT, para tentar reverter a decisão que o afastou da disputa pela reeleição. Por enquanto, o senador Humberto Costa, o candidato preferido das lideranças do PT nacional, incluindo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é o nome mais forte. Se for novamente derrotado dentro do PT e não conseguir ser candidato, João da Costa diz, em entrevista a CartaCapital, que não ajudará na campanha de Costa (PT-PE) caso ele seja confirmado como candidato à prefeitura.

A situação de João da Costa não é fácil. Ele saiu vitorioso das prévias realizadas no Recife contra o secretário de governo Maurício Rands, mas a eleição interna do PT foi abalada por denúncias de fraudes. A Executiva Nacional do PT interveio para impor a candidatura de Humberto Costa, que deu demonstração de força nesta semana. O senador, ex-ministro do governo Lula, foi recebido pelo ex-presidente, que prometeu apoio a ele.

Até o final do mês, o Diretório Nacional deve se reunir para decidir sobre a situação. É pequena a chance de uma mudança, mas mesmo assim, João da Costa diz que não desistiu da sua candidatura e que também ainda não cogita sair do partido.

Carta Capital: Caso não consiga ser candidato, o senhor sairá do partido?

João da Costa: Isso não está no meu horizonte político. Já convivi com o PT por 30 anos e passei por outros momentos difíceis como esse.  Eu espero que o PT aceite as divergências dentro do partido e respeite seus mecanismos de democracia interna. Enquanto isso acontecer, eu não vejo motivo para sair do PT.

CC: O que o senhor fará caso Humberto Costa seja candidato? O senhor faria campanha para ele?

JC: Eu não me sinto confortável, porque esse processo não resultou de um convencimento ou de um debate amplo no partido. A minha situação é muito desconfortável para apoiar e estar engajado na candidatura do senador Humberto Costa.

CC: O senhor ainda acredita que possa ser o candidato do partido?

JC: Posso. Porque do ponto de vista regimental do partido, as instâncias ainda não foram esgotadas. Nós temos o recurso para ser julgado pelo Diretório Nacional.

CC: Mas a decisão também é política e a cúpula do partido já sinalizou a preferência pelo senador...

JC: Do ponto de vista político, a solução buscada pela Executiva Nacional até agora não surtiu efeito. Nós não produzimos a unidade do partido. Pelo contrário, a diferença se acentuou e a unidade da frente está muito distante. Há um sentimento perceptível na cidade de não aceitar a forma como o PT está conduzindo esse processo. Então até a convenção essa situação continua em aberto, estamos trabalhando para mostrar que somos um candidatura competitiva.

CC: O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve com Humberto Costa esta semana e disse que iria até o fim com a candidatura dele. O senhor acha que é possível ir contra a decisão de Lula no PT?

JC: Eu não estou indo contra a posição do ex-presidente. O PT é um partido em que a gente pode exercer o contraditório. O partido pode combinar a articulação de decisões estratégias nacionalmente com condições específicas dos locais que têm de ser levadas em conta. Não se faz política por decreto. Nosso ex-presidente Lula tem todo o direito, tenho muito respeito pela posição política dele. Mas em algum momento a gente pode ter uma diferença, uma divergência e pode expressá-la democraticamente
CC: O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), disse que irá comandar o processo eleitoral independentemente das decisões do PT na capital. O governador sinalizou que pode romper a aliança com o PT e lançar um candidato do PSB. O senhor ainda vê a possibilidade de aliança entre os dois partidos?
JC: A candidatura do PSB ainda está nos campos da possibilidade, ainda não é um fato político. Espero que se possa buscar outro caminho. Agora, eu falei para os companheiros do partido que ao fazer prévias, sendo eu um prefeito com possibilidade de reeleição, poderíamos colocar em risco a condução do PT na situação. Hoje a gente está numa situação difícil para comandar esse processo.