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Por uma política não fascista

por Coluna do Leitor — publicado 26/10/2010 08h35, última modificação 26/10/2010 16h42
Estamos, portanto, diante de uma forma de fazer política que mobiliza e utiliza a crença dos eleitores para silenciar o político, para calar o debate, para produzir o pensamento totalitário. Por José Simão S. Sobrinho

Por José Simão da Silva Sobrinho*

Em nossa sociedade, existem vários mecanismos de administração dos sentidos, de controle dos gestos de interpretação, e, conseqüentemente, dos sujeitos. Desses mecanismos, um merece destaque: a filiação do sentido ou interpretação que se quer silenciar a posições discursivas historicamente interditadas.

Esse funcionamento discursivo relativo a uma política dos sentidos pode ser observado no pleito eleitoral em curso, no esforço feito pelo candidato José Serra (PSDB) para identificar ou associar a proposta da candidata Dilma Rousseff (PT) sobre o tema aborto aos sentidos ou interpretações desse tema interditados pela ideologia judaico-cristã.

A campanha de José Serra desloca o discurso de Dilma Rousseff sobre o aborto do campo discursivo da saúde pública, onde ela o circunscreveu, para o campo discursivo do sagrado, da religião, onde, conformado pela ideologia judaico-cristã, esse tema é um tabu.

Nesse campo discursivo, o aborto é interpretado como um atentado à vida e ao Criador. Essa posição discursiva é hegemônica na formação social brasileira. Ao identificar o discurso da candidata Dilma Rousseff com esse sítio de significação onde o aborto é um tabu, José Serra silencia o debate sobre o tema.

A identificação da candidata petista com o tabu produz o efeito de sentidos de que ao votar em Dilma Rousseff o eleitor estaria votando no aborto como um atentado à vida e ao Criador. Estaria votando contra a vida e contra o Criador. Na ideologia judaico-cristã, ser contra a vida e o Criador significa colocar-se do lado de Satanás. Interdita-se, desse modo, o voto em Dilma Roussef.

Estamos, portanto, diante de uma forma de fazer política que mobiliza e utiliza a crença dos eleitores para silenciar o político, para calar o debate, para produzir o pensamento totalitário. Algo análogo aos fascismos de Hitler e de Mussolini, que mobilizaram e utilizaram os desejos das massas na construção de regimes totalitários.

A política deve potencializar o pensamento. Deve promover a reflexão e o debate sobre temas que interessam à sociedade. Ao interditar o discurso da candidata Dilma Rousseff sobre o aborto, por meio do deslocamento desse discurso do campo discurso da saúde pública para o campo discursivo da religião, o candidato José Serra faz justamente o contrário, ele anula o debate e pratica uma política totalitária.

Essa mesma política de silenciamento pode ser observada em outras esferas de atividade humana. Ela está em funcionamento sempre que os atores sociais que questionam a autoridade ou o status quo são significados ou identificados como inimigos da empresa, da instituição, do “bem comum”, da Pátria etc. Sempre que se busca excluir o pensamento divergente identificando-o com uma posição discursiva historicamente interditada.

* José Simão da Silva Sobrinho professor de Língua Portuguesa e Linguística da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) e leitor assíduo de CartaCapital.

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