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Política

Novo governo

Por uma política de Estado

por Socrates — publicado 20/11/2010 07h00, última modificação 19/11/2010 22h36
O futuro ministro dos Esportes deveria fugir dos eventos sociais e dos bajuladores, sempre à espreita. Eu começaria por limitar os mandatos esportivos dos dirigentes

O futuro ministro dos Esportes deveria fugir dos eventos sociais e dos bajuladores, sempre à espreita. Eu começaria por limitar os mandatos esportivos dos dirigentes

Há alguns anos coloca-se uma boa soma de recursos nas mãos dos nossos administradores esportivos para ações indefinidas, mas percebemos pouquíssimos resultados práticos. Precisamos mesmo é de movimentos que nos ofereçam a perspectiva dos objetivos a serem alcançados.

Não interessa, em uma política de Estado, o resultado esportivo em si, discurso repetitivo de tantos que falam em esporte principalmente às vésperas de recebermos uma Copa do Mundo e uma Olimpíada. Importa, isso sim, o quanto de mobilização está sendo processado na sociedade. Só a partir daí é que poderemos entender uma maior valorização do esporte competitivo.

Não dá para imaginar, e isso é histórico, boas representações nacionais sem grandes atletas. E de onde virão esses atletas? Virão de uma estrutura que permita, estimule e dê acesso à prática desportiva a todos. Dessa multidão sairão os mais bem-dotados, mas isso nem de longe é feito ou sequer pensado. O que importa é ter os recursos na mão para utilizá-los de acordo com interesses pontuais ou menores.

Sempre que há oportunidade, como agora, de investimentos maciços nessa área, inclusive com extraordinária renúncia fiscal da União, os mesmos eternos administradores esportivos tentam se aproximar mais e mais do governo. É muito mais frequente vermos nosso ministro dos Esportes cercado por eles. Será que é tão importante tal vizinhança? Não creio. Até porque eles jamais se interessaram pelo esporte em si. Querem ganhos pra sua gente, isso sim.

No futebol, por exemplo. Diga-me uma única iniciativa da Confederação que tivesse como objetivo a propagação da prática desse esporte. Uma única que estimulasse a formação intelectual dos nossos jogadores. Nenhuma! Por tudo isso, eu gostaria de lembrar ao futuro ministro, seja ele quem for e caso a pasta seja preservada, que ele deverá ter cuidado com quem anda. Que deverá estar atento à formatação de um projeto capaz de atender aos interesses do País- e não à fome de poucos.

Quando a gente adquire certa projeção, por conquista ou indicação, atrai toda sorte de interessados. Alguns vêm atrás de uma pequena quantia de dinheiro para a subsistência imediata e outros querem emprego, mas a maioria quer mesmo é explorá-lo de todas as maneiras possíveis. Raramente se aproximam pessoas do bem que buscam te auxiliar em alguma dificuldade.

Reconhecer quem é quem no meio da multidão nem sempre é fácil. No caso dos últimos ministros, porém, está claro com quem eles se relacionaram. Basta buscar nos anais do Congresso Nacional, de onde geralmente são egressos, o resultado das CPIs que investigaram nosso esporte há muitos anos, as quais, por sinal, quase nenhum resultado provocaram, pois nada se fez para limitar as ações dos mandatários ou ao menos responsabilizá-los pelo resultado de suas gestões.

Os ministros podem argumentar que esses contatos são importantes por culpa do cargo ocupado por essas pessoas,- mas eu gostaria de saber qual é o objetivo dessa proximidade. Que eu saiba não se discute algo que seja relacionado com o futuro do nosso esporte.

No mais das vezes, é oferecido aos ministros comendas de parco valor e convites para acompanhá-los em passeios nas diversas competições que ocorrem pelo mundo; como para o Pan-Americano ou alguma capital sul-americana nas eliminatórias para a Copa do Mundo, das quais felizmente escaparemos nos próximos anos. É muito pouco.

Ministro, não se deixe envolver por essa gente. Você terá coisas mais importantes a fazer. O trabalho que existe pela frente para que possamos um dia sonhar com algo estabelecido e que dê resultados concretos – do ponto de vista social e esportivo – é longo e difícil. Não dá pra você ficar perdendo tempo com eventos sociais que não levam a lugar algum e não oferecem nenhum ganho em relação ao que todos esperamos. Existem pessoas, grupos e organizações com propostas muito mais interessantes. Basta abrir a agenda a quem quer um país melhor. E não a esses aí.

O que se necessita é, antes de tudo, criar uma nova situação em que os mandatos esportivos, como todos os outros, sejam limitados a prazos bem definidos, além de aumentar o eleitorado que determinará quem nos comandará e principalmente uma ação concreta do Estado brasileiro no encaminhamento das questões esportivas.

Em suma, o que se deseja é uma política de Estado, não de governos. Será que isso é tão difícil assim? Ou não há interesse? Com a palavra, os nossos novos representantes.

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